A crescente busca por uma vida (e festas!) mais sóbrias

Por Bruna Miranda

Publicado em , , , , , | Tags : , , , , , , , , , , ,

É uma realidade: converse com algumas pessoas da faixa de vinte e poucos anos (ou até menos) e sinta que eles já estão, naturalmente, muito mais conscientes e interessados em criar e em participar de algo significativo do que em ir em festas todos os fins de semana e beber horrores. Não é que eles não queiram se divertir e nem que não haja jovens bebendo (muito) e experimentando coisas por aí, mas uma boa parte apenas não vê com o mesmo glamour e exacerbação a cultura do álcool e das outras drogas que movimentou (e ainda movimenta) um grande leque de pessoas das gerações anteriores.

Na minha vida, álcool e noitadas são coisas que fizeram parte por muito tempo, de maneira intensa. Vivenciei bastante esse universo durante a faculdade e os 20s até me tornar “dj” e sócia de uma boate e uma drinkeria (seguindo de certa maneira os passos dos meus avôs, os dois tiveram aqueles bares charmosos de interior, com grandes balcões de madeira, que vendiam de tudo). Foi divertido e não me arrependo? Sem dúvidas! Mas hoje em dia, em que praticamente não troco programas mais tranquilos por noitadas/ressacas (essas, como pioram com a idade…), vejo com bons olhos esse despertar por uma vida mais saudável, no melhor sentido da palavra. Claro que beber é ótimo em vários aspectos, ou nem seria tão popular. É bom para situações hilárias, para os tímidos, para esquentar um ambiente e uma conversa, tem tantas opções bem feitas e deliciosas no mercado – mas para serem degustadas, pena que sair da linha seja algo tão fácil. O álcool sabe ser um grande causador de situações de arrependimento, sejam elas por falar o que não devia, em um tom ruim ou pelas inúmeras outras possibilidades de uma ressaca moral, acidentes e etc. Sem contar que ele é também uma droga psicoativa que produz um efeito depressivo sobre o cérebro ou sistema nervoso central. Então, nos momentos de tristeza em que a gente bebe para dar uma aliviada, melhorar o ânimo, pode não ser bem assim.

Para quem não abre mão – como eu, que ainda gosto de um vinho ou de uma boa cerveja artesanal de vez em quando – encontrar um equilíbrio – sempre ele! – é libertador e traz uma sensação muito boa de aproveitar o lado bom do degustar sem se deixar ser controlado e ter que arcar com consequências piores depois. Quando me vejo feliz com o crescimento desse movimento de sobriedade e mais ainda quando percebo o quanto tenho preferido e aprendido a “beber socialmente” ou a não querer beber nada mesmo, não vejo como uma “caretice tardia” ou algo do tipo, mas simplesmente uma percepção comigo mesma de que as coisas mais equilibradas tendem a ser tão mais positivas para a saúde e para a mente, inclusive da sociedade em geral. Descobri que não há nada melhor do que ter mais tempo e energia de sobra para fazer qualquer coisa, incluindo para nos conhecermos e melhorarmos nossas relações e para as escolhas que fazemos, principalmente durante a juventude, fase de tantas buscas e descobertas.

“… Chloe Combi, escritora e ex-professora do ensino médio, entrevistou dois mil adolescentes para seu livro Generation Z, de 2015. Primeiro, ela quer derrubar o mito de que os jovens estão ficando sóbrios e chatos. ‘Acho que não fomos dos adolescentes party monsters para todo mundo sentado em casa tomando chá de camomila’. Mesmo assim, as entrevistas apontaram porque bebida e drogas são cada vez mais rejeitadas por essa geração. ‘A maior influência para os garotos são outros garotos. Não é estranho dizer que não usa drogas e nem bebe, é algo perfeitamente aceitável agora e não acho que ainda exista um glamour associado às drogas hoje. E os hábitos frequentemente problemáticos dos pais funcionou como um alerta para a nova geração: muitos se afastaram das drogas por causa dos modelos em casa.

