Palavras e natureza em Cordisburgo, uma pequena cidade, uma história profunda

Por Bruna Miranda

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O mundo é mágico.” – Guimarães Rosa

Despedir-se de Cordisburgo, um município de oito mil habitantes distante uma hora e pouco de BH, é olhar para a estrada percebendo seus campos verdejantes ao invés do mato que teima em nascer. Impossível não se envolver pela poesia e singularidades de um lugar que abriga, ao mesmo tempo, o Museu Casa Guimarães Rosa e a Gruta do Maquiné. É uma dessas visitas que a gente se pergunta porque demorou tanto para acontecer, sendo nas proximidades da capital e de uma riqueza engrandecedora. Mais um reforço do tanto que temos a conhecer e se encantar, mesmo tão perto de nós!

Chegamos na cidade por volta de meio dia no feriado de Tiradentes, em uma estrada relativamente bem cuidada e sinalizada, já controlada pelo sistema de pedágio. A entrada logo nos lembra que ali é a terra de um dos maiores escritores do nosso país, que volto a falar em breve.

Fomos direto para a Gruta de Maquiné, que confesso que mais já tinha ouvido falar sobre do que sabia ao certo ter uma localização tão próxima de onde moro. Chegando lá, um ambiente tranquilo, não muito cheio e com clima familiar, em operação graças ao trabalho de voluntários da região enquanto não acontece a terceirização dos serviços. É impressionante conferir a beleza natural esculpida pela água de maneira tão despretensiosa e lenta, durante milhões de anos, em cada um dos sete salões da caverna. Descoberta em 1825, é considerada o berço da paleontologia brasileira por suas belíssimas formas e cores arquitetônicas, estalactites e estalagmites, incluindo o intenso trabalho de pesquisa realizado pelo botânico e zoólogo dinamarquês Peter Lund, que realizou descobertas relevantes de fósseis de animais pré-históricos e várias outras relacionadas ao próprio espaço e sua história, geologia e biologia. Uma gruta ampla e com uma energia tão intensa, mais um orgulho da magnitude da natureza, que sempre nos traz a oportunidade de pensar no tempo das coisas, no que vale a pena ser criado com o prazo que tem que ser: para se formar um único centímetro de uma estalactite, lá se vão vinte anos…

Algumas informações sobre essa visita: o valor de entrada é 20 reais a inteira, precisa ser feita com um sapato fechado e confortável e, se for comer por lá, o único restaurante tem um preço justo e o melhor são algumas mesas que têm uma vista bonita da mata, mas não é convidativo para vegetarianos. Já a lanchonete é totalmente não recomendável, leve um lanchinho para garantir.

E, mais do que tudo, a Gruta do Maquiné tão inesperada de grande, com seus salões encobertos, diversos, seus enfeites de tantas cores e tantos formatos de sonho, rebrilhando risos na luz – ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja.” – GR

De lá fomos para o Museu Guimarães Rosa, um mergulho em sua vida, sua infância vivida ali em cada centímetro da legítima antiga casinha mineira, seu amor pela cidade, suas palavras de recordações e sentimentos. Uma compilação linda e inspiradora envolta por uma conservação e decoração especiais. Para saber mais sobre os passos que o levaram da medicina à escrita; do exterior ao Brasil e a Minas de volta; à paixão pelo que é simples, afetuoso e interiorano; seus objetos e rascunhos; o armazém de seu pai; um quintal que mais parece que foi feito para contemplar a calma do ar de Cordisburgo e a alma poética de suas esquinas.

O projeto cultural do museu inclui os moradores da cidade, especialmente os jovens, em trabalhos educacionais. Percebe-se em seus rostos uma satisfação em fazer parte desse compartilhamento de histórias.

E na espaçosa rua da casa, bem na linha do trem, fica o convite para conversas a mais e respiros de sossego, nos bancos que a margeiam.

Cordisburgo é esse lugar onde o restaurante estampa frases de Guimarães Rosa nas paredes de tijolos de adobe e até no freezer de sorvetes, e onde inclusive o cemitério traz na fachada a sua leveza: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Também aproveitamos para comprar verduras do quintal – daquele jeito de bater palmas para ‘ô de casa’ – brincar com os cachorros na rua e não ver o tempo passar. Afinal, “felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

O verdadeiro amor é um calafrio doce, um susto sem perigos.”

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

E quanto mais leio e vivo e medito, mais perplexo a vida, a leitura e a meditação me põem. Tudo é mistério. A vida é só mistério. Tudo é e não é. Ou: às vezes é, às vezes não é. (Todos os meus livros só dizem isso).”

O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.”

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?”

A vida é feita de poucas certezas e muito dar-se um jeito.”

“(…) a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” – Grande Sertão: Veredas

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Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

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