A internet que constrói: Entrevistada de hoje – Maura do “Maura, me ajuda” no Canadá!

Por Diorela Bruschi

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Há um tempo me interesso pelas histórias de pessoas comuns que se dispõem a ajudar outras, construindo uma cadeia solidária e chegando a um número incrível de soluções de problemas para amigos e desconhecidos. A internet, ao mesmo tempo que pode criar tantas inimizades, antipatias e rechaços pode também construir pontes e correntes do bem como no caso de hoje.

« Maura, me ajuda! »,  era assim que sistematicamente começavam todos os emails que ela recebia desde que iniciou o seu processo migratório para Vancouver, no Canadá.

Maura Ramos visitou Vancouver pela primeira vez em 1999, quando suas filhas tiveram a oportunidade de estudar na cidade. « Desde a primeira vez, me senti em casa, mesmo sem saber falar o idioma ».

Em 2005, quando ingressou no Orkut para conhecer melhor sobre os trâmites para a migração, foi aos poucos sendo procurada por outros brasileiros que confiavam em suas informações para visitarem ou se estabelecerem em Vancouver. Foi assim que surgiu a página « Maura, me ajuda ».

Tive o prazer de conhecer Maura na escola de idiomas Vancouver English School. E ela também me ajudou a encontrar um apartamento em menos de uma semana. Maura é reconhecidamente uma pessoa generosa e colaboradora, por isso, quis saber mais detalhes.

 

1) Quando você se mudou para o Canadá?

Desde 1999, data da minha primeira entrada no Canadá, como turista, entrei e saí do país diversas vezes por conta da frequência das minhas duas filhas numa high school para, somente em 2009, entrar e não mais sair.

2) Desde sempre você queria morar no Canadá ou tinha um período fixo?

Desde minha primeira entrada no Canadá, em junho de 1999, como turista por um mês. Ao desembarcar no YVR , aeroporto de Vancouver, senti que essa era “a minha cidade” pois jamais me senti estrangeira, mesmo sem falar inglês.

3) Por que Vancouver?

Vancouver é cercada por três grandes montanhas, possui mar, lagos, rios e um clima maravilhoso. Foi eleita  a cidade mais caminhável do país (Canada’s most walkable city) e, para mim, poder estar sempre outside, em qualquer estação do ano, é fundamental. [pra gente da Review também]

4) Como foi que você ofereceu a primeira ajuda a um brasileiro que chegou em Vancouver?

Minha vida de orkutiana começou em 24 de julho de 2005 por ocasião da ida, definitiva, da minha filha mais velha para o Canadá, dentro de um programa do governo de trabalho que, após determinado tempo, daria direito ao ingresso no processo de residente permanente. Como desconhecíamos as leis canadenses e não tínhamos muitas condições financeiras para pagarmos um consultor imigratório, o orkut foi a nossa “porta da esperança”com suas inúmeras comunidades sérias que tratavam também de assuntos ligados ao Canadá. Tudo que discutíamos, todos os caminhos encontrados, acabaram tornando-se tópicos importantes para futuras consultas. Dessa maneira muitos membros de “Maura, me ajuda”, foram beneficiados com informações seguras que os ajudaram na obtenção de vistos de entrada, de extensão, de ingresso em carreiras etc.

A página do Maura Me Ajuda no extinto Orkut

A página do Maura Me Ajuda no extinto Orkut (clique para ampliar)

5) E como você sistematizou esse trabalho? Foi aí que foi criada a página “Maura, me ajuda”? Quantas pessoas participavam da página, você se lembra?

Iniciei buscando informações nas comunidades relacionadas ao Canadá, inúmeras na época e fui selecionando as mais focadas em imigração e ensino superior, com membros de costa à costa. Para armazenar tantas informações e iniciar uma conversa sobre leis canadenses minha filha criou a comunidade “Maura, me ajuda” pois absolutamente todos os emails que eu recebia anteriormente começavam assim: Maura, me ajuda! <rs>  O mais importante para mim na página era a ordenação dos assuntos, a liberdade de ingresso de todos, independentemente da raça, religião ou opção sexual, o respeito a qualquer pergunta, sem permitir agressões, insultos e afins.  A comunidade foi crescendo em progressão geométrica, passando de 5 membros para mais de 3 mil em menos de um ano, tendo terminado com mais de 30 mil (tive que começar nova comunidade por tê-la tido praticamente destruída por hakers) [Lembrando que estamos falando de Orkut, gente!].

6) E como você conseguia ajudar tanta gente?

