A resistência como a melhor opção

Por Diorela Bruschi

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Ano passado conheci uma trupe de teatro de um jeito muito engraçado. Estava passando na rua de noite com um amigo e ouvimos umas músicas da Britney Spears tocando. Nos entreolhamos e, um segundo depois, fomos puxados por um grupo de jovens para dentro de um teatro. Ninguém perguntou nada. Todo mundo começou a dançar aquela e outras músicas que se seguiram. Depois que liberamos muita endorfina, fomos nos conhecer melhor.

O grupo vinha da Suíça para apresentar sua peça no festival de Avignon (um dos maiores festivais de teatro do mundo). O nome da peça, Resestence (escrito propositalmente errado) que tratava da Resistance (a palavra em francês para… adivinha!). No teatro, uma comédia, eles citavam um mundo onde tudo era privatizado, desde o direito de amar até as vogais do nosso léxico. Tudo tinha que passar pela empresa que estava interessada inteiramente no nosso bem-estar, diziam.

Naquele conto, um pequeno grupo ensaiava uma resistência. Tinham guardada uma caneta para manter ainda o direito de escrever sem prestar contas e, nas reuniões secretas, traçavam planos. Fácil não era, mas a outra opção era pior.

Com essa história a gente pode fazer umas analogias. A resistência mostra logo dois caráteres: o de impedir que mais dano seja feito a você, ou seja, a auto-defesa; e o caráter ligeiramente revolucionário, ou seja, a transformação. A resistência mais conhecida é a aplicada a contextos políticos e ideológicos, mas também funciona bem para outros propósitos, inclusive internos. Aqui alguns exemplos de formas de resistência não-bélica. Lista não exaustiva.

1)   Manter o humor.

Talvez a resistência mais impressionante seja a do palhaço que sofre, mas faz graça ao mesmo tempo. Saber rir de suas próprias tragédias é um talento e uma força. Aprecio. Os brasileiros são muito fortes para isso, devemos reconhecer.

2)   Manter a gratidão.

As pessoas que cultivam a gratidão não são hipócritas. Elas sabem que muita coisa vai mal. Mas sabem também que haverá sempre alguma coisa para se segurar, uma última esperança, algo que está resistindo junto com elas. É a isso que devemos gratidão e, nessa hora, ganhamos uma forcinha a mais.

3)   Escutar aquela voz.

Sabe aquela voz que te dá um toque « não faça isso, você vai se dar mal » quando tanta gente insiste para que você faça quando, no fundo, você sabe que não quer? Pois bem. Escute. Converse com ela. Quando essa voz é aliada à razão e ao coração, ela pode te ajudar em muitas decisões. Você não precisa ser como todo mundo. Foi assim que parei de comer carne. Foi assim que decidi enfrentar alguns desafios e não aceitar outros. Apenas tome o cuidado para distinguir aquela voz de alguns medos ou nóias que podem vir disfarçados. Tente entender a lógica da coisa.

4)   Não se calar. Agir.

Agora que você escutou a sua voz, pode ser que outras pessoas também precisem. Não seja indiferente diante de uma injustiça. Não finja que não viu. Não deixe pra depois alguma atitude urgente. Mas cuide. Use a inteligência para agir. Qualquer pessoa que fala, apresenta uma ideia, arruma inimigos. A gente tenta não provocá-los. A gente tenta, de novo, usar a lógica. E mais, a gente não está aqui para ser ameaça pra ninguém. Se querem declarar conflito, que o façam sozinhos. Nossa missão é vencer a indiferença porque quem não toma partido, quem ignora a desgraça alheia, acaba tomando partido do mesmo jeito. Mas não vamos comprar brigas gratuitas. Como diria o poeta « bom de briga é aquele que cai fora ». Sejamos espertos ! Mas com voz. E ação.

5)   Junte-se aos bons.

A resistência do Chapolin Colorado! Você não está sozinho. Há muita gente no mesmo barco. E a gente sente quando tem por perto um dos nossos. Não se afaste dos outros, mas procure essa gente. Encontre eles nas artes, na literatura, na música, na rua. Dê preferência para seus pares no comércio, nos serviços. Converse, troque, defina estratégias para esse propósito em comum. É assim que as cooperativas tentam resistir bravamente aos cartéis. É assim que os pinguins aguentam o frio. É assim que a gente vai cuidando um pro outro. Entendo que por isso tantos dizem que o amor é sinal de resistência. E não duvido. Não duvido mesmo!

Aquela trupe de teatro entrou para o meu grupo de amigos depois daquele dia. Fizemos uma matéria pro jornal, eles apareceram no meu aniversário, fomos juntos à um concerto. Encontrávamos muitas vezes durante o festival! Até que um dia tiveram que voltar pra Suíça. E comigo deixaram essa palavra. Resestence. Escrita errado mesmo. Porque não restavam muitas vogais na retórica de quem perdia tudo. Era pouco, mas o suficiente para quem mantinha a vontade de transformar, de aguentar firme, de seguir adiante como tinham sonhado. Viva a resistência!

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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