Da noite e moda ao slow living. Um caminho a seu tempo…

Por Bruna Miranda

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Conversando com algumas pessoas queridas, vi que elas tinham em comum um interesse além do dia a dia slow. Elas queriam saber também sobre o processo de transição, algo que, a meu ver, é realmente importantíssimo para nos inspirarmos e nos ajudarmos a (começar a) fazer melhores escolhas e adapta-las ao dia a dia de maneira mais consistente. Afinal, a grande maioria das pessoas que eu conheço – incluindo eu mesma – está acostumada desde sempre com os apelos muito comerciais e já enraizados de nossa sociedade, enfrenta o caos diário de uma metrópole, não cresceu em uma ecovila e não estudou em uma escola como essa para já termos nos tornado adultos conscientes.

E convenhamos que a mudança e a conscientização são mesmo um longo processo. Lento, com vai e vem, falsas percepções e julgamentos, forças opostas, mas tudo se transformando em conhecimento, em ainda mais curiosidade e vontade de ir além. Aí a gente vai percebendo, também aos poucos, como é bom mudar, evoluir, como nos faz bem internamente – e claro, isso acaba  se manifestando para o externo, uma hora ou outra. Vemos como tem coisas tão interessantes e benéficas acontecendo apesar do que nos mostram as notícias; incentivos que nos direcionam para esse outro lado, mais leve e sim, muito real. Nada de conversa utópica sobre um mundo que gostaríamos que fosse perfeito, mas com a satisfação da suficiência e do desenvolvimento a seu tempo.

A minha vida, por exemplo, começou relativamente slow (como quase todos nós de “antigamente”, não é?). Cresci na década de 1980 em Ouro Branco, uma cidadezinha a 100 km de BH com 30 mil habitantes, na época (mas ela continua pequena até hoje, ainda bem) em casas com jardim e quintal espaçosos; sem a menor noção de que teríamos wi-fi um dia; minha mãe e eu fazíamos a maior parte do que comíamos (apesar de não haver muita preocupação com a procedência dos alimentos e muito menos com o consumo de carnes e laticínios, volta e meia tinha coisa direto da roça ou de mercados bem menores). Tínhamos rede entre as árvores, muitos livros e tempo para ler, brincadeiras na rua, bicicleta, patins, uma serra linda enfeitando a nossa vista. Mas aí a gente foi crescendo e, igualmente, a tecnologia, a globalização, a correria, o consumo. E vivemos aquele auge eufórico por tudo o que fosse mais prático e rápido (micro-ondas, comidas [semi] prontas, hipermercados, lojas de departamentos, viajar para passar o dia comprando no shopping lotado, hiper valorização das coisas “de marca”, etc).

Já morando em BH, eu vivi intensamente o mundo das festas, da moda e do glamour, experiências que eu conto, resumidamente, nesse texto abaixo, que fiz a convite da querida Gabriela Queiroz para seu projeto de conclusão do curso de moda, uma revista com foco na cultura slow.

E dessa época eu custei a voltar a falar sobre, porque foram muitas coisas boas, muitas mesmo, fui muito feliz, carrego comigo lembranças inesquecíveis e pessoas e momentos do coração, além de muitos erros e acertos e incontáveis aprendizados, de todo o tipo. Nunca imaginei que viveria parte da minha década de 20 anos de uma maneira tão intensa, divertida e produtiva, mas que terminaram muito mal pela clássica ambição desenfreada que deixa a amizade e tudo o mais para lá e prioriza a desonestidade e o ganho a mais a qualquer custo. E, além de mim, envolveu a minha família em questões burocráticas que perduram até hoje e isso me deixou bem depressiva por alguns anos, sem saber o que fazer em seguida, perdidinha. Mas, como às vezes tudo caminha de uma maneira em que só entendemos depois, não fossem pelas consequências desse processo eu não teria sido praticamente “obrigada” a enxergar e viver as coisas de outra maneira. Exatamente um Rever. Para começar de novo, foquei na busca por um trabalho em que a ética fosse um fator primordial, como por exemplo tentar trabalhar em empresas que eu soubesse serem mais confiáveis; pensei em fazer um MBA com um enfoque bem business e comecei a ler sobre ética, o que me aproximou da sustentabilidade e do que vi que existia e me chamou a atenção. E isso se encaixou com o estilo de vida, área em que pensava que não iria mais trabalhar. Daí veio bastante pesquisa e desenvolvimento e cheguei ao “luxo sustentável”, com o extinto site Exemplar id, que foi por onde eu conheci a cultura slow e de onde nasceu o Review. De três anos e meio pra cá, foi de onde conheci cada pessoa e iniciativa que me inspiram e alegram tanto. Extremamente grata por todo o redemoinho de acontecimentos! Porque só hoje, com mais maturidade e calma, consigo ligar cada pontinho e sua importância; me vejo como sendo eu mesma, leve e totalmente apaixonada pelo que faço, que se mistura com o meu dia a dia, com o que eu escolho, com o que dedico meu tempo, como, onde e por quê… Tudo interconectado! Assim como são o mundo, o universo e os nossos próprios caminhos.

