Outras formas de morar

Por Diorela Bruschi

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Até meus vinte e cinco anos morei no mesmo apartamento, com as mesmas pessoas. A minha vida era quase estável e eu não sabia. Desde que me mudei pela primeira vez, comecei a acordar de noite sem saber onde estava.

Até que chegou este ano e as circunstâncias da vida me fizeram experimentar um nomadismo jamais imaginado. A cada mês, eu juntava minhas malas e mudava de casa, inclusive de país. Morei em casal, morei com amigos, vivi sozinha, depois com meus pais, depois sozinha de novo, com amigos de novo e cada hora num lugar, com um chuveiro abrindo de um jeito, com uma tranca diferente na porta, com uma vizinhança fazendo ruídos diversos.

Das sete ou oito mudanças que realizei este ano, duas coisas ficaram: A primeira é que faz falta ter um canto pra chamar de seu. Faz falta poder se projetar um pouquinho mais no futuro e pensar « vou fazer isso lá em casa, vou levar isso lá pra casa », ou simplesmente « quando eu chegar em casa… ». Isso faz falta mas é uma fase, já vai se resolver. A segunda coisa é que existem muitas e mil formas de morar. E que cada casa é um mundo, é um universo de manias a ser descoberto, é uma adaptação nova. Que riqueza poder experimentar isso!

Desta vida de cigana, tirei pra mim algumas lições. Uma delas é que nada adianta a gente ter muita coisa mesmo. No final das contas, ter um bom travesseiro, e saber onde estão os chinelos e as chaves é que contam no dia-a-dia. Minha vida está cabendo em duas malas e quatro sacolas.

Outra coisa é que dividir é uma estratégia inteligente de morar e otimizar uma moradia e a hora da faxina. E não precisa ser apenas com os pais, o amor da sua vida, ou a sua melhor amiga.

Falando da experiência na França, observo que viver em repúblicas (aqui chamadas de Colocations ou Colocs) reduz os custos com a casa, aumenta a funcionalidade de tudo e, principalmente, limita a solidão das pessoas. E, interessante notar!, aqui este conceito não se limita apenas a estudantes.

Conheci um senhor que, depois de um divórcio doloroso, foi viver com outras quatro pessoas que alugavam uma casa com jardim. Esse senhor virou o paizão daqueles que eram cerca de 20 anos mais jovens que ele. Ele os ensinou a fazer cerveja, ensinou a consertar carros e reaprendeu com seus colegas a sair num sábado a noite, a contar piadas, a correr e praticar esportes.

Quando queriam, tinham seu espaço privado, e ninguém controlava muito a vida do outro (direito à privacidade!). Mas, na hora de jantar, ou num dia ensolarado, todos se reuniam no jardim e dividiam uma melancia. Era bonito.

Atualmente divido uma casa assim, com mais dois amigos, apenas até o fim do mês. A gente tenta controlar o volume das músicas e a bagunça na cozinha, mas também fazemos duetos de violão e somos ombro e lenço pra quem precisa.

A ideia de dividir apartamento com gente que é gente boa (importante!) deve ser bem futurista. A internet com o preço que está, os aluguéis e IPTUS como sempre foram e a longa e complicada relação com as relações humanas me faz pensar que esta é uma forma de morar que deve ser cada vez mais estimulada em quase todas as idades e cidades do planeta. Desde que as pessoas tenham noções básicas de higiene e educação, tudo pode passar bem. Me pego pensando que vivendo assim, dividindo a mesma pia e saleiro, as pessoas saberiam respeitar melhor o espaço público que dividimos todos. Por que não?

Foto do topo: Simplementbeau

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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