Quanto custa um favor?

Por Diorela Bruschi

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Um amigo, que vamos chamar de X, recebeu uma ajuda de outro amigo, que vamos chamar de Y. Esse X tinha uma dificuldade e não estava conseguindo superar sozinho uma questão com ele mesmo. Para não entrar muito em detalhes, vamos dizer que X estava viciado em algo. Y percebeu isso e decidiu acompanhar X ao médico e dar-lhe motivação para superar aquela fase. Então X superou. A conduta de Y foi uma atitude de amigo, muito digna e oportuna. Maravilhoso. Palmas pra Y por ter ajudado. Palmas pra X por ter aceitado ajuda!

Acontece, que algum tempo depois, Y começou a querer decidir tudo que X iria fazer. Quando X deveria tomar algumas decisões sobre sua vida particular, Y entrava no meio, pedia explicações, resolvia qual era a melhor opção. Enfim, Y parecia querer controlar toda a vida de X e usava o argumento de que estava ajudando. Mas estava mesmo? X já havia superado o problema de antes, não estava precisando daquela ajuda e Y insistia em se  intrometer um pouco.

Foi aí que comecei a pensar no preço dos favores. Porque é impossível viver sem contar com as pessoas, sem pedir favores, sem ser grato aos demais. Mas muitos favores se estendem para além dos favores, não é?! E aí fica difícil.

É impossível viver se sentindo endividado por algo que não tem um valor fixo e tendo que acolher tudo o que os demais pedem (mandam, às vezes) que você faça. Aceitar um favor não pode ser sinônimo de escravidão à consciência alheia. Ora, como fica o livre arbítrio aí?

Por muito tempo, eu era relutante em pedir emprego para os amigos, ou amigos de amigos, exatamente pelo medo do preço dos favores. Não sabia o que eles me pediriam em troca e, nessa aflição, acabava ficando na minha, mandando currículos para desconhecidos que, enfim, tinham muito mais chance de ignorar meu currículo. E ignoravam!

Hoje entendi que a gente pode sim contar com a ajuda dos outros. Às vezes, até deve. É um jeito de exercitar nossa humildade também. Mas favor se retribui com favor e deve continuar sempre no campo da voluntariedade. A gente expressa nossa gratidão na medida da nossa capacidade e da nossa compreensão. Aceitar um favor  é uma abertura para uma relação harmônica e de respeito. E é tudo.

Certa vez, ofereci um hidratante de presente de aniversário para uma amiga. Encontrei com ela, entreguei o presente e fiquei querendo que ela experimentasse na mesma hora. Ela falou numa boa « agora não estou com muita vontade ». Foi uma lição pra mim! Eu posso até sugerir as coisas, mas não posso cobrar e nem me indispor com a pessoa, mesmo tendo o crédito de ter feito uma boa ação logo antes! Mesmo entendendo que meu ato foi o mais bonito do mundo, às vezes até sofrido e difícil, não posso exigir que a pessoa passe a funcionar como eu apreciaria que ela fizesse. Isso nos tornaria solidários apenas para nos darmos ao direito de virarmos ditadores.

E não. Já dizia o poeta: gentileza gera gentileza. Apenas isso, que já vale muito.

Saber os limites das nossas pressões sobre os outros e das pressões deles sobre nós mesmos é uma boa forma de começar a tornar a vida mais leve. Estamos todos aprendendo a colocar na gaveta nossas tiranias para deixar as gentilezas no campo de onde nunca deveriam ter saído. Naquele jardim da beleza do gesto.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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