Guia SLW | Faculdade Fumec |

Guia SLW | Gabriela Queiroz

Tudo indicava que eu iria trabalhar com algo relacionado à moda. Primeiro pelas coleções de revistas, desde a adolescência. Depois por uma breve carreira de modelo, nessa mesma época. Depois de me formar em jornalismo, uni o gosto pelas palavras ao grande interesse (e consumo) de moda e quase me aventurei em São Paulo para tentar a sorte na redação de alguma dessas revistas às quais eu tanto acompanhava. Mas acabei ficando mesmo em Belo Horizonte, onde me envolvi intensamente na área do entretenimento ao fundar, em sociedade, uma drinkeria e um club underground, produzindo festas de rock, pop, eletrônico e… festas de moda. Uma vez inserida no meio, criei um blog, o Ameixa Japonesa, para escrever sobre esses eventos e sobre a área em geral – especialmente sobre as tendências e acontecimentos de BH. E quis o destino que fosse em um timing conectado ao início do “boom” desse tipo de veículo independente (até então). Com o blog associado à extinta plataforma ModaSpot, da Editora Abril, que abrigava conteúdo das revistas Elle, Manequim e Estilo, foi muito bom conhecer tanta gente talentosa, participar de eventos, desfiles, lançamentos, matérias (inclusive loira, ao lado de Thássia Naves, olha que chique…), realizar trabalhos com marcas e profissionais incríveis, ter acesso a roupas e acessórios “dos sonhos”, usar a criatividade para funcionar em produções múltiplas. E tudo isso associado a muito, muito consumo. Muitas compras e muitos presentes. Muitas peças escondidas, esquecidas e “enjoadas” nos armários e nas araras dos dois quartos do pequeno apartamento onde morava sozinha.

Em 2010, no Velvet Club

Em 2010, no Velvet Club

Veio o look do dia e não me adaptei tanto. Jornalista por convicção, a moda traduzida em palavras me encantava mais do que em um esquema tão focado em mim. Com isso acabei me envolvendo em misturas interessantes de projetos que ligavam a moda à arte, design, música, gastronomia, ONGs. E ainda, como “empresária da noite” não me sobrava tanto tempo para me dedicar ao blog. Com o passar dos meses, dos anos, tudo estava dando certo. Eu tinha pouco mais de 25 anos, era independente, ganhava bem, tinha três negócios de sucesso, uma vida agitada, corrida e glamourosa. E com excessos. Muitos deles. Noitadas, álcool, consumo, exposição. E do outro lado, carências, sono atrapalhado, alimentação errada, vida bagunçada. Por mais que eu tentasse me organizar, fazer uma academia, minha agenda não permitia harmonia. Tinha conquistado tudo o que é considerado para a sociedade como sinônimo de sucesso, mas por trás das fotos e produções, eu não estava feliz e não sabia exatamente o porquê, além das questões internas que já começavam a aparecer. E sentia que faltava algo, não me tornava satisfeita. A gota d’água chegou com o acúmulo de problemas na sociedade, financeiros e administrativos, e um esgotamento da minha energia, problemas em relacionamentos e comigo mesma – mesmo que eu só os reconheça como tais hoje em dia.

