O que você precisa ter?

Por Diorela Bruschi

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Segunda-feira à noite, um gato chegou na minha casa. Não era meu gato, nem eu a humana dele (para usar a linguagem de quem entende de gatos). Em parceria com uma associação, aceitei cuidar desse gatinho até ele encontrar um lar definitivo. A comida, os gastos com veterinário e a areinha do gato são fornecidos pela associação. Este serviço aqui se chama família de acolhimento. Por ter sido abandonado, o pequeno precisava de muito carinho e uma casa quentinha. Eu, vivendo um ano meio solitário, precisava desta bolinha de ternura por perto, mesmo não tendo condições de adotar agora. Juntou a fome com a vontade de comer e Harry chegou.

Em outra cena, ontem à tarde uma amiga me escreveu dizendo que agora é possível alugar brinquedos para as crianças ao invés de comprá-los. Como as crianças enjoam rápido de seus pertences, o aluguel torna tudo muito mais prático, barato e a casa não fica entulhada de coisas. Uma amiga dela está alugando brinquedos para seu filho de oito meses e adorando o resultado.

Na semana passada, um amigo contou que agora não tem mais carro. Quando precisa fazer algo com carro, usa os serviços de motorista que se multiplicaram em aplicativos, táxis ou aluga carros. « Economizo muito mais e tenho muito menos dor de cabeça », contou.

Algo está cambiando no mundo das posses, não?! O que tem que ficar e o que a gente só precisa que passe pela nossa vida?

A gente sabe que a propriedade, por muito tempo, foi uma forma de afirmação e empoderamento das pessoas. Com as reviravoltas do mundo, crises e desgaste  das fontes de energia não renováveis, era natural que as pessoas começassem a pensar em outras formas de consumir e até outras formas de se afirmar. As trocas, empréstimos e soluções encontradas para esta economia alternativa têm mostrado que não é preciso ser extremista em nenhum sistema se em conjunto todos podem colaborar entre si e, por vontade própria, fazer circular bens.

Se a liquidez em torno dos sentimentos faz mal e é difícil, talvez seja a hora de aceitar a liquidez da propriedade. Aceitar o curto prazo como algo prazeroso. Uma arte difícil, Zygmunt Bauman. O que realmente deve ser nosso pra sempre? É possível viver momentos de experiência antes de ter aquilo?

Ao que tudo indica, sim.

Há uma beleza em perceber a fluidez das coisas. Em saber que não é seu, mas que ainda assim merece cuidado, atenção e gratidão.

Lanço esse olhar esperançoso sobre a economia rotativa. E sei, ainda somos pessoas que precisam de posses a longo prazo. Mas agora temos o tempo e o convite para nos formularmos a seguinte questão: O que realmente precisamos ter?

 

Lugar onde minha amiga encontrou brinquedos para alugar em BH

Por que os jovens não compram mais carros e nem casas?

Comprar roupas está ficando fora de moda no Reino Unido (ótimo texto!)

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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