Inovar para uma Moda mais Limpa

Por Bruna Miranda

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Há alguns dias, nesse texto, eu falei sobre minha trajetória, aprendizados e encontros especiais que tive como integrante da equipe brasileira do Fashion Revolution Brasil. Uma novidade é que continuo colaborando com a campanha e que, como responsável pela comunicação, entra a querida Marina de Luca, uma estilista paulistana que tive o prazer de conhecer no curso que ministrei no Lab Fashion SP, no início desse ano. Lembro de ter falado com ela que achava o máximo ela ter trabalhado por cinco anos na C&A e mais alguns anos em outras marcas do mercado convencional e por ter na bagagem um conhecimento bem próximo sobre a área e o que precisa melhorar, como isso pode acontecer… E agora vocês já estão conferindo o trabalho dela com as redes sociais do FashRev Brasil e muito mais! Agora, nesse post, conto tudo sobre o projeto que ela acaba de desenvolver, o Moda Limpa, uma inovadora e útil agenda de fornecimento da moda “do bem”.

O Moda Limpa surgiu de um jeito curioso e sincero. A Marina, descontente com a maneira com que a indústria da moda e do consumo funcionam, começou a procurar pessoas e projetos que pensassem em novas maneiras de fazer moda, e como usar a moda para transformar o mundo e as pessoas. Depois que saiu do mercado convencional, ela fez um curso com as meninas da UN Moda Sustentável (as duas também integrantes da equipe brasileira do Fashion Revolution) e entrou como colaboradora do movimento. Daí começou a se conectar com muitas pessoas que tinham marcas ou iniciativas com esse foco.

Percebeu então quantas pessoas gostariam de ter práticas menos nocivas em suas empresas, porém não conheciam fornecedores ou modos de mudar suas práticas. Juntando seu conhecimento de mercado e de fornecimento, ela montou uma agenda colaborativa de fornecedores que tivessem alguma prática sustentável ou fornecessem matérias primas ou serviços e colocou tudo em um google docs, aberto para qualquer pessoa.

Foi quando o Kaio, um amigo de internet, viu e se identificou com o propósito da idéia. Ele é um  empreendedor no mercado criativo e, atualmente, trabalha em parceria com diferentes organizações para imaginar possibilidades que alinhem lucro e propósito. Em uma dessas parcerias, trabalhou com iniciativas de combate ao tráfico de pessoas e escravidão moderna, o que o conectou diretamente com a moda aqui no Brasil e, consequentemente, ao Moda Limpa. Para complementar o time, Kaio chamou o Julio, amigo, ex-sócio e programador que acredita que a programação é uma poderosa ferramenta de transformação social e procura desenvolver projetos para web que colaborem com causas, como o tráfico humano, refugiados e adoção de animais.

E assim eles transformaram aquele arquivo do docs em uma plataforma organizada e fácil, para difundir mais e mais as praticas e fornecimentos mais sustentáveis e éticos que já estão disponíveis no mercado: o www.modalimpa.com.br. O novíssimo site – no ar desde 20 de outubro – está em versão beta, pra ser ajustado conforme o uso das pessoas e das empresas. A idéia de ser colaborativo é para que os fornecedores também possam se cadastrar lá oferecendo seus produtos e serviços sustentáveis e que, quem pegar a indicação possa fazer comentários em cada fornecedor contando sua experiência, assim as relações se tornam transparentes. É quase como um selo de certificação colaborativo, baseado na experiência do usuário, como o Uber. “Ainda não somos um selo certificador oficial, mas isso talvez seja um plano para o futuro, incluindo ranking de níveis de sustentabilidade”, explica a equipe do projeto. Outro plano é criar uma consultoria Moda Limpa, que vai ajudar empresas (novas ou antigas) a substituir práticas e matérias primas da melhor maneira possível.

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Manifesto Moda Limpa

Somos 3 pessoas interessadas em melhorar a relação entre seres humanos e do ser humano com a Terra, através de boas práticas na produção de produtos de moda.
Acreditamos em tratar bem as pessoas, com cuidado, entender o tempo de cada um. Acreditamos em respeito aos outros e respeito à vida.
Entendemos que as práticas produtivas atuais, da moda, são muito prejudiciais ao meio ambiente e às pessoas.