Tomei uma decisão meio drástica de largar tudo por aqui e ir morar fora, algo que era quase um sonho que queria realizar. Fui entusiasmada para Paris, França, onde fiquei por alguns meses estudando francês e buscando me reconectar comigo mesma, já próxima dos 30 anos e em contato direto com um lado dos parisienses que aprecia os fins de semana nos parques, ao ar livre, na grama, comendo sem pressa. Cafés prolongados ao sair do trabalho, cozinhar em casa tomando um vinho. Menos coisas, muito mais qualidade. Uma vida um pouco mais tranquila, fazendo coisas que nos preenchem por dentro. Ainda não foi o momento em que eu mudei, mas sei que já me acendeu uma luz.

Ao voltar para o Brasil, encerrei de vez minha participação nos três negócios, saí de todas as redes sociais e fui para Ipatinga, minha cidade natal, passar alguns meses com minha mãe e avó para pensar em qual rumo tomar para a minha “nova vida”. Tive uma fase bem depressiva, desanimada, em busca de cursos, empregos. Um tempo depois, já de volta a BH, reencontrei uma amiga de faculdade que havia morado por seis anos na Alemanha que me apresentou a uma proposta já bem avançada por lá, a sustentabilidade no dia a dia. Mas não essa dos clichês verdes e do greenwashing que tanto vemos por aí, geralmente aparecendo sem muitos resultados concretos, mas uma sustentabilidade inserida na vida de maneira consciente, em nossas escolhas diárias, em uma busca por mais bem estar e por soluções inovadoras para as nossas questões ambientais e sociais, principalmente. Nada a ver com se tornar um eco-chato ou ter que se mudar para uma casinha sem eletricidade ou transformar toda a casa em uma garrafa pet ambulante, como geralmente o tema ainda é visto.

Comecei a procurar online e fui descobrindo muitas marcas de moda e outras iniciativas lindas atuando com essas propostas. Foi praticamente um amor às primeiras pesquisas, rs. Imagine, a área que eu tanto gostava agora associada a um porquê, a vantagens que envolviam muito mais pessoas, que eram benéficas tanto para seu trabalho em si quanto com relação ao cuidado com quem trabalha, com os animais, com o meio ambiente. Só sendo muito insensível para não se encantar! Daí para frente foi uma relação cada vez mais intensa e animada com as áreas da moda e do estilo de vida conscientes. Do tanto de roupas e acessórios que eu colecionava, incluindo as que trouxe de viagem, doei uns 80% – mais as revistas e outras coisas de casa – para a minha sogra, que levou tudo para bazares beneficentes. Fui atrás de leveza, foco no que importa, praticidade, qualidade, inspirada no minimalismo. Fiquei conhecendo o movimento Slow e me apaixonei por seus propósitos e possibilidades reais – e necessárias – de mudanças, em todos os paradigmas. A moda e a vida slow se tornaram então minhas grandes motivações, profissionalmente e pessoalmente. Criei em 2013 a plataforma Review Slow Living, que atua com conteúdo e serviços para incentivar a vida, a produção e o consumo conscientes, por meio de nosso Manifesto: Equilíbrio, Escolhas Conscientes, Inovar – e nossos símbolos: Atemporal, Feito a mão, Feito em Minas, Feito no Brasil, Reutilizar, Reciclar, Upcycling, Lixo Zero, Ecofriendly, Orgânico, Agricultura Familiar, Comércio Justo, Social, Sem Crueldade, Vegetariano, Vegano, Amigável aos Animais, Amigável às Crianças, Consumo Colaborativo, Economia Compartilhada, Ar Livre e Experiências.

