Como saí da vida agoniante em uma construtora para o Slow Living na estrada

Por Ismael Sant'Ana

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Voltava pra casa de UBER, pré-carnaval de 2017, e conversava sobre o bairro onde morava, Santa Tereza, famoso pela boemia belorizontina. Falava com o motorista sobre a vontade de me mudar porque lá estava diferente e muito cheio. O carnaval, que era divertido, deu lugar a ruas entupidas de gente, sem mais o mesmo clima agradável de antes. “O bairro que mudou ou foi você”? A pergunta do Seu Antônio me beliscou lá dentro!

Logo depois de me formar como técnico em eletrônica, não segui a tradição familiar de ir direto para a faculdade (confesso, não me empenhei a ponto de passar no único vestibular que fiz na época). Fui seduzido por ganhar rápido o próprio dinheiro com o conhecimento que tinha, e fui trabalhar no Rio de Janeiro por um ano, numa extinta empresa de telecomunicações. De estagiário, passei a supervisor de instalações telefônicas nas ruas da capital do Guanabara. De lá, interior de Minas, obra da Intelig beirando a linha férrea, entre Montes Claros e Capitão Enéas (onde?). Um ano depois, em outra empresa, supervisor de redes de dados, em BH, até virar sócio em uma empreiteira na mesma área, de 2002 a 2005. Da área técnica, coloquei um pé no comercial, xeretando também como era esse negócio de marketing, e me vi cursando Administração (aí sim me empenhei porque senti que era a hora certa). Até que…

… aos 26 anos estava esgotado de tanto viajar e trabalhar, desmotivado por questões internas da empresa e pessoais, sem ter tempo pra outras coisas importantes. Sem muito pensar, chutei o balde e avisei os dois sócios que sairia, diante dos olhares incrédulos (se estiverem lendo, não me levem a mal, mas ia adoecer naquele ritmo). Acredito que essa foi uma pré-epifania do slow living aparecendo.

Quando empreendemos uma vez, fica difícil esquecer a postura mental que assumimos, e nos contentar com qualquer substituição de trabalho é um pouco mais complicado. Ou seja, fiquei uns bons meses matutando sobre a vida, com as perguntas frequentes na cabeça: “Ismael, você é burro? Como abriu mão da sua empresa assim? E aquele tanto de certificação que você conseguiu no mercado de telecomunicações? E a experiência toda que adquiriu no negócio? De que adianta fazer administração se não tem mais a empresa? O que você vai fazer agora, hein, espertão?” Foram perguntas gentis que me fiz, enquanto curtia um pequeno período de tempestade interna.

Foi em um belo dia que recebi a ligação de uma imobiliária de Belo Horizonte, em resposta a um currículo que havia enviado. – “Não enviei nada não, minha senhora! Houve algum engano!” A pessoa do outro lado da linha não acreditou muito em mim. Enquanto ela falava, me lembrei de quando li “Independência Financeira, o Guia do Pai Rico”, e me disse internamente: “Olha, me vejo investindo e trabalhando com imóveis! Posso fazer isso!” Resultado: outra vez sem pensar muito, marcamos a entrevista e entrei oficialmente pro mercado imobiliário, em agosto de 2005. Pouco tempo depois conheci um engenheiro mecânico paranaense que me bagunçou as ideias. Ele se tornou, pra mim, um guru do empreendedorismo, por sua história, e logo me convidou para abrirmos uma indústria de reaproveitamento de serragem para a fabricação de lenha para fornos de alta potência. A máquina importada era uma fortuna, mas ele tinha o projeto para construí-la no Brasil por um terço do valor. Perfeito! O Ismael empreendedor voltou com força total e em menos de um mês o plano de negócio estava pronto. Por questões pessoais, meu amigo e guru voltou pro Paraná e o projeto não saiu do papel. Não preciso comentar a tamanha frustração que senti na época. “Caramba, Ismael! De novo?” Pedi uma licença na imobiliária e voltei a matutar sobre a vida.

Início de 2006, já confortado, o Robert T. Kiyosaki me puxou as orelhas e me mandou de volta pros imóveis. Retornei forte, em menos de seis meses aprendi um bocado e achei meu nicho em incorporações imobiliárias – pra quem não sabe, é quando imóveis são vendidos na planta, antes e durante a obra. Saí da imobiliária e fui beber direto da fonte, trabalhando em grandes construtoras da capital, me especializando no assunto e ajudando as pessoas a conseguirem apartamentos que ainda não existiam.

