Slow Beauty: A arte do menos é mais, do seu prato à sua nécessaire

Por Review

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– Por Isadora Caporali, CEO da Sublime – Rituais de Bem Estar, para a Edição Um do Guia Slow Living

Possivelmente eu já praticava o conceito de slow beauty antes mesmo de saber que algo nesse sentido poderia existir. Cresci em uma família mineira que sempre acreditou que menos é mais. Tínhamos as receitas de beleza que foram passadas por gerações, eram cosméticos que fazíamos em casa e que sempre embelezaram minhas avós vaidosas. Depois dessa criação, apesar do conceito de orgânico ser novo, eu o adaptei intuitivamente como o único caminho que poderia seguir. Além disso, sempre fiz o estilo “menina bonita”, mas tinha pavor das regras de beleza convencional e dos modelos surreais de beleza que eram impostos pela mídia. Eu sempre fui autoconfiante e segura da minha sexualidade e sensualidade. Mas, ao olhar a sensualidade vendida nas TVs e revistas, achava tudo aquilo absolutamente “plástico”. Uma das minhas primeiras bandeiras foi passar a consumir produtos da marca Dove após a empresa lançar suas campanhas com mulheres comuns, há mais de 10 anos. Esse foi apenas o começo. Aos poucos, fui entendendo que existia muito mais do que trabalhar com mulheres reais em campanhas de marketing. Comecei a perceber que a origem dos produtos, assim como o efeito que os ingredientes tinham no meu corpo, também importavam.

Para falar sobre esse processo de descobrimento, quero começar esclarecendo o que realmente significa o mais novo conceito de slow, que veio após o slow food e o slow fashion, mas que ganha cada vez mais adeptos.

O Slow beauty incorpora três aspectos essenciais. O primeiro é diminuir a quantidade de produtos na estante e na nécessaire: menos é mais. É importante entender que ninguém precisa de três tipos de shampoo e mais quatro tipos de condicionador diferentes no box do banheiro (e, na maioria das vezes, eles estão quase todos expirando pois foram aos poucos sendo esquecidos ali).

O segundo aspecto segue a vertente de menos é mais, porém está relacionado a uma questão emocional, mais do que material. Não precisamos correr de clínica em clínica atrás de soluções milagrosas para esconder os (charmosos) sinais da idade. O conceito de slow beauty aceita e valoriza a real e natural beleza de cada um.

Pra finalizar, o terceiro aspecto é tão essencial quanto os dois primeiros e traz a mesma pergunta que o slow food/fashion: “de onde vêm os meus produtos?”. A procedência é importante tanto para valorizar produções artesanais quanto para priorizar o uso de insumos orgânicos e naturais na confecção de nossos cosméticos. A preocupação com sua origem inclui diversas variáveis, como a história de quem produz, a qualidade dos ingredientes – orgânicos são melhores ainda – e, lógico, até mesmo a produção de seus próprios cosméticos em casa.

Receitas caseiras são um grande sucesso por vários motivos. Primeiro, elas podem ter uma performance excelente (a boa máscara de mel e aveia não falha em ninguém). Além disso, também é um processo delicioso tirar algumas horinhas na sua semana para cuidar da beleza fazendo suas receitinhas. É como o prazer de cozinhar, que foi o berço do movimento slow food.

O Slow beauty tem a mesma importância em nossas vidas porque não adianta uma mesa farta com produtos saudáveis, preparados saboreando o prazer do tempo, e uma prateleira com produtos cheios de toxinas, muitas vezes até mais nocivas do que aquelas encontradas em alimentos. O que pouca gente percebe é que a pele é o maior órgão do corpo humano. Tudo que entra em contato com ela é absorvido diretamente por nossas células. Na busca pelo quick fix (algo como “reparo rápido”) e por resultados milagrosos, a indústria da beleza passou a usar (muitas vezes desenfreadamente) vários ingredientes não testados para uso no corpo humano e outros que são descaradamente maléficos para a nossa saúde. Pense no simples ato de usar um desodorante, uma das coisas mais banais da nossa rotina. A maioria deles são compostos de alumínio, que, literalmente, fecha os nossos poros. Ele atua para impedir um processo natural de secreção do nosso corpo. Para complementar, estes mesmos desodorantes frequentemente possuem parabenos em sua composição, que são estabilizantes que foram encontrados em células cancerígenas nas glândulas mamárias. Isso é, com um ato tão simples, podemos estar causando danos à nossa saúde nos quais nunca paramos para pensar.