Em 2014, juntamente à Fernanda Simon, querida amiga e estilista paulista, lançamos no Brasil a equipe brasileira da ONG global Fashion Revolution, que atualmente encontra-se em mais de 80 países e trabalha em prol da conscientização sobre o que acontece por trás da indústria têxtil, nos bastidores: o trabalho exploratório, a degradação ambiental, a alienação cultural; e também o lado positivo, claro, como a inovação em técnicas e materiais, consumidores mais conscientes e exigentes, programas focados em comércio justo, a busca pela sustentabilidade ganhando força através dos tecidos orgânicos, tingimentos naturais e o reaproveitamento, para citar alguns, e até por meio das próprias pessoas, marcas e mídia. Com a moda slow descobri, na teoria e na prática, o quanto essa área pode e deve voltar (e está voltando mesmo!) a ser uma força para o bem – criativa, livre, poderosa, incentivadora, inovadora, transformadora.

Em 2015, com uma equipe mineira, lançamos o Guia Slow Living, uma revista independente do Review, impressa em gráficas sustentáveis e que tem como objetivo reunir, em uma mesma publicação, conteúdo, iniciativas e marcas – produtos e serviços – que contribuem para a vivência e o fortalecimento dos benefícios do slow. Inovações sustentáveis, bem viver, melhores escolhas, um incentivo a uma vida mais leve e prazerosa e um retorno de valores, adaptados, claro, ao nosso mundo conectado e ao surgimento de uma nova economia. Atualmente estamos na edição Dois já com o olhar e ideias no próximo número.

Foto por Plan B Comunicação

Foto da Plan B Comunicação para a campanha “Faça Valer Cada Momento”, da Seculus Relógios, inspirada no slow living. Dezembro/2016

Da moda, em um processo relativamente longo, mas que vejo agora como natural, fui aprendendo e vivenciando o slow em todas as outras áreas da vida. Hiper felizmente me tornei vegana e tenho a alimentação como parte essencial do cuidado nas minhas escolhas; com a beleza natural aderi aos cosméticos orgânicos e ao resgate de receitas caseiras; produtos naturais para a limpeza da casa; hortinhas nas janelas; eu e meu marido adotamos dois cachorros em uma feira que são meus amores; adoro ler, fazer piqueniques e também fazer nada em espaços públicos da cidade, além de viajar para lugares tranquilos e, de preferência, repletos de natureza. Outros passos fundamentais para me estabelecer e me aprofundar em um processo de autoconhecimento e cura (não só dessas situações profissionais, mas de toda uma vida) foram a yoga e a meditação e ainda muito mais mudanças que me trazem a paz e a realização pessoal e profissional que tanto buscava. Minha agenda, claro, está bem mais organizada e consigo fazer os meus horários e trabalhar em casa ou em ambientes agradáveis diversos. Além de escrever para o Review e suas redes sociais e cuidar da revista, escrevo para outros veículos e atuo com palestras, aulas, consultorias de ideias e ações criativas com base no slow living e seus temas relacionados. Continuo sempre pesquisando e me inspirando, aprendendo a cada nova experiência e com cada pessoa que cruza o meu caminho em busca das mesmas realizações. Foram muitas mudanças em cinco anos, em sua maioria difíceis de compreender por um tempo, mas agora entendo cada uma delas e agradeço por terem me trazido para minha essência. Me percebo mais centrada e focada, mais seletiva e absorvendo os benefícios da busca pela espiritualidade, por uma real conexão comigo mesma, com todos os seres e com o meio em que vivemos. Longe de querer superioridade ou perfeição – na busca pelo equilíbrio claro que tenho os meus altos e baixos – enquanto vivo e trabalho quero fazer a minha parte, mesmo que bem pequena, para diminuir meu impacto em nosso planeta e ajudar a trazer incentivos para mais mudanças que, de cada um de nós à nossa casa, bairro, cidade e universo, todos nos beneficiamos. Se foram tão boas para mim, podem ser também para quem se identificar comigo, assim como eu me inspirei com as várias histórias com as quais cruzei. Esse é o meu propósito e por ele acordo motivada em cada manhã. Bem cedinho, ouvindo os passarinhos nesse bairro interiorano e delicioso que é o Santa Tereza.

Foto do topo por Pedro Furtado, para a exposição “Revelar, Esconder”, produzida na Mambo Drinkeria para uma campanha do Diamond Mall.

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Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

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