Hoje são retirados do planeta:
– insumos renováveis (como algodão e água) em uma velocidade que o planeta não consegue repor.
– insumos não renováveis (como petróleo e oxigênio) em uma velocidade igualmente alta, caminhando para um esgotamento bem em breve.

Tudo isso com objetivo de produzir uma alta quantidade de produtos que alimentam a economia do consumo excessivo e predatório.
Além do descontrole da retirada das matérias primas para sua produção, também são usadas grandes quantidades de agrotóxicos, pesticidas e químicos poluentes ao planeta e ao homem, deixando o meio ambiente e o trabalhador muito doentes e com graves sequelas.
Em paralelo ao desgaste causado pelo tema “matéria prima”, temos também a exploração de pessoas (adultos e crianças) para tornar o trabalho mais rápido e barato. Desde leis trabalhistas fracas ou inexistentes em alguns países até exploração fora da lei (análoga à escravidão e trabalho infantil).
E, para completar o grupo de práticas prejudiciais, temos o alto índice de resíduos na produção e descarte de produtos (como roupas, calçados, bolsas etc) que são comprados e pouco usados por conta da nossa atual forma de consumo.
Isso sem contar o gasto de energia e água em transporte, pontos de venda e mal uso e manutenção das peças de roupas ou acessórios do vestuário.

Ou seja, hoje produzimos errado, vendemos errado, compramos errado, usamos errado e descartamos errado.
A partir dessa consciência, acreditamos que mudar a forma de produzir pode diminuir radicalmente o impacto ambiental e social. E entendemos a importância de incentivar e disseminar o consumo consciente, tanto para o consumidor final quanto para o produtor.
Para isso, as empresas, indústrias, prestadores de serviço, enfim, as pessoas, precisam se conectar, se conhecer e se falar.
Acreditamos em conectar, conversar, trocar experiências. Não temos medo de dividir quem faz coisas boas para nós. Acreditamos que ninguém vai “roubar” nada de ninguém, que há espaço para muitos pequenos e médios produtores nascerem e crescerem juntos e para os grandes produtores mudarem, com escolhas melhores para eles e para o mundo.
Os pequenos produtores podem conseguir evoluir seu trabalho e vender com preços melhores se puderem atender mais clientes e ganhar mais visibilidade.
Ou seja, quanto mais conexões forem criadas e quanto mais os contatos de bons fornecedores forem divulgados e trocados, mais gente legal vai fazer coisa legal!
E, ao mesmo tempo, acreditamos que quem ainda não tem práticas legais com o meio ambiente e o ser humano pode se espelhar em pessoas que já têm! Aprender e replicar, ou até aperfeiçoar!
Não somos uma certificadora e não exigimos selos e certificados para os contatos da agenda. São indicações, como se você estivesse ajudando um amigo.
A “certificação” da responsabilidade sustentável e ética cabe a cada usuário. E inclusive, após trabalhar com o fornecedor, incentivamos o usuário a acrescentar comentários sobre a experiência.

Assim, os objetivos do Moda Limpa são:
• Criar conexões e facilitar o contato entre as pessoas;
• Valorizar e dar mais visibilidade e oportunidade para fornecedores da indústria da moda com foco em sustentabilidade e ética;
• Incentivar a circulação de produtos e o trabalho de profissionais mais sustentáveis e/ou éticos;
• Disseminar conhecimentos de novas maneiras de produzir a moda;
• Incentivar o consumo consciente de produtos e serviços;
• Reduzir radicalmente o impacto ambiental e social da indústria da moda.

Considerando tudo isso, convidamos você a usar a plataforma com o mesmo espírito. De colaboração. De coletividade. Acrescentando coisas boas, ajudando a melhorar, dando opiniões e sugestões. E não apagando informações e nem ofendendo ninguém. Vamos tratar os outros como queremos ser tratados.

Obrigada e aproveitem!

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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