Como me reconciliei com meu narigão

Por Diorela Bruschi

Publicado em , , , | Tags : , , , , , , , , , , , ,

A minha família é uma mistura. Do lado paterno tem alemão, tem inglês, tem português, espanhol e descendentes de escravos que não sabemos exatamente de onde vieram, a não ser que vieram do grande continente africano. Mas eu puxei mesmo, mesmo mesmo, foi o lado da minha mãe que é majoritariamente italiano, embora tenha também franceses e gregos. Dessa forma, a gente tem nariz. Muito nariz! Se não fosse pelo desvio de septo, eu poderia dizer que nem é justo, que eu respiro mais que a maioria das pessoas. Então dá-lhe nariz.

Quando pequena, eu cresci ouvindo minha mãe reclamar do nariz dela e falar que o meu nariz que era bom, porque era pequeno. Mas acontece que eu cresci e meu nariz cresceu mais ainda e hoje ele é igual o nariz da minha mãe. Eu poderia ter me complexado nesse sentido. Mas nada! Eu não sou mais complexada com meu nariz por isso, primeiro porque eu acho a minha mãe linda, e se sou parecida com ela, tá ótimo, e, segundo, que eu tenho uma história pra contar.

Em primeiro lugar, não tenho nada contra cirurgias plásticas. Mas nada mesmo! Na-da. Inclusive já fiz duas e posso falar disso mais abertamente em outra oportunidade. Acho que quando algo está incomodando, incomodando pra valer, se existe uma inteligência para resolver o problema, que seja resolvido e pronto. O que tenho contra é o modismo pelo modismo. É o padrão imposto que não representa uma verdade. As ações sem sentido. A compulsão pela perfeição inalcançável. Isso me tira do sério.

Jovenzinha que eu era, percebi que muita gente começou a operar o nariz. Todo mundo queria um nariz retinho, fininho, empinadinho, cheio de inhos. Para algumas pessoas, aquilo fazia sentido. Para outras não. Tive amigos que pensaram anos antes de cortar o nariz. E em muitos ficou muito bom.

Eu tinha meu nariz de batatinha e cheguei a pensar nisso também. O certo era ter nariz retinho, né? Como fazer? O meu ocupa um espaço grande da minha cara… e agora?

Mas como eu estava com outras prioridades, fui deixando para pensar nisso depois. Então, vim morar na França. E algumas pessoas adoravam comentar sobre meu nariz maiorzinho, minha cara pouco européia.

Nada que eu já não tivesse vivido na adolescência, mas, poxa, podiam ter me facilitado a integração, alguns franceses. Outros não, verdade seja dita, muitos europeus me faziam (e fazem) sentir muito mais bonita e especial que quando eu morava no Brasil. Ai, como eu sou justa com meus parênteses!

Então um dia fui numa naturopata, que é uma profissional muito interessante que estuda nosso comportamento alimentar baseado em nossas experiências de vida e nosso histórico de saúde. Passei duas horas contando para ela toda a minha relação com a comida, com doces (meu grande problema sempre), com a hora de comer. Também expliquei sobre meu sono, minhas atividades preferidas, meus hábitos, a hora que me sentia mais produtiva, essas coisas. Foi realmente muito interessante.

Ela analisou tudo, e depois de uma semana veio com várias conclusões e sugestões. Mas ela não analisava apenas o que eu dizia, analisava também a pessoa que estava sentada na frente dela. A forma de falar, de sorrir, de olhar, de usar as mãos. Estamos o tempo todo julgando e sendo julgados. Por isso eu sou meio reticente quando escuto a máxima “não se pode julgar ninguém”. Julgamos o tempo todo tudo! Baseamo-nos no que já sabemos. O problema é que muitas vezes não sabemos o suficiente e condenamos erroneamente! Este é o problema. Porque julgar, todo mundo julga. Até você, que está julgando que talvez eu pudesse ter explicado isso de outra forma agora. Então, vamos cuidar para não condenarmos, ok?!

Voltando à naturopata, ela concluiu comigo que minha alimentação combinava perfeitamente com o meu tipo de vida (eu havia virado vegetariana), e que ela aconselharia somente uma variação no glúten (não é eliminar completamente, é apenas variar, pensar em outras formas e comer além da farinha) e tentar reduzir o açúcar. Eu fiz isso e perdi 10 kgs depois!

Já havia me dado por satisfeita com aquela reunião quando ela disse “eu vejo que você é uma pessoa muito aberta para o mundo”. E eu assim “hum… continue”. E ela “pois você tem a boca grande, o nariz grande, os olhos grandes”. Era a primeira vez que alguém me falava isso e eu não me sentia ofendida. E ela prosseguiu “repare bem, geralmente, quem tem boquinha pequena, olhos pequenos, nariz pequeno – OPA! – , geralmente são bem mais fechados”. Passei a reparar! E, salvo algumas exceções, achei que ela tinha razão. Podia até citar uns nomes aqui, mas pra quê, né, gente?! Vamos começar por usar a boca grande para falar bem dos outros, não o contrário.

Depois daquele dia, me apaixonei pela minha própria fisionomia! Passei a adorar meu nariz grande, meus olhos grandes. Gostava de saber que eram símbolos de estar aberta para o mundo, coisa que sempre valorizei nos demais. Que narcisista virei. Mas vou chegar numa justa medida. Por enquanto, a cirurgia do meu nariz batatinha está fora de questão.

Compartilhe esta história

Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

Publicações Relacionadas

  • Sabrina Abreu

    Tb só comecei a gostar do meu nariz (adunco) depois de adulta =)

    • Eu sempre gostei do seu nariz, Sabri!!!

      • Bruna Miranda

        Gosto do nariz das duas e (também) atualmente do meu também, seguimos felizes com nossos narizes diferenciais, rs!