Biblioteca Review | O Elogio ao Ócio

Por Bruna Miranda

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E continuamos com a sorte de encontrar livros geniais pelo caminho e pelas casas compartilhadas pelas quais moramos. Voltando ao bangalô onde ficamos na Praia do Pontal de Coruripe, Alagoas, encontramos esse livro na prateleira e ele agora gentilmente segue com a gente (tem algo melhor que os livros que vêm e vão…?). É tão sintonizado com o que acreditamos e buscamos que parece que ele tava lá só nos esperando!

O Elogio ao Ócio é do matemático e filósofo britânico Bertrand Russel, um dos mais brilhantes defensores da racionalidade, da humanidade e da liberdade de pensamento. Foi escrito na década de 1930 e lançado no Brasil em 2002. Tão incrível pensar na atemporalidade desse tema. Naquela época, bem diferente da nossa realidade atual, ele já defendia algo tão essencial é necessário, inclusive aos dias de hoje!

Sua tese central é de que o trabalho não é o objetivo da vida. Se fosse, as pessoas gostariam de trabalhar. Mas não é isso o que acontece. O propósito do livro é lutar por um mundo em que todos possam se dedicar a atividades agradáveis e compensadoras, usando seu tempo livre não só pra se divertir como também pra ampliar seu conhecimento e capacidade de reflexão. O prefácio não poderia ter sido escrito por outro que não o sociólogo Domenico de Masi, criador do conceito do Ócio Criativo.

Destacamos alguns trechos do livro aqui. Pra se inspirar e refletir!

Acredito que todos trabalhamos demais hoje em dia e afirmo com toda seriedade: a crença excessiva na virtude do trabalho causa muito mal no mundo moderno. O caminho para a alegria e para a prosperidade está em uma organizada diminuição do trabalho.

O lazer é essencial à civilização e em tempos passados o lazer para alguns poucos privilegiados era possibilitado apenas pelo trabalho da maioria. Todavia, o trabalho era valorizado não porque fosse bom em si, mas porque o lazer era considerado bom.

Se o assalariado comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria bastante para todos, e não haveria desemprego – supondo-se uma quantidade bastante modesta de bom senso organizacional. A técnica moderna permitiu diminuir enormemente a quantidade de trabalho requerida para assegurar o necessário à vida de todos, e possibilita distribuir lazer com igualdade sem ocasionar prejuízo algum à civilização.

Quando sugiro reduzir a jornada diária de trabalho para quatro horas, não defendo preencher todo o tempo restante com tolices, com frivolidade pura. Defendo, isso sim, que quatro horas de trabalho diário deveriam prover uma pessoa de necessidades e confortos elementares e que o resto do tempo ela poderia usar como quisesse. É uma verdade para qualquer sistema social que a educação deveria continuar por tempo além do costumeiro e deveria ensinar, entre outras coisas, como usar o tempo livre de forma inteligente.

Também não penso principalmente em atividades sérias, consideradas “intelectualizadas”. As danças camponesas se extinguiram por quase toda parte, exceto pelas mais remotas zonas rurais, mas a natureza humana provavelmente ainda abriga os impulsos que as motivaram. Os prazeres da população urbana tornaram-se em sua maioria passivos: ver filmes, ver partidas de futebol, ouvir rádio e por aí vai. A passividade é consequência de uma jornada de trabalho que absorve totalmente as energias ativas das pessoas; se tivessem mais tempo livre, as pessoas poderiam novamente desfrutar de prazeres nos quais desempenham um papel ativo.

Em um mundo que não obrigasse ninguém a trabalhar mais do que quatro horas diárias, toda pessoa com curiosidade científica estaria livre para saciá-la, e todo pintor poderia pintar sem medo de passar fome, não importando a qualidade de suas telas. Jovens escritores não se veriam forçados a chamar a atenção escrevendo best-sellers escandalosos com a expectativa de conquistar a independência econômica necessária a trabalhos monumentais, para os quais, aliás, quando a hora finalmente chegar, eles podem ter perdido o gosto e a capacidade. Se alguém, em seu trabalho cotidiano, se interessasse por alguma área da economia ou do governo, poderia desenvolver suas ideias sem o distanciamento acadêmico que frequentemente torna inverossímeis os trabalhos dos economistas universitários. Os médicos teriam tempo de aprender sobre os progressos da medicina, os professores não se desesperariam lutando para ensinar, através de métodos rotineiros, assuntos que eles aprenderam na juventude, e que podem, nesse intervalo, ter sido demonstrados como falsos.

