No dia mundial sem carro o que te faz andar de carro?

Por Diorela Bruschi

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Algum engraçadinho deve estar respondendo « gasolina »! Que ótimo! O que te faz andar de carro é ter combustível. Perfeito! Agora, em outra dimensão. O que te obriga a adquirir um carro por um dos preços mais altos do mundo, pagar IPVA, encher o tanque de quinze em quinze dias, procurar vaga, pagar seguro, cuidar da manutenção, poluir o ar e sair sozinho num carro para quatro ou cinco pessoas ?

Não é possível acreditar que tantos estejam vivendo assim porque querem, porque adoram carros. Aquele « sonho americano » já está velho e nem representa totalmente um sonho de todo brasileiro. Acho eu.

O carro no Brasil virou uma ferramenta de segurança para as pessoas e quase que uma ferramenta de socorro, na falta de transporte público de qualidade. Quando seu filho sofre um acidente doméstico, ou você chama a ambulância (que muitas vezes não pode vir) ou arruma alguém que tenha um carro para levá-lo até o Pronto-Socorro. Entendo, compreendo, é impossível julgar de outra forma. O carro ainda é uma necessidade no Brasil. Mas não é uma escolha que todos podem fazer.

Temos um clima tropical. Em Belo Horizonte, um clima bastante ameno comparado ao resto do mundo (nem tão frio, nem tão quente). Poderíamos viver ao ar livre. Dentro de um carro, poderíamos deixar as janelas abertas para economizar dinheiro e petróleo gastos com o ar-condicionado. Mas não. Vivemos fechados e quando estamos dentro dos carros, temos que ficar com os vidros e portas bloqueadas. Porque quando nos atrevemos a abrir o vidro num sinal vermelho…

Já vivi essa experiência três vezes quando era adolescente (ou seja, faz um bom tempo). Sempre do lado da minha mãe, ela abria um pouquinho o vidro e pimba! Chegava alguém com um caco de vidro no nosso pescoço. Era péssimo. Embora nunca tivéssemos perdido muito dinheiro ou nos machucado nessa, a ferida que isso abria era bem profunda. No final, a gente jurava nunca mais abrir o vidro do carro. Aliás, para cada assalto que sofremos na vida, era mais uma privação que a gente se anunciava: Nunca mais vamos sair de casa de noite, nunca mais vamos andar à pé, nunca mais falarei com ninguém na rua, nunca mais voltaremos no parque… e fomos ficando trancados em casa, entre televisão, computador e geladeira. Tristeza disfarçada de uma vida confortável.

« Cuidado com o medo, ele adora roubar sonhos », já dizia o poeta. Ficamos dependentes de carros também por medo das ruas. Das ruas que aceitamos perder.

Não é culpa sua, mas é culpa nossa. Se a gente já tivesse aprendido a agir coletivamente com inteligência, muitos dos problemas da cidade poderiam ter sido melhor encaminhados. Quando tentamos encontrar a solução apenas sozinhos, acabamos nos privando de muito e excluindo o conjunto de uma alternativa mais ampla e até mais simples. Por exemplo, se eu escolho sair apenas de carro, que bom que tenho essa escolha, mas não é uma escolha que todos podem fazer. E, desta forma, passo a não enxergar mais a cidade ao meu redor (o que acontece quando saio a pé ou de bicicleta) e torno invisíveis diversos outros problemas urbanos como a lojinha que perde espaço para uma grande rede nada charmosa, a casa com jardim que vira um estacionamento cinza, o barulho estranho que vem de um poço na esquina etc. Ao deixarmos nosso papel de pedestres, também deixamos um espaço vazio que em grande número torna o ambiente ermo e a cidade mais perigosa. Coitada da pessoa que desce do ônibus a quarteirões de distância de sua casa nessa hora. Se todos estivessem atentos e andando nas ruas, as chances de ocorrência de violência reduziria. Não é a primeira vez que insisto nessa tecla: Mais gente na rua é igual a menos violência. Mas a gente tem que querer não se cegar.

Hoje não é possível levantar apenas a bandeira do « vamos andar de bicicleta », ou « vamos andar mais à pé ». Junto a isso temos que levantar a bandeira do « vamos todos nos unir para cobrarmos mais segurança, mais profissionalismo do transporte público, melhores condições para ciclistas, apoio das empresas e do governo para quem utiliza transporte público, coletivo ou oferece caronas e educação geral ». Enquanto isso não acontece, vamos aos poucos, com muita atenção, tentando encontrar alternativas para a nossa mobilidade. É um ato de ousadia necessário andar nas ruas da cidade e pedalar entre os motoristas distraídos. Por isso, muita atenção! Quem sabe um dia ter um carro será apenas uma questão de gosto pessoal.

Acima de tudo, nunca perca a vontade de caminhar. Todos os dias, eu caminho até alcançar um estado de bem estar e me afasto de qualquer doença. Caminho em direção aos meus melhores pensamentos e não conheço pensamento algum que, por mais difícil que pareça, não possa ser afastado ao caminhar” – Soren Aabye Dierkgaard – Filósofo dinamarquês 1813-1855

 

Links:

Concorrente do UBER diz que pessoas não terão carros em 2025

Carona solidária

Aplicativo colaborativo indica problemas na cidade

O lindo projeto Vamos Juntas

Google Maps passa a mostrar rotas de bicicletas em BH

Canadá quer pistas de patins no gelo para a mobilidade urbana

Plano de mobilidade urbana de Belo Horizonte

Lista de contatos de vereadores de Belo Horizonte (encontre da sua cidade também e cobre!)

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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