Vamos parar de dar visibilidade para quem não merece

Por Diorela Bruschi

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O pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir era um militante pela arte bonita. Aquela que mostra imagens e momentos de prazer e não de desgraça. Lembrei-me disso outro dia, ao tentar ler as notícias de um portal que, obviamente, tem outras finalidades além dos lindos quadros de Renoir.

Tem sido difícil ler jornais e redes sociais quando as chamadas mostram apenas o lado cruel, impiedoso, hostil e ignorante do ser humano. Então esta semana, dediquei um espaço de tempo da minha vida para comentar em alguns veículos e com alguns amigos comunicadores sobre isso.

A primeira matéria para a qual escrevi era uma que contava uma atrocidade cometida contra um cachorro. Não vou detalhar, mas o título era qualquer coisa como « Homem faz coisa horrível com um cachorro ». Ao clicar na matéria a gente descobria que o cachorro não só tinha sobrevivido como também estava sendo tratado com um grupo de garotas que estavam arrecadando dinheiro para financiar o tratamento e precisavam de colaboradores. Uma sugestão de mudança do título poderia ser « Recém-formadas fazem projeto para salvar cachorro e você também pode ajudar ». Isso faria mais sentido, até porque, quem criou repulsão ao ver o título da matéria dificilmente chegaria a descobrir que ainda existe esperança ao longo do texto.

As últimas eleições americanas servirão de referência para muitos estudos. Um deles certamente será o das reações em redes sociais. Ridicularizado e infantilizado em milhares de postagens, o candidato republicano venceu mesmo assim, na melhor prova de que vale a pena o « falem mal, mas falem de mim ». Ainda em etapa de estudos e análises, o que a situação mostra até agora é que de nada adianta ser contra alguém se não se oferece uma opção viável de mudança. Uma solução.

Então vamos falar só de flores e borboletas? Não! Na verdade, como mostra o caso do cachorro (da reportagem sobre), o ideal seria contar a história a partir do ato que mais próximo chega da solução e não da maldade em si. Ou seja, houve um ato de crueldade, e este pode ser contado rapidamente e com o mínimo de detalhes possíveis, mas o que deve ser enfatizado é o como isso tem sido resolvido e como todos os leitores poderiam contribuir para diminuir essa dor.

Ok, mas e no caso de terrorismo?
O que me parece é que estamos fazendo favores para terroristas quando anunciamos seus ataques. Há algo na mente dessa gente que talvez a nossa mente não possa entender, mas eles enxergam certa vantagem em serem considerados horríveis e assustadores. Vale pensar também que muita gente ganha muito em torno da indústria do medo. Então, no caso de um ataque, obviamente todos devem ser comunicados, inclusive para tomarem cuidado ou para ajudarem a encontrar os autores, mas principalmente, devem ser enaltecidos os que trabalham para colaborar, para a paz, para diminuir os danos. E não somente quando acontecem os ataques, mas sempre.

Alguém mais viu a notícia de que cientistas estão fazendo petróleo a partir do esgoto? Ou que estudos tenham evoluído na batalha contra o Lúpus e o Alzheimer? Pouca gente viu isso. Mas todo mundo viu declarações racistas de uma Zé Ninguém e replicou falando que é absurdo, mas replicou.

Simplesmente, parem de replicar maldade!

Há no mundo muito mais gente boa que gente ruim. Garantido! Acontece que não vira notícia a professora que deu aula para uma turma de quarenta alunos e todos passaram com boas notas. Mas se algum desses alunos bate na professora, isso vira notícia. E não é que isso seja proibido, mas a forma de dar visibilidade para essas coisas tem que ser a menos interessante possível para o criminoso, com títulos como “polícia faz excelente trabalho de investigação e põe fim a plano sem noção”ou “39 alunos se mobilizam para afastar colega que não sabia tratar bem a professora”.

E pra terminar com uma boa nota. Ninguém mais sabe o nome do marido de Maria da Penha. Aquela que virou lei. Que bom que a mulher que lutou por sua vida é que ficou famosa. Que bom!

Why shouldn’t art be pretty? There are enough unpleasant things in the world (Por que a arte não deveria ser bonita? Há coisas desagradáveis suficientes no mundo).”
― Pierre-Auguste Renoir

Lista de algumas notícias que valem o compartilhamento:

Cientistas produzem petróleo a partir do esgoto

Possível cura do Lúpus

Menino de 15 anos cria teste para detectar o Alzheimer dez anos antes dos primeiros sintomas

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Imagem do topo: Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) – “Claude Monet Painting in his Garden at Argenteuil (Claude Monet pintando em seu jardim em Argenteuil”). Via The Guardian.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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