Não precisamos falar apenas da nossa saúde, vamos olhar para o macro. Não dá mais para viver em um mundo que busca incessantemente a juventude eterna. Mulheres lindas que perdem suas vidas pelo uso incorreto de substâncias (lembram do caso do Hidrogel?) ou por quererem pertencer a um modelo de beleza que não agrada ninguém (estamos sempre muito gordinhas ou muito magrelas). Me lembro de quando estava em férias na Sardenha com oito lindas mulheres, todas minhas grandes amigas. Uma delas começou a sofrer de anorexia naquela época. De repente, em uma manhã, dei por mim que estávamos todas lendo revistas de moda e beleza com modelos magérrimas e, ao mesmo tempo, lamentando o estado na nossa amiga. Como não conseguíamos ver o efeito que aquelas fotos tinham nela, ali do nosso lado? Num ato de rebeldia, peguei todas aquelas revistas e joguei da sacada para o mar. Bastava. Foi um choque absoluto para todas nós. Naquele momento, vi que tínhamos um longo percurso a percorrer para mudar a percepção de beleza nas pessoas.

A minha história com o conceito de slow beauty teve seu grande insight nessa casa na Sardenha, mas ela cresceu comigo desde a infância. Esse foi um ponto tão essencial no meu crescimento que hoje a minha atual empresa é resultado das lembranças mais doces da minha infância com a minha mãe. Ela trabalhava a semana inteira e sempre foi muito vaidosa (no sentido mais saudável da palavra, ela nunca faria uma plástica ou pensou na possibilidade de botox). Mesmo assim, minha mãe sempre se preocupou em estar bela e, mais do que isso, em sentir-se bela. Para isso, aos sábados de manhã tínhamos um momento só nosso. Começava em uma loja de produtos de beleza, onde escolhíamos cautelosamente qual “arte” faríamos naquela tarde. Depois, ao chegar em casa, íamos ao passo a passo. Uma receitinha caseira para o rosto, outra para os lábios (eu adorava quando essa receita tinha açúcar), uma máscara para cabelos com frutas e um creme base… E assim seguíamos nos nossos momentos mais íntimos de estreitamento dos nossos laços.

Essa trajetória me levou a construir uma visão pessoal sobre o conceito de slow beauty. Para mim, ele tem três níveis que vão de um entendimento externo e “superficial” até uma questão altamente filosófica sobre sermos a mudança que queremos no mundo, como Gandhi nos ensinou.

No primeiro nível, mais superficial, sentir-se bela continua sendo fundamental. As totalmente “naturebas” que me perdoem, mas performance é fundamental. Slow beauty não quer dizer desleixo, mas sim um novo conceito para lidar com a sua beleza. E me refiro, literalmente, se a sua pele está hidratada e seu cabelo, com bom caimento. Como mulheres, gostamos e queremos um bom shampoo para os cabelos. Mais hidratado, mais levinho, com o volume certo. A gente adora encontrar uma amiga e contar desse shampoo incrível que deixou nosso cabelo lindão.

No segundo nível, consumir estes produtos é um ato de cuidar da própria saúde. Produtos à base de óleos essenciais e insumos naturais podem apresentar resultados além do arranjo estético. Eles podem proporcionar um tratamento físico e emocional. Cuidar da sua beleza com consciência é uma forma de cuidar da sua saúde mental e corporal.

Por último, em um nível superior e mais abstrato, praticar o conceito de slow beauty diz algo sobre a filosofia de vida que temos e qual a percepção de beleza queremos passar para as gerações futuras. Pode parecer exagero, mas é uma questão de contribuir para um mundo melhor com o creminho que passamos no rosto. Cuidarmos da nossa beleza com produtos naturais e, ao mesmo tempo, questionar práticas de quick fix, em busca de uma juventude sem fim, nos posiciona em relação ao mundo em que queremos viver.

Se a sua busca é por um mundo mais equilibrado e em harmonia com a sua própria natureza, comece fazendo a sua parte. Você não precisa mudar todos os seus hábitos de consumo, mas experimente um shampoo orgânico, depois uma pasta de dentes… Aos poucos, você irá se encantar e verá que a natureza está repleta de substâncias que podem colorir o nosso prato ou embelezar a nossa face.

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Foto do topo por Silvia Vasconcellos

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