Sobre perder-se e ter com quem se perder

Por Diorela Bruschi

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Não faz muito tempo, um amigo me fez a observação de que toda história que eu contava começava por « um dia eu estava perdida e aí… ». É verdade. Eu não tenho muito senso de direção. E isso não diz respeito somente à estradas e ruas.

A nossa geração teve tantas opções que, pelos menos eu, caí na armadilha do excesso de escolhas. Então dou muitas voltas antes de chegar no lugar que quero ou preciso. « Aquele que tem a escolha, tem também o tormento », diz um provérbio alemão. O excesso, até de opções, pode ser negativo. Por isso a orientação que se dá para educadores é de que sempre ofereçam a opção para a criança escolher o que quer comer ou vestir, mas que seja no máximo em três opções na primeira infância. Por outro lado, gosto muito de uma frase que minha mãe costuma dizer « a melhor escolha é ter escolha », ou a de uma amiga especialista em ergonomia que diz que « a melhor posição corporal é aquela que te deixa mudar de posição quando quiser ». A refletir.

De volta ao assunto, vou contar uma história. Uma das tantas que conta sobre como eu me perdi. Era sábado e o pessoal da minha república junto ao pessoal de outra república amiga queria curtir o ar livre num lugar agradável. Aqui na Europa, dia bonito não serve para ficar em casa mesmo se tiver a melhor programação do mundo na televisão. Aliás, televisão? O que é isso?

Decidimos fazer uma pequena caminhada de quarenta minutos próxima ao vilarejo chamado Fontaine de Vaucluse, uma pequena maravilha que existe aqui no sul da França. Depois do rio que corta a cidade, subimos algumas pedras, como indicado por setas. Paramos para tirar fotos. Lanchamos e aí decidimos descer do morro ainda seguindo as setas.

O problema é que as setas não indicavam a descida. Indicavam outro caminho. E levamos algum tempo para perceber isso.

“Perder-se também é caminho”, diz uma das minhas frases preferidas de Clarice. Quando nossos celulares já não funcionavam mais para mostrar rotas, nos demos conta que tínhamos, na verdade, nos afastado muito do vilarejo e da trilha de volta.

Com pouca água e comida, começamos a buscar por todas as partes as setas ou marcações que indicariam o retorno. Nada. Quando eu tento explicar, nem faz sentido, mas a verdade é que nos perdemos mesmo, no meio de um mar de morros. Para rir, que eu sou mineira.

Estávamos eu, meu roommate francês, minha amiga colombiana, a outra peruana e um amigo espanhol. Posso dizer que cada um deles estava totalmente cru no quesito orientação. Ninguém sabia de onde viemos, nem para onde íamos. Ninguém! E eu achando que estava lidando com gente diferente de mim. Finalmente, éramos todos iguais.

Tentamos descer um morro. Vimos um bicho grande correndo entre as plantas. A mata foi fechando. Tivemos que subir tudo de novo. Como estamos despreparados para vivermos na floresta, não é mesmo?
E se cai a noite e a gente continua naquelas montanhas? Começamos a fantasiar quem seria o primeiro a ser jantado entre a gente se passássemos tempo demais perdidos. Não se preocupe, somos vegetarianos! Quase todos…

Encontramos uma pequena antena. Uma instalação humana. Sinal de vida inteligente! « Para isso chegar aqui, foi preciso um carro, e para o carro chegar aqui, tem que ter algum caminho aberto por perto », concluiu o francês. E se a coisa veio de helicóptero? Imaginamos!

Apostamos na primeira alternativa e fomos buscar uma trilha de carro. A primeira e a segunda direção não deram certo. Mas a terceira funcionou. Era lá! Achamos um caminho. Mas ainda sem placas. Paramos para comer o resto de pão que tinha sobrado de quando a gente ainda pensava que estava tudo bem. Tomar os golinhos d’água que salvavam. Já haviam se passado horas. Quilômetros. Estávamos cansados. Mas o que fazer? Começamos a cantar! Cada um com o que tinha e na sua língua. Aquele ditado é verdadeiro. Pelo menos lá foi. Finalmente encontramos uma placa « Fontaine de Vaucluse à 8km ». Teríamos que chegar antes do pôr-do-sol. Fomos rápidos. Tem uma hora que o pé até para de doer que é pra tentar ajudar.

Se você está lendo este texto, é porque sobrevivemos. Foram 20 kms de subidas e descidas e 6h de caminhada. Naquele dia, estávamos contando com um pequeno passeio rústico de alguns minutos. Era para ter sido desesperador esse inconveniente. Mas sabe por que não foi tanto? Porque estávamos juntos.

A única razão que me explica a gente não ter perdido a cabeça (única a não ser perdida) naquele dia foi o fato de estarmos juntos, entre amigos, e sabermos que poderíamos contar uns com os outros.

Diz aquela pesquisa longa sobre a felicidade que um dos grandes fatores para uma vida feliz é ter com quem contar. E isso faz sentido. Nas horas mais difíceis, é desse apoio que mais precisamos. E nas horas mais alegres, é com eles que queremos compartilhar também.

Depois desse dia, nosso grupo de Whatsapp se chama Perdidos. E com muito orgulho!

Então te digo, se você está sem rumo ou pensa que ficará perdido. Antes de qualquer coisa, tenha a bondade de fazê-lo em boa companhia. É também o melhor jeito de se encontrar.

A pesquisa sobre a Felicidade (TED Talks).

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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