Onde que dói? Um apanhado das dores contemporâneas e um agradecimento

Por Diorela Bruschi

Publicado em , , | Tags : , , ,

Agradeço todos os dias a saúde que tenho. De forma geral, meu corpo me ajuda muita na luta pela sobrevivência física e psicológica e tento, na medida do possível, cuidar bem dele. Há pouco tempo fiz um trabalho de redução de dois grandes vícios: açúcar e farináceos. Não eliminei, mas reduzi bastante e o corpo respondeu bem. A natureza é imensamente generosa. Imensamente! Não me canso de falar.

Então hoje fui fazer mais um agradinho. Há um café aqui perto de casa que serve de local para adoção de gatos. Enquanto você toma um café, os gatos podem vir no seu colo, pedir um carinho, brincar um pouco. É uma ideia fofa. E como se não bastasse isso, eles ainda promovem eventos ao longo do mês. Hoje foi o dia de massagem. Dez minutos de massagem por cinco euros. Achei que seria uma boa e fui.

Chegando lá, me coloquei na cadeira da massagista e ela perguntou « onde que dói ». Onde que dói? Repeti. Eu não tinha pensado em nenhuma dor corporal. Falei pra ela que achava que estava tudo bem. Então, coloquei minha testa na almofada e ela iniciou o relaxamento. Enquanto isso, fui pensando se não tinha realmente nenhuma dor. Talvez eu não tivesse reparado.

Lembrei que meu joelho nunca mais foi o mesmo depois que trabalhei em pé durante os 31 dias de julho. Também lembrei que tenho uma tendinite que vai e volta no meu pulso e aftas quando fico nervosa… Mas nada era muito grave.

Aí lembrei de outras dores.

Lembrei da dor de não saber quando poderei rever minha família e meu país. Lembrei da dor de ter deixado uma resposta perder o timing. Lembrei da dor de ver um paquera com outra mulher nas redes sociais. E da dor de salvar o arquivo vazio sobre o arquivo pronto e marcar que tinha certeza. Ou a dor de esperar alguém que não chega e nem avisa. Lembrei da dor de não conseguir mais acompanhar os jornais e digerir o jantar depois. E da dor de estar falando ou escrevendo apenas para as paredes ou nem mesmo para elas. Lembrei da dor de pensar que tudo é tão passageiro e que não posso sacudir as pessoas para informá-las disso.

« Crescemos e ainda guardamos problemas de crianças », contava o arquiteto que conduziu uma palestra sobre potencialidades outro dia, numa escola daqui de Avignon. Guardamos medos, inseguranças, tudo que achamos que teria ficado nos bancos das escolas. Ainda detestamos saber que não fomos convidados para festas, mesmo que a gente não quisesse ir. Ainda queremos chorar quando não nos sentimos amados, ou quando o prato do seu colega vem com mais comida que o seu no restaurante. Conseguimos resolver ou encaminhar os problemas burocráticos, a papelada, os processos etc. Conversamos com o gerente do banco, com o pessoal da polícia, do governo, com a administração da empresa e com as associações. A gente se vira, em grande parte do tempo, nessa vida de adulto. Mas para os problemas infantis ou adolescentes… o único remédio que conheço é procurar o equilíbrio.

Tem épocas que eu sou dessas. A galera pergunta no grupo o que vamos levar pro piquenique, cada um responde uma torta diferente e eu venho com « meus medos de que a vida perca o sentido », « minha vontade de voltar no tempo ». Aí percebo que estou virando o estereótipo da pessoa de câncer, mesmo não acreditando em conversa de signos. E tento me recompor. Vou levar um quiche de ervilhas.

Terminada a massagem, meus pensamentos estavam mais calmos. Afinal, não estou aqui pra sofrer e nem chorar mais que ninguém. A vida me deu muita coisa boa e faz parte viver uns contratempos. No fundo, no fundo,  já é muito bom que eu esteja com saúde, não? Como dizia o ditado.

Compartilhe esta história

Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

Publicações Relacionadas