Nossas reações ao sistema que não concordamos, estamos fazendo isso direito?

Por Diorela Bruschi

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São muitas as empresas que agem mal, que enganam seus clientes, que exploram seus fornecedores, que abalam o meio ambiente, que descumprem com as leis. São tantas e tão diversas que quando a gente descobre essas coisas a sensação de injustiça pode até doer. Mas e aí?

Quando eu soube que uma grande empresa de roupas usava trabalho escravo de bolivianos, presos dentro de uma casa na Av. Paulista para ficarem costurando sem parar, sem acesso à luz solar e com os passaportes confiscados, aquilo me pareceu demais. De frente deste fato decidi: Nunca mais comprarei coisas desta marca. Isto fez diferença para a marca? Não. Seus responsáveis fizeram como fazem sempre e como todas as outras marcas e pessoas fazem: disseram que não sabiam de nada, que não tinham como saber. E tudo continua mais ou menos do mesmo jeito, talvez melhor escondido.

No supermercado, fui decidida a não comprar nada de um determinado grupo que faz parte dos grandes dominantes e maltrata o meio-ambiente, os animais, faz um jogo no mercado que não me agrada. Não consegui. O supermercado só tinha coisas daquele grupo, praticamente. E interessante que ele faz parecer que a gente tem opção. Coloca dois, três tipos de pastas de dentes diferentes, com nomes diferentes. Você acha que está comprando o concorrente, mas não está. Não tem escolha. É o que a gente começou a chamar de Comunismo do Capitalismo. No fim das contas, nossas opções vão ficando muito limitadas porque todos os demais foram sendo esmagados ou vendidos para os grandes.

Na mídia, é lamentável a cobertura de alguns sobre acidentes e a falta de cobertura de outros sobre coisas tão importantes como votações no congresso. As escolhas editoriais apelam para a curiosidade mórbida do expectador. Você que já não assistia muita televisão, decide que talvez seja melhor dar uma afastada maior, tanto da TV, quanto da internet. Será que funciona?

Aí você adoece e descobre que a indústria farmacêutica não é muito amiga sua. Há uma grande máfia para vender medicamentos que não servem para nada e vão te custar o olho da sua cara para o efeito placebo. Então decide parar de tomar tantos remédios (com a autorização do médico) e passa a comprar produtos “naturais”, já que a indústria de alimentos também não estava querendo muito o seu bem. Vai na loja natureba mais próxima, compra algumas coisas no cartão. Na fatura, percebe que a loja foi vendida para outro grupo, bem menos natureba do que você esperava. Além disso, seu cartão é clonado nesse dia e o banco não se responsabiliza. O banco não precisa de você.

A justiça está lotada de processos que nem precisavam existir, mas acaba servindo como a única resposta à falta de honestidade no trato comercial de tantos.

É, meu amigo, a vida não tá fácil pra ninguém.  É muita mentira, enganação e, na revolta com tudo isso, é fácil arrumar mais confusão.

“Se eu quiser acordar todos os dias com raiva, terei motivos para isso”, dizia meu pai “mas se eu quiser acordar todo dia com algum motivo para trabalhar e investir energia em alguma coisa boa, também terei motivos”, completava.

Não adianta nada querer destruir essas marcas, empresas, grupos. Não é bem assim que tem funcionado. O que mais mostra resultados é romper as fontes de alimentação de um sistema que perturba as pessoas e dá ganhos aos desonestos. Como? Preferindo os mais transparentes, abrindo caminho para mais informação, educação e até empatia com quem age direito. Como sempre, a gente volta na tecla de valorizar o pequeno comerciante ou mesmo o maiorzinho, mas aquele em que se pode confiar no trabalho.

Não se trata então de um discurso de ódio ou destruição, mas o de apoio ao que tenta fazer certo. Com o tempo e os números de impacto sobre sua reputação, se nos empenharmos, muitas marcas mudarão suas atitudes. Já estão mudando. Repara bem!

 

Na foto do topo, a De-Lá, uma loja/negócio social em BH que nasceu para resgatar tradições e valorizar os produtos mais saudáveis e de origem artesanal, de maneira justa. “Acreditamos que pequenas mudanças transformam o mundo. E, por isso, existimos para conectar o rural ao urbano através dos alimentos e suas histórias, promovendo mudança social. Como diria Rubem Alves, ‘não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses’”. Dessa forma, garantem qualidade de vida para o trabalhador, para sua família e sua comunidade, sem que haja necessidade do êxodo rural em busca de outras oportunidades.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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  • LYGIA BRUSCHI

    VOCÊ, tem razão, não concordamos, mas, também não fazemos direito.” Será herança, falta de vontade ou vícios”? Acho que muito pior é falta de organização. Existe o mínimo e o máximo. Ou somos organizados em tudo e desorganizados conosco. Julgamos muito o próximo sem olharmos nós mesmo. Para tudo damos uma desculpa e assim vamos levando. Consertar a humanidade é impossível! E é como você falou Estamos sempre em busca de outras oportunidades.