Comparado com quando eu tinha 18, é muito mais normal sair e não beber ou ficar seis meses sem colocar uma gota de álcool na boca. É quase tão aceito dizer que você não bebe quanto dizer que bebe. Os jovens estão mais conscientes de sua saúde mental, mais consciência de si mesmos. Beber e usar drogas em excesso não tem mais lugar na vida dos adolescentes hoje; eles têm muita coisa para fazer e estão preocupados com os smartphones, já que tudo o que fazem está sendo filmado e sabem muito bem que cair bêbado na net não pega bem. ‘Há uma cultura de humilhação de quem bebe e usa drogas na mídia, e essa humilhação social filtrou os garotos.” – Trecho da matéria “Por que a Geração Z não curte beber ou usar drogas”, na Revista Vice.

O movimento em prol da sobriedade e do bem estar que tem acontecido com crescente alcance pelo mundo em nada se refere à escolha única por uma vida pacata, coisa de “gente certinha” ou festas monótonas ou religiosas – até então o meu único contato com eventos assim foi em uma entrevista que fiz para uma revista sobre uma boate voltada para frequentadores de uma igreja. São simplesmente encontros onde a música, as conexões mais reais entre as pessoas e os comes e bebes mais saudáveis ganham o destaque.

Separei alguns que têm acontecido pelo mundo e sim, também no nosso Brasil, país da festa e da cerveja, da cachaça e dos bons drinks, rs!

CLUB SÖDA NYC: “GET HIGH ON YOUR OWN SUPPLY”

“A vulnerabilidade do entorpecimento também enfraquece nossa experiência de amor, alegria, pertencimento, criatividade e empatia. Nós não podemos seletivamente entorpecer a emoção. Entorpecer o escuro é também entorpecer a luz”. Frase de Brene Brown que abre a página do Club Soda, projeto que foi lançado como uma experiência social para os “sóbrios curiosos” investigarem o quão boa a vida pode se tornar quando refazemos a nossa relação com o álcool e conta com uma série de encontros, palestras, oficinas e outros eventos onde as bebidas normais estão fora do menu. O conceito foi fundado por Biet Simkin, instrutora de meditação, e The Numinous, uma plataforma para a espiritualidade e o bem estar “now age” (uma brincadeira que atualiza e soma o conceito do new age com a relevância do agora, da presença). O Club Soda busca ajudar as pessoas a perceberem que diminuir ou cortar o álcool não significa o fim de suas vidas sociais ou namoros. Na verdade, ele sugere que isso pode melhorar as relações pessoais ao eliminar o efeito anestesiante da bebida e ao permitir que as pessoas estejam em um melhor contato com as suas emoções. Veja mais sobre esse projeto no fim da matéria.

THE SOFTER IMAGE

Para aqueles que ainda querem uma boa festa à moda antiga! Embora sóbria e com o objetivo de elevar as pessoas a cada saída ao invés de sugar suas energias, uma interseção entre a celebração e a consciência. Cada evento do The Softer Image começa com suas raízes na espiritualidade, com foco em vibrações superiores de cura e de bons sentimentos e segue para os artistas que levam para o espaço uma atmosfera experimental “transcedental”. Em seguida acontece a festa normal, como todos conhecemos, com DJs e seus melhores ritmos de “dance party”, para liberar todas as tensões do alto do salto (ou não). O evento é reforçado pelo “alta vibração bar”, onde herbalistas locais e chefs oferecem aos presentes criações naturais e deliciosas. Em seu site, reforçam: “Acreditamos no poder espiritual da dança e da comunidade, mas queremos descolonizar a pista de dança do álcool e das vibrações pesadas”.

Daybreaker | NYC

MORNING GLORYVILLE | DAYBREAKER

Chamados de “clubbing consciente”, são raves matutinas que já há um tempo vem ganhando fôlego em várias cidades do mundo propondo festas de música eletrônica sem álcool ou outras drogas. Duas delas já muito frequentadas são a Morning Gloryville, em Londres (“the original morning rave”, que acontece no famoso clube Ministry of Sound) e a Daybreaker, em São Francisco (“wake up and dance!”). Ambas atraem milhares de pessoas entre 6h30 e 10h30 da manhã, em plenos dias úteis, para reunir quem gosta de começar o dia com uma injeção de energia diferente.

Morning Gloryville | Londres

Nos dois eventos é possível fazer yoga, massagem, alongamento e tomar um café da manhã nutritivo, com sucos de frutas e chás. Os anfitriões oferecem também “abraços gratuitos” e afirmam que o objetivo de um projeto como esses é ampliar corações e mentes e capacitar as pessoas para entenderem e aproveitarem o melhor do dia, com novas propostas para seus hábitos de lazer.

