A retórica da paisagem

Por Bruna e Ismael

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* Apresentado por o3L arquitetura

 

 

Voltar ao tempo, às origens, viver próximo às montanhas e em meio à acolhedora comunidade de um bucólico vilarejo encrustado ao pé do grande maciço rochoso. Tudo isso na mais perfeita harmonia com a natureza. Este discurso precedia a demanda de um cliente, que, meses mais tarde, viria a se tornar amigo. Alinhado em ideais, fomos procurados e convidados a aceitar o desafio de conceber e realizar uma casa que preconizasse todas essas expectativas de interação física, cultural, social e, sobretudo, sentimental, que, suavemente, pousavam sobre nossas pranchetas.

Depois de viver e trabalhar um longo período em Belo Horizonte, o administrador de empresas Carlos Amaral, natural da cidade histórica de Mariana, adquiriu um terreno no povoado de Serra dos Alves, situado na vertente leste da Serra do Espinhaço, inscrito na Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira e em meio à densa Mata Atlântica, rica flora e fauna, cachoeiras, riachos e ribeirões.

O povoado ainda preserva parte do casario remanescente da ocupação inicial, datada de meados do século XIX. A paisagem é composta pela Capela de São José com o seu largo frontal gramado e cruzeiro, cercado por casas térreas, muitas em adobes e telhas do tipo cumbuca. É onde se desenrola a vida social: as missas aos domingos, as rodas de prosa, as marujadas, as quermesses e folguedos.

Ali, naquele terreno, pretendia-se materializar, além do programa básico de arquitetura – sala, cozinha, quartos e banho, um objeto que dialogasse com o entorno. A definição das técnicas de construção, a escolha da mão de obra e dos materiais também deveriam estar em consonância com a ideia primária. Além disso, havia um propósito muito claro neste decurso: a comunidade deveria ser envolvida.

Foram longos os meses de definições projetuais e seus desdobramentos para atender a legislação pertinente àquele território.

Sistema construtivo em estrutura autônoma de madeira com engenhosos encaixes, paredes de adobes, cobertura em telhas capa e bica e assoalho de madeira foram cuidadosamente trabalhados pelos artesãos locais. Estes atributos permitiram que a obra transcendesse o significado de um canteiro convencional. Era um ateliê de artes e ofícios tradicionais a céu aberto. E não ficou só por isso. A partir daí enxergamos a possibilidade de envolver mais pessoas naquele processo. Foi então que surgiu a ideia da realização de uma oficina voltada à comunidade que valorizasse os saberes e as práticas locais, de modo a despertar, nos principais atores envolvidos, o restabelecimento da imagem das construções vernaculares, cuja acepção ficou depreciada em decorrência da imposição de novas tecnologias industrializadas e da associação inadequada às moradias de baixa qualidade.

Acreditamos que, ao envolver a comunidade, contribuiríamos na preservação da paisagem histórico-cultural já consolidada, bem como na difusão e na adoção de técnicas construtivas de reduzido impacto ambiental.

Durante um final de semana, arquitetos, artesãos e moradores do povoado, dentre homens, mulheres e crianças, foram mobilizados entre explanações teóricas e práticas, utilizando a obra em questão como suporte e modelo experimental. Foram fabricados blocos de adobes, executados alvenarias, rebocos à base de cal e areia e, finalmente, pinturas com suas infinitas possibilidades de pigmentações minerais a partir de terras das mais variadas cores.

Dentre inúmeros benefícios alcançados, registramos que a oficina possibilitou a elevação da estima dos artesãos detentores do conhecimento e o resgate da identidade cultural local, assim como a quebra de paradigmas ou de ideias pré-concebidas acerca das construções em terra crua e seus materiais tecnicamente compatíveis.

A abordagem do trabalho, de caráter participativo e didático, além de contribuir para a humanização do canteiro de obras, permitiu a integração de novos elementos no contexto comunitário, sejam de natureza material, humana ou cultural.

Trata-se de um processo de inserção a partir de uma provocação não imposta, onde o indivíduo, ansiando em comungar da atmosfera bucólica local, soube se posicionar, respeitando a ordem e a dinâmica naturais do povoado.

Voltar ao tempo também pode significar vivenciar o ritmo de vida onde o tempo tem outra dimensão, além da conhecida. Assim como já escreveu Gilberto Gil em uma canção de 1989, “Cada tempo em seu lugar”. Valorizar e respeitar o meio e as circunstâncias em sua mais ampla acepção. Acolhimento recíproco.

* Frederico Prates e Daniel Quintão coordenam o escritório mineiro o3L arquitetura, com sede em Belo Horizonte. Diplomados em 2003 pela Escola de Arquitetura do Instituto Izabela Hendrix, atuam na área de construções de reduzido impacto ambiental.

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Sobre Bruna e Ismael

Na estrada para inspirar e compartilhar mais equilíbrio e escolhas conscientes, desaceleradas e significativas. De vida, consumo, trabalho e viagens. Seus benefícios e transformações pro mundo, pra nós mesmos e ...

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  • Cristina

    Belo trabalho! E um relato emocionante!