Quando fazemos um trabalho sério, onde o ser humano é tratado com respeito, carinho, transmitimos segurança e passamos a ser um porto seguro a todos que, de alguma maneira , o procuram. O “boca a boca” funcionou 100% sem que tenhamos feito campanha, ou publicidade alguma sobre MMA (Maura Me Ajuda). Participava de outras tantas comunidades, parecidas com a minha, que também foram formadas por profissionais de todas as áreas e que repassavam suas experiências, sucessos e insucessos, o que ajudou muita gente durante os processos de imigração. Na realidade o sucesso de MMA deveu-se aos seus membros que mais informaram e nos ajudaram do que eu os ajudei. [Maura modesta!] Eu apenas ordenava, gerenciava e buscava links oficiais para discuti-los com os demais. Nossa grande meta era que todos os envolvidos com o Canadá, como turistas, imigrantes ou estudantes/trabalhadores, estivessem em condições legais e assim permanecessem pois não queria que as portas canadenses fechassem para os brasileiros ou as regras pudessem tornar-se mais rígidas.

7) Eu achei meu apartamento para alugar graças a você. Numa conversa de 5 minutos, você me apresentou para os responsáveis e já resolvemos tudo. Como você consegue encontrar soluções de forma tão rápida?

Fico feliz em saber que, de alguma maneira, pude ajuda-la. Sempre tive sorte em estar no lugar certo, na hora certa e conhecer as pessoas certas. Meu cuidado maior sempre foi apenas indicar o que eu, pessoalmente, conhecia e acreditava ser bom. Vancouver, na realidade, é uma grande vila, onde acabamos nos encontrando sempre e tendo acesso a muitas informações.

8) Alguma vez você ganhou dinheiro com o Maura, me ajuda?

Não, nunca ganhei um centavo com MMA  pois isso não me faria bem pessoalmente. Se minhas filhas hoje são cidadãs canadenses e eu estou em vias de ser, devo muito ao orkut e todas as excelentes informações obtidas de tantas comunidades e grupos de discussão.

9) Com que ferramentas você contava para poder ajudar as pessoas?

A primeira sempre foi o site oficial do próprio governo canadense, minha “Bíblia Sagrada”. Depois as demais comunidades ligadas ao Canadá de alguma forma e que eu acreditava serem sérias.

10) Se não foi dinheiro, quais foram os seus ganhos com essa experiência?

Conhecimento, segurança nos caminhos a percorrer, amizades que, mesmo virtuais, foram e são muito importantes em nossas vidas (minhas filhas e a minha). Devo ao orkut e aos seus membros o sucesso que sempre tivemos em nossos inúmeros processos desde 2005.

11) Como você se sentia em relação a esse trabalho?

Feliz, estimulada, gratificada, respeitada e cada vez mais buscando e ampliando conhecimentos. Não há dinheiro no mundo que pague por tais privilégios.

12) Me recordo de quando você ganhou destaque no quadro de honra da escola de línguas e todo mundo te aplaudiu vivamente. As professoras falaram que era um enorme privilégio ter você entre os alunos. Você sente que este reconhecimento está ligado ao seu trabalho que auxiliou tanta gente?

Talvez um pouco, mas na época creio ter sido pelo meu sobrenatural esforço em aprender um novo idioma depois dos 50 anos, quando nossa memória já não é a mesma. Chegava cedo na escola para ler os jornais do dia, anotando as palavras desconhecidas e bastante utilizadas, como também ouvia a CBC News, rádio, no percurso de casa à escola e vice versa. Todos os demais alunos, mais jovens, eram muito melhores do que eu no idioma e eu precisava aprender, falar, escrever, para poder viver no Canadá. Acabei sendo um exemplo de aluno mais do que dedicada apenas <rs>. Mas reconheço que era muito conhecida pelos estudantes devido ao Orkut!

13) Como esse trabalho colaborou para a sua estadia no Canadá?

Em praticamente tudo, pois pude conhecer e discutir as leis canadenses e poder optar pelos caminhos corretos a seguir, tanto para mim quanto para minhas filhas. Imigrar exige paciência, investimento, conhecimento, tempo e, desde nossa primeira estada no Canadá, em 1999, focamos na imigração futura que hoje é uma realidade. Sempre afirmo que daqui não saio, pois amo Vancouver, a cultura canadense, seu clima, sua natureza. Sinto-me totalmente confortável, segura e feliz junto às minhas filhas e hoje com minha neta.

 

Obrigada, Maura, por sua história linda.

E se você (leitor) tiver mais dicas de pessoas que se ajudam pela internet, avisa pra gente! Queremos conhecer!

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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