Nesse período, descobri que, acima das transações imobiliárias e das gordas comissões, estava a gratificação por orientar, ensinar e alertar as pessoas sobre os detalhes dos negócios, mesmo muitas delas não fazendo a menor ideia de que tais perigos ou benefícios existiam, e por isso nem se preocupavam. Mesmo, muitas vezes, não concluindo o negócio por falar aquelas verdades que costumam ficar embaixo do tapete, a ideia de esclarecer todos os pontos me agradava bastante. A sensação do dever cumprido me entusiasmava por poder compartilhar esse conhecimento e mudar a vida de muita gente, deixá-las felizes por aquele momento, seguras e longe de altos prejuízos mais pra frente. Acreditando que ainda poderia fazer mais por mim e pelos outros, me matriculei no MBA em Mercado de Capitais, para poder comparar todas as formas de investimento e orientar melhor e dar mais segurança as pessoas. E assim foi até julho de 2017!

“Essa é uma bela pergunta, Seu Antônio!” Me despedi do iluminado motorista do UBER e acredito que ele não saiba o quanto essas poucas palavras me encorajaram pra outro caminho. Eu realmente era outra pessoa, e essa nova versão de mim mesmo, modelo 2017, estava agoniada! Ainda demorei cinco meses conversando mentalmente comigo até cortar essa agonia pela raiz! E assim fiz. Não me adequava mais ao ambiente onde estava, já hostil pelos constantes conflitos de interesses e princípios. Não havia mais propósito ali e continuar seria concordar com escolhas que me incomodavam profundamente.

Compartilho com vocês a melhor sensação de todas! É indescritível o que sentimos quando atendemos o nosso desejo e simplesmente jogamos fora (sim, encaremos como um grande, cheio e pesado saco de lixo) a agonia da vida que, além de não nos dar mais tesão, ainda briga diariamente com nossos princípios!

É exatamente isso que recomendo a todos! Se antes adorava mostrar o que as pessoas nem faziam ideia que existia ao comprar um imóvel na planta, transformando-as de certa forma – a porta que o conhecimento nos abre -,  hoje ficarei bastante satisfeito se esse meu exemplo pessoal ajudar alguém a descobrir, aceitar e alimentar também a sua nova versão!

A minha mais nova versão, modelo 2018, é alimentada com o Slow Living e com o empreender em negócio próprio (empreender não é só ter sua própria empresa – veja aqui o texto onde a Bruna fala sobre isso). É estimulada por estarmos há seis meses morando em casas alugadas por temporada no nordeste brasileiro, conhecendo as riquezas culturais e naturais e, principalmente, conhecendo a mim mesmo mais profundamente, incentivando as pessoas a fazerem o mesmo através do slow living e do empreendedorismo slow.

E como saí da vida agoniante em uma construtora para o Slow Living na estrada?

Desacelerando. O Slow não é no sentido de ser lento, mas no de uma pausa para a reflexão. Desacelerar para prestar atenção no rumo que a vida tomou, se o que fazemos nos satisfaz e como usamos o nosso tempo. Só desligando o piloto automático para achar sentido no que fazemos e corrigir a direção pro que queremos realmente. Usamos nosso tempo com o que realmente importa? Com algo produtivo que beneficie a nós mesmos e aos outros? Ou só colecionamos tarefas, burocracias e reuniões inúteis, em um trabalho sem propósito porque alguém um dia inventou que temos que trabalhar de 9h às 18h (ou muito mais) e que é assim que temos sucesso, viramos grandes executivos ou ganhamos as tão sonhadas promoções?

Devagar aí, por favor! Isso realmente importa pra você? O Slow Living chegou com esse alerta: temos respeitado nosso tempo e o dos outros?

Hoje sei que tenho mais tempo e liberdade pra fazer o que realmente importa pra mim.

Qual a sua nova versão? O que te alimenta? Você já consegue enxergar isso ou precisa também do Seu Antônio para te beliscar?

Espero que essa história possa inspirar quem, assim como eu, ficou um bom tempo com um NÃO guardado na garganta!

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