ENCORPORE-SE

E aqui no Brasil, dois eventos em Belo Horizonte trazem essa proposta da diversão com conexões reais entre as pessoas, a música e a dança. O primeiro deles, a festa Encorpore-se, surgiu na cidade no ano passado e já teve duas edições muito bem aceitas no Galpão Paraíso.

As organizadoras explicaram – nesse vídeo que também mostra em detalhes como foi a estreia – que elas estiveram em uma festa de moldes parecidos em outra cidade e perceberam que BH também merecia uma. Daí, tudo conspirou a favor para acontecer. Alguns frequentadores (dançarinos!) deram seus relatos:

O que faz a gente dançar não é o álcool, é a nossa essência. Quando a música é boa, quando a energia está positiva, as pessoas dançam e é muito bom.

Para se permitir vivenciar algo inovador, no sentido de não ter bebidas (alcóolicas) e a dança ser a única expansora, colocada em um campo mais sagrado; se permitir, experimentar.

Indescritível, eu olhava para a frente e não tinha uma pessoa parada, todo mundo pulando, conectado ao máximo, presente ao máximo, é uma proposta que eu quero que tenha uma vida muito longa!”.

FESTAZEN

E no dia 4 de maio inaugura, na Amadoria, a FestaZen, uma celebração diferente do que estamos acostumados. Tem como intenção fazer com que todos saiam de lá leves, com o coração agradecido, que se conectem com pessoas interessantes, tenham conversas significativas e que realmente exista troca: de olhares, energia, atenção, afeto e cuidado.

Conversei com a Babi Andrade, de 28 anos, uma das idealizadoras da casa e do evento, que me contou mais sobre o conceito e o que esperar dessa (boa!) novidade:

– De onde veio a ideia da festa e qual a sua proposta?

Fazer uma festa sem álcool, com dança, para promover conexão, já é uma vontade antiga. Já tinha visto que em outros lugares do Brasil estavam acontecendo alguns movimentos nesse sentido. A xamã Anna Xara (que está produzindo essa edição conosco) deu o impulso que eu precisava, porque ela sonhou que essa festa estava acontecendo no quintal e colocou uma pilha para realizarmos.

A proposta é: as pessoas gostam de festa, é uma conclusão que chegamos nesse 1 ano de Amadoria. Então queremos promover uma que traga principalmente a conexão com o Eu, que resgate a espontaneidade e que as pessoas sintam e vivenciem serem elas mesmas, sem vergonha. Fazer uma festa Zen é incluir, é trazer todo mundo junto para celebrar, dançar e se divertir.

– O que você acha desse movimento de sobriedade crescendo pelo mundo?

Eu acho maravilhoso e, honestamente, sempre que bebo me questiono o porquê. Tenho sentido e percebido que as pessoas estão despertando cada vez mais e se questionando isso, pois o álcool nada mais é que um dos amortecedores que usamos para aliviar nossas dores.

– Por que você acha que ele vem chegando depois de tantos anos de tanta bebida e drogas e, principalmente, entre os mais jovens, que nem chegaram a viver toda a possível loucura das gerações anteriores?

Acredito que as pessoas jovens estão tendo um contato desde muito cedo com ferramentas que possibilitam o autoconhecimento. Elas estão no movimento para se conhecerem melhor e, quando você busca isso, consequentemente você não busca mais prazer no álcool. Eu ainda bebo uma cerveja ou um vinho moderadamente, mas encher a cara, tomar um porre, já não faz mais sentido para mim há muito tempo. Afinal excessos, sejam eles quais forem, fazem mal a todos nós.

A página do evento deixa claro que não é uma festa para só um tipo de pessoas, não é só para quem é “zen”, não há a intenção de rotular e nem de colocar todos na mesma “caixinha”. A busca é por expandir e reunir todos os curiosos que querem celebrar a vida de uma forma diferente e com o coração aberto para vivenciar novas experiências. É uma festa que vai acontecer de 19h às 23h e é open food e open bar, com comidinhas saudáveis, com músicas que não tocam nas rádios e com danças conjuntas que talvez nunca tenhamos dançado. Mais do que interessante! Para garantir o seu ingresso e saber mais, aqui.