Acima de tudo, haveria felicidade e alegria de viver, em lugar de nervos aos frangalhos e fadiga. O trabalho desempenhado bastaria para proporcionar um lazer agradável, sem provocar exaustão. Desde que não estivessem cansadas demais, as pessoas não ocupariam o tempo livre com entretenimentos passivos, estúpidos e monótonos. Pelo menos um por cento devotaria o tempo livre a assuntos de alguma importância pública, e, desde que não dependesse desses afazeres para sobreviver, nada bloquearia sua originalidade, pois não haveria razão para conformar-se aos padrões de acadêmicos arcaicos.

Não somente em casos excepcionais as vantagens do lazer se manifestariam. Homens e mulheres comuns, diante da oportunidade de uma vida feliz, seriam mais bondosos e menos agressivos, menos inclinados a ver os outros com desconfiança. O gosto pela guerra desaparecerá, em parte pela maior bondade das pessoas, em parte porque uma guerra demanda trabalho longo e árduo de todos.

A generosidade é, de todas as qualidades, a que o mundo mais precisa, e resulta de bem estar, não de uma vida de luta árdua. Os métodos modernos de produção nos deram a possibilidade de distribuir conforto e segurança para todos; escolhemos, ao invés disso, que uns trabalhem demais enquanto outros morrem de fome por falta de trabalho. Até agora, continuamos a queimar tanta energia trabalhando quanto era regra antes da invenção das máquinas; nisso somos tolos, mas não há razão para sermos tolos para sempre.

Havia antigamente uma disposição para o entretenimento e a brincadeira, que foi bastante inibida pelo culto da eficiência. A pessoa moderna acredita que tudo deve ser feito para conseguir outra coisa e nunca como um fim em si mesmo.

O uso judicioso do lazer, devo admitir, é produto da civilização e da educação. Um homem que toda a sua vida trabalhou longas horas irá se sentir entediado se ficar ocioso de repente. Mas, sem uma quantidade adequada de lazer, a pessoa fica privada de muitas coisas boas. Não há mais nenhum motivo pelo qual a maioria da população deva sofrer tal privação, e só um ascetismo tolo faz com que continuemos a insistir no excesso de trabalho quando não há mais necessidade. Mas o que acontecerá quando se chegar à situação em que o conforto seja acessível a todos sem a necessidade de tantas horas de trabalho?

Se perguntarmos ao trabalhador qual é a melhor parte de sua vida, ele dificilmente responderá: ‘É o trabalho manual (acredito que aqui com o sentido de braçal), que sinto como a realização da mais nobre das tarefas humanas, e também porque fico feliz em pensar na capacidade que tem o homem de transformar o planeta. É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso, que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia para poder voltar ao trabalho, que é a fonte da minha felicidade.’ Nunca ouvi nada do gênero saindo da boca de nenhum trabalhador. Eles encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é do lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar.

A vida universitária se aparta tanto da vida no mundo em geral que os acadêmicos tendem a passar ao largo das preocupações e dos problemas dos homens e das mulheres comuns; além disso, escolhem formas de expressão que bloqueiam o mínimo de influência que suas ideias deveriam exercer sobre o público em geral. Outra desvantagem é que as universidades organizam os estudos em disciplinas e quem concebe uma linha original de pesquisa tende a sofrer com desencorajamentos. As instituições acadêmicas, portanto, úteis como possam ser, não são guardiãs adequadas dos interesses da civilização em um mundo onde todos fora de suas paredes vivem tão ocupados que não podem perder um segundo com investigações “inúteis”.

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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