Você não precisa ser vegetariano, mas pode comer menos carne

Por Diorela Bruschi

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Sentei-me à mesa com meu roommate, ele serviu legumes gratinados e anunciou « Decidi comer menos carne ». Abri um sorrisão e ele continuou « Mas não se iluda! Eu não vou parar de comer carne completamente ». Mantive o sorriso.

Todo dia escuto com grande alegria alguém me dizer que decidiu comer menos carne. Quando passei a me identificar como vegetariana, escolhi também que não iria infernizar a vida de ninguém para que se transformassem comigo. Eu apenas adoraria dar o exemplo para que se inspirassem numa vida que, penso eu, é mais saudável e feliz em todos os sentidos.

Dito isso, informo que também acredito nos diferentes tipos de organismos e indivíduos e que cada um tem uma necessidade que deve ser respeitada. A necessidade deve ser respeitada, mas a forma de agir para supri-la não pode desrespeitar o meu planeta, entende? Por isso que, quando a pessoa come, o problema é dela, mas quando ela consome, o problema é de todo mundo.

A forma como a industrialização da carne é feita nos tirou completamente o foco do processo de fabricação e nos deixou alienados em relação à algumas grandes crueldades com os animais, com o meio ambiente e com as próprias pessoas que consomem sem saber o que estão ingerindo. Imagine você que o nome nuggets é uma forma bonitinha de chamar uma das mais monstruosas formas de extermínio de aves. « Você sabia como são feitos os nuggets? », perguntava meu roommate enquanto servia o gratinado. « É um absurdo o que eles fazem com os pintinhos machos, a gente não pode continuar comendo nuggets », concluía ele.

Quando a carne era cultivada no quintal das casas e, uma vez por ano, em ocasiões especiais, quem achava que era hora pegava o porco, a galinha, o ganso, o boi ou o bezerro… bem, eu ainda acho doloroso e triste, mas posso entender que fizesse parte de uma cultura, de uma forma de comer, de uma vida familiar. Naquele dia, o prato era preparado da melhor forma possível e a comida era servida como uma espécie de homenagem à vida animal que foi sacrificada.

Com o fast food, as comidas congeladas, os pratos do dia, a globalização da carne moída, a gente não sabe nem qual animal está no nosso prato. E isso quase não interessa mais. Perdemos totalmente a noção deste processo e deste respeito. Em um simples hambúrguer, mais de 200 bovinos diferentes podem ser identificados. Se todos estavam saudáveis, difícil garantir. Por que tanta mistura? Por que tanto ingrediente numa coisa que era para ser só carne? Por que não moeram a carne na sua frente, no supermercado, se é proibido por lei já vender a carne moída, mas se você for uma grande empresa aí tudo bem?

Diante do escândalo da carne fraca, eu, como vegetariana, não fiquei nem um pouco mais feliz. Foi um desrespeito ao animal morto, ao consumidor que às vezes guarda o pouco dinheiro que tem para consumidor aquele produto, foi um desrespeito à nossa confiança dos selos de garantia, dos órgãos de fiscalização. Enfim, foi apenas triste. Nunca um triunfo vegetariano. Além disso, sei que a corrupção também não ficará restrita aos consumidores de carne.

Mas agora o meu sorriso volta aos poucos, ao escutar pessoas que conscientemente pensaram na natureza, na produção industrial e em sua própria saúde ao decidirem comer menos carne. Oxalá tenha este escândalo servido para isso.

Teremos mais gratinados na mesa. E com um pouquinho mais de gratidão, menos nuggets, embutidos, carne desperdiçada, carne adulterada, carne depois da quaresma. Menos crueldade, em outras palavras.

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Foto do topo: Hambúrguer grão de bico e espinafre, via Pinterest

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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