Uma nova forma de consumo X Emprego e as relações sociais

Por Bruna Miranda

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– Por Renata Ávila Alamy para a Edição Um do Guia Slow Living

A economia compartilhada (peer to peer) não é novidade, mas, como fenômeno digital, atingiu escala transcontinental. O surgimento de plataformas e aplicativos de trocas transformou qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, munido de um simples smartphone, em um potencial empreendedor.

A lógica começa a mudar ou, pelo menos, novas escolhas são apresentadas, até para aqueles fora do mercado. E você não precisa parar de atuar dentro da nova lógica, não existe aposentadoria na economia compartilhada, a escolha é sua e você pode usar essa alternativa até o final da sua vida. Talvez esse seja o melhor momento para ser um freelancer, pois nunca houve tantas oportunidades de deixar o trabalho para se fazer o que gosta. O mais curioso é que pessoas que antes tinham dificuldade em ser contratadas, após vivenciarem muitas experiências de compartilhamento aumentam sua empregabilidade, mas será que ainda precisam disso?

Por muito tempo a maioria das pessoas só enxergava um caminho para serem felizes no emprego: a solução era descobrir em você algo que gostasse e aí você nunca mais iria ter a sensação de que estaria trabalhando. A qualidade de vida era uma busca dentro de um paradigma do emprego. Mas, e se tirarmos o emprego dessa busca? E se o emprego desaparecer mesmo? O que sobra seria questionar não mais como ser feliz no emprego, mas como ser feliz, ponto.

A economia compartilhada dá poder às pessoas e as torna micro-empreendedores, que fazem e economizam dinheiro através dos seus ativos. O seu carro, bicicleta, apartamento, cozinha, instrumento musical e diversas habilidades podem agora ser fonte de renda e numa escala nunca antes imaginada. Estima-se que até 2025 esse novo modelo de economia movimente 335 bilhões de dólares. Isso abriu um novo marketplace, que vai além do vender e comprar itens e pode fazer com que o trabalho tradicional perca a relevância. Esse novo ambiente conecta você diretamente com a pessoa que precisa de algo que você já tem, mas que antes era usado apenas por você. Tanta facilidade antes não era possível, pois não existiam os meios, as plataformas, pelo menos não como vemos hoje. Em 20 minutos você pode criar um anúncio Airbnb e, no dia seguinte, você pode ter alguém pagando para se hospedar na sua casa. A tecnologia criando um mercado para algo que nunca teve um mercado antes.

E a moeda da nova economia é a confiança. Estabelecer conexões que perdemos ao longo do caminho, relações ao invés de transações vazias, como diz Rachel Botsman, autora do livro “O que é meu é seu”. Isso nos remete a tempos mais antigos na verdade, como fazíamos antes. A confiança e sistemas abertos de avaliação no mundo virtual vão mudar a maneira como nos relacionamos e confiamos no mundo face-to-face. Brian Chesky, co-fundador do Airbnb, falou recentemente no OpenAir que podemos pensar em três fases: o mundo offline se tornando online, seguido do mundo se conectando, para chegar à terceira fase da internet, indo para o mundo “real”, indo para a sua vizinhança.

Num dia como hoje, enquanto você lê esse artigo, em torno de meio milhão de pessoas estão se hospedando na casa de outras pessoas até então desconhecidas, originários de 186 países. Isso é mais que o dobro em relação a um ano atrás. E esse não é um desafio online, mas um desafio offline, onde o mais importante é o relacionamento interpessoal. E várias empresas estão emergindo no sentido de aprimorar a experiência offline e conectar as pessoas com o mundo ao seu redor, construindo a ponte entre o mundo virtual e físico. E o Airbnb faz isso muito bem, ele vem transformando estranhos em amigos e estudando maneiras de criar softwares que consigam entender a psique dos anfitriões e hóspedes, uma vez que os conecta no mundo “real”, criando uma experiência de grande impacto, de experiências para além da interface.

A prática de compartilhar recursos estremeceu a base de grandes corporações, obrigando-as a repensar o modelo de negócios. Com isso, alguns conceitos vieram à tona como o da abundância, citado por um dos criadores da Singularity University, Peter Diamandis, em seu livro “Abundância: o futuro é melhor do que você imagina”. O que estava ocioso é monetizado e cria receita. Isso fomentou a ideia de acesso, em oposição à ideia de aquisição. E possuir as coisas vai, aos poucos, perdendo o sentido e status, e ter acesso se faz mais presente e relevante. Isso é revolucionário e talvez o caminho para novos sentidos, novos valores. Será que o dinheiro vai ser tão importante daqui a 10 anos? No século passado, muitas formas de crédito foram criadas e elas determinaram quem teria acesso. Nesse século, novas redes estão sendo criadas e reinventando a maneira como pensamos em riqueza, mercado, poder e consumo. Ao invés de se pensar verticalmente, escalando a indústria, podemos pensar lateralmente o que temos de bom para oferecer. Essa ideia gera abundância ao mesmo tempo que pode fazer mais sentido para o meio ambiente e um comportamento mais sustentável.

As inovações disruptivas causam desagrado em muitos setores, justamente porque podem significar demissões, falência ou mudança forçada no modelo de negócios. Estamos vendo isso acontecer com a Uber, que independentemente de se enquadrar ou não no conceito de economia compartilhada, significa uma quebra de paradigma e representa uma nova lógica de mercado.

E nós, somos essencialmente solidários? Bons? Amáveis? O Airbnb lançou um vídeo intitulado Is Mankind?. Ele fala de valores da humanidade, da comunidade, da importância em criarmos pontes culturais, convidando para que todos conheçam o mundo através dos outros, nada mais do que sermos empáticos. “Vá descobrir, vá ver pela janela deles e aí você poderá entender suas visões, sente nas mesas deles e compartilhe os gostos, durma nas suas camas e aí poderá conhecer seus sonhos, vá descobrir e veja quão amáveis são os homens e mulheres da nossa humanidade”.

No trabalho ou emprego buscamos dinheiro mas também alguma realização, como sermos felizes. Na minha opinião, temos que evoluir essa ideia para como fazer o outro feliz, como sermos felizes na coletividade, como resolver o problema do outro e um problema do mundo, por que não? Assim, podemos pensar em construir relações sustentáveis, o verdadeiro espírito humano e quebrar talvez o mais importante dos paradigmas, o da existência, pois só existimos na relação com o outro. Usufruir de algo material de forma compartilhada está sendo o primeiro passo e agora temos que pensar no capital humano ocioso. Quão poderoso e transformador pode ser compartilhar nós mesmos, nossos sonhos, nosso conhecimento, nosso olhar, nossa humanidade.

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Foto do topo por Silvia Vasconcellos

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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