E seguindo no fluxo desse movimento, algumas marcas de bebidas têm lançado e/ou aprimorado suas versões álcool free, que vão muito além daquela cervejinha sem graça do supermercado.

Curious Elixirs Os “coqueteis sóbrios” nasceram do desejo de seus fundadores de reduzir o consumo de álcool enquanto ainda desfrutavam bebidas saborosas e sofisticadas, semelhantes aos cocktails. Pesquisaram com bartenders, herbalistas e cientistas de alimentos e criaram uma opção natural e orgânica, artesanal, feita com ervas, raízes e misturas botânicas, sem ingredientes geneticamente modificados e através do comércio justo. Foi com sucesso para financiamento no Kickstarter com o lema: “Redefinir o que significa beber socialmente”.

Seedlip – Primeira marca de destilado não alcoólico do mundo, foi lançada no Reino Unido em 2015 e tornou-se imediatamente um sucesso. A Diageo (gigante dos destilados) tem, desde então, a apoiado em vários países. É semelhante ao gin e tem seis ervas de todo o mundo, dentre especiarias e cascas (incluindo de frutas cítricas), destiladas individualmente e misturadas sem qualquer álcool ou açúcar. Seu mote: “Resolvendo o dilema do ‘o que beber quando você não está bebendo'”.

Budweiser Prohibition Brew – No ano passado a Budweiser lançou essa cerveja sem álcool, no Canadá, chamada de “cerveja proibida”. A bebida é destinada a ter o mesmo gosto das outras variedades típicas da marca, enquanto chega nesse mercado em expansão que é a cerveja sem álcool, em todo o mundo.

“Há uma razão pela qual a sobriedade está crescendo e é porque ela traz sensações incríveis. Depois de alguns dias em que o álcool deixa o seu sistema, você se torna consciente de quanto mais em paz você se sente em seu corpo. Um pouco mais e você vai notar como mesmo uma mensagem amigável envia um formigamento de prazer físico ao longo de seus membros. Dê algumas semanas e você pode encontrar-se em uma risada espontânea no puro êxtase de estar vivo. Isto é como se sente ‘ficar bêbado por sua própria fonte’. Mas a cultura de beber moderna torna mais fácil, muitas vezes muito mais fácil, escolher a bebida como nosso método de ir para um sentimento bom (simplesmente entorpecendo o ‘mau’). O preço? Todos nós já estivemos lá.

Longe de querer ser ‘chato’ (algo que quem bebe gosta de falar dos não-bebedores), e se escolher a sobriedade significasse estar ‘alto’ o tempo todo? Isso inclusive pode não significar abstinência total de álcool. O poder de se beber positivamente pode ser uma coisa bonita. Até mesmo um sacramento. Mas um coquetel ocasional para celebrar a vida também pode ser um declive escorregadio para o tipo de beber habitual que se torna um substituto para alegria sustentada, auto-gerada; que aborrece a nossa consciência; que só exacerba sentimentos de ansiedade e vazio; e que finalmente nos separa de um verdadeiro sentido de si mesmo.

O Club Soda pode ser para você se você bebe para se sentir bem, mas muitas vezes você fica se sentindo pior (e falar sobre isso ajuda); se você quer beber menos mas acha que isso significará o fim de sua vida social; se você quer beber menos mas acha que isso vai significar o fim dos relacionamentos, especialmente os amorosos; se você quer cultivar uma relação mais saudável com as bebidas; se você quer participar de eventos de ‘alta vibração’, onde o álcool está fora do menu; se você ama como a vida tem uma sensação tão boa quando você não bebe e quer se conectar com outras pessoas que também descobriram isso; se você quer experimentar como é ficar ‘louco’ através de sua própria fonte.

E uma advertência: não somos um programa de recuperação de dependência, embora possa ser um trampolim para o AA para algumas pessoas. Se você acha que pode precisar de um nível mais alto de suporte para lidar com um problema com a bebida que está impactando negativamente sua vida, ou em lidar com quaisquer questões emocionais subjacentes que podem ser parte disto, também temos os recursos para conectá-lo com pessoas que podem ajudar.” – Texto extraído e traduzido da página do projeto CLUB SÖDA NYC (foto acima).

– Na foto do topo, espumante de kombucha com ervas, especiarias e flores, receita da Neide Rigo. Deve ficar divino!

Compartilhe esta história

Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

Publicações Relacionadas