Carl Honoré e o slow reading | Convidamos | Guia Slow Living Dois

Por Bruna e Ismael

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Texto extraído da edição Dois de nossa revista impressa, o Guia Slow Living, que você pode conhecer melhor e pedir a sua aqui.

Por Bruna Miranda

O Guia Slow que você tem em mãos incentiva uma leitura offline e a seu tempo. Os motivos pelos quais valorizamos tanto o resgate à leitura desconectada são vários, a começar por ser um agradável e benéfico hábito, livre das inúmeras distrações do universo online, saudável para nossa mente, pronto para acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar. No computador, nos habituamos à “leitura express”, aquele clássico “passar o olho”. Isso quando lemos! Quantas vezes, nas inúmeras abas abertas e acumuladas, nos prendemos apenas ao título de uma matéria, ao primeiro parágrafo, ou lemos tão rápido que mal assimilamos o que ali se encontra?

Não poderíamos pensar em uma melhor maneira de concluir essa edição do que com um convidado especial falando exatamente sobre a busca por esse oposto, o Slow Reading (“Leitura Lenta”). Embaixador do Movimento Slow por todo o mundo, o escocês Carl Honoré, premiado jornalista, autor e palestrante, em sua longa e desacelerada trajetória nos aponta os benefícios de colocarmos os pés no freio como um meio de atingirmos a criatividade e a excelência, na vida profissional, e a tranquilidade e a realização, na vida pessoal.

Review – O que significa e quais as vantagens do slow reading?

Carl Honoré – Lembra-se daquela velha piada do Woody Allen? “Eu fiz curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em 20 minutos. É sobre a Rússia”. Soa terrivelmente familiar, não é? Atualmente, percorremos milhares de palavras por dia em alta velocidade. Mas quanto dessa “leitura” vamos realmente absorver? Ou desfrutar? Muito pouco, eu acho. A questão é que mais rápido nem sempre é melhor. Você não engole uma taça de um bom vinho. Você não ouve Mozart em uma versão acelerada. Claro, há momentos em que circular por um trecho de texto é a única opção. Ou talvez mesmo a melhor opção: eu certamente não vou perder tempo com toda a prosa do jornal gratuito no metrô. Mas, certamente, Tolstói merece um pouco mais de nossa atenção. Para mim, o slow reading não significa ler cada palavra muito lentamente mas sim ler na velocidade em que você tenha um maior prazer e uma profunda compreensão do texto. E essa velocidade vai variar de pessoa para pessoa. Em um mundo em que a mídia encontra-se encharcada de barulho e distração constantes, quando tweets e atualizações do Facebook voam e se perdem, desaparecer em um livro para vivenciar um tempo de quietude, centrado na mente de outra pessoa, é um raro prazer.

E por que ele é tão importante?

O slow reading realmente aprimora as nossas vidas, há algo muito relaxante sobre essa busca, que deixa de fora todo o ruído e distração de nossas vidas loucas do século 21. Nos permite espaço para uma reflexão silenciosa e para o deleite em belas prosas. E também nos dá o tempo e o espaço para nos envolvermos profundamente com as ideias.

O slow reading e a democracia, você vê alguma conexão?

Muito. Uma democracia forte e saudável precisa de cidadãos que são pensativos, informados e capazes de entender argumentos complexos. Um domínio da leitura lenta é essencial para todas essas coisas.

O Movimento Slow Book (“Livro Lento”) foi fundado oficialmente em Lebanon Springs, NY/EUA, em novembro de 2009, pelo escritor Alexander Olchowski. Mais alguma ação sobre o slow reading que mereça destaque?

Sim, o Movimento Slow Book faz parte da mesma mudança cultural. Alexander abordou a mesma necessidade em nossa sociedade e está fazendo a sua parte para trazer a mudança. Há também o Slow Reading Clubs, fundado por Meg Williams, da Nova Zelândia, que são encontros semanais que acontecem pelo mundo e reúnem amantes de livros para uma hora de leitura silenciosa (e lenta, claro). E o Movimento Slow Library (“Biblioteca Lenta”) que visa defender as bibliotecas como um lugar onde as pessoas podem praticar o slow reading. Já do outro lado da equação, existem vários movimentos encorajando as pessoas a começarem a escrever no papel novamente. A ideia é criar textos que sejam significativos, que demandem nossa total atenção, que nos desacelerem…

Para mim, a filosofia do Slow não é sobre fazer tudo no ritmo de um caracol. Trata-se de tentar fazer tudo na velocidade certa. Saborear as horas e minutos ao invés de apenas conta-los. Fazer tudo o melhor possível e não o mais rápido possível. É sobre a qualidade sobre a quantidade. E isso se aplica a tudo o que fazemos, da comida ao trabalho, do criar os filhos à leitura”.

Carl Honoré escreveu os livros Devagar (2005), Sob Pressão – Criança nenhuma merece super pais (2009) e Solução Gradual – Como resolver problemas de maneira consistente em um mundo cada vez mais veloz (2016), todos no Brasil pela Editora Record.

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Sobre Bruna e Ismael

Na estrada para inspirar e compartilhar mais equilíbrio e escolhas conscientes, desaceleradas e significativas. De vida, consumo, trabalho e viagens. Seus benefícios e transformações pro mundo, pra nós mesmos e ...

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