Sobre cabides, memórias e reflexões

Por Bruna Miranda

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“Menos é mais. Especialmente quando esse menos é de uma qualidade (em vários aspectos) muito melhor”. Bruna, do Review Slow Living, fala sobre novos hábitos no vestir que a levaram para mudanças significativas para toda uma vida. Novo texto no site da Cris Guerra.

Um dia desses estava organizando o meu armário, dessa vez naquela parte de cima onde guardamos coisas que quase nunca vamos usar. No meu caso, lá tem mala, fotos, documentos e coisas do tipo. Desde que entrei em meu processo de desapego, a cada poucos meses dou uma olhada geral para evitar novos acúmulos e garantir que estou mantendo comigo coisas que preciso mesmo e/ou que têm alguma relevância especial.

Nesse dia, me deparei com sacolas grandes que nem me lembrava que estavam lá. Volumosas, me perguntei o que poderia ser e ao olhar vi, empoeirados, cabides! Pilhas enormes deles. Não contei, mas chegavam facilmente na casa dos três dígitos.

Resumindo um pouco, a minha história com as roupas começou no gosto por revistas na adolescência, que se fortaleceu com um breve carreira de modelo e ganhou força de verdade quando trabalhei com festas e tive um blog de moda, entre 2008 e 2012. Tanto pela “necessidade” e gosto de me vestir de maneira “fashionista” no trabalho à noite – e, por favor, sem ou com poucas repetições – quanto pelas roupas que queria escrever sobre, as que ganhava, aquelas para participar de fotos e dos inúmeros eventos de moda e por aí seguia… Só sei que, em 2012, quando saí de tudo e me vi arrumando a mala para embarcar em um período sabático  – embalada por desilusões/vazios/problemas burocráticos nas minhas empresas e em busca de algo que me realizasse de verdade  –  percebi que tinha chegado a dois guarda roupas lotados e mais uma arara (grande), divididos entre meu quarto e o escritório. Imagine o drama que foi decidir o que levar, em apenas uma mala, para os seis meses em que moraria na França. Nesse processo, chamei as mulheres da família e algumas amigas e distribuí várias peças. As outras ficaram guardadas no apartamento mesmo, que aluguei mobiliado enquanto estive fora.

Durante o meu tempo em Paris, já tinha imaginado que me deslumbraria com as lojas de fast fashion como a Zara, meu paraíso de sempre até então, e outras que eram novidade e melhor, com precinhos ainda mais convidativos, como a H&M e outras lojinhas que via pelas ruas de Paris (se fosse hoje em dia, me deslumbraria em montar um guarda roupa clássico, elegante e enxuto, com peças para toda a vida, bem à la Parisiennes, rs). Na hora de voltar para o Brasil, claro que tive que comprar outra mala, enorme, e partir para aquela cena triste, de filme, de sentar em cima das duas para conseguir fechar.

Com minhas duas malas pesadas a caminho de casa, um pensamento me veio em mente: mesmo comprando várias coisas, eu tinha vivido quase meio ano com muito menos coisas do que eu estava acostumada até então, e isso tinha sido uma boa experiência.

De volta a BH, o que já era apertado em meu armário ficou impraticável. Tive então a ideia de, entre uma lateral do guarda roupas e a parede, criar mais uma mini arara para pendurar apenas as minhas peças favoritas e que eu usava muito mais do que as outras. Nem imaginava que ali começava a colocar o slow – o armário cápsula – o guarda roupa minimalista, até então desconhecidos meus, em prática, através de algumas escolhas certeiras. Nesse cantinho, roupas pretas, brancas e em tons de cinza e bege, minha paleta favorita até hoje, e estampas clássicas como as listras (as francesas me inspiraram ainda mais, rs) e o xadrez.

Daí em diante, pensei em começar um novo site e aos poucos fui conhecendo um estilo de vida conectado à sustentabilidade, simplicidade e consciência e que me apresentou também ao minimalismo, que foi (e é!) muito importante não só em minha vida profissional mas também me ajudou tanto a me organizar e a valorizar o que é essencial de verdade. Tinha vivido anos muito intensos e ligados em excessos e as escolhas conectadas a esses conceitos me trouxeram e ainda trazem, aos poucos, uma leveza que me é fundamental. Comecei a doar minhas roupas, sapatos e acessórios, cada vez mais, para um bazar de um centro espírita onde minha sogra voluntaria. E outras coisas para amigas e família. E lá se foram uns 80% de minhas roupas e, no embalo, de meus pertences gerais. Nisso veio a “eureka”: eu realmente me sinto eu mesma com esse estilo mais clássico de se vestir, atemporal, mais minimalista. As cores e estampas chamativas, os brilhos em excesso, as roupas fáceis de enjoar, foram saindo. Não me identificava mais. Fui me encontrando e me sentido tão bem a cada sacola que saía, a cada espaço a mais no armário para um respiro e de onde eu pudesse visualizar cada peça e saber que ela era importante para mim, tanto na estética quanto na necessidade de uso para o dia a dia. Impressionante como comecei a me vestir muito mais rápido e sem deixar jogada uma pilha de roupas, fruto da indecisão que vem com o ter em excesso. E me senti muito mais fiel a mim mesma, sem depender da aprovação do estilo do momento, ditado pelas marcas e revistas e difundido incansavelmente em nossos olhares e mentes. Menos roupas para lavar. Mais tempo e energia disponíveis para momentos comigo mesma, fazendo o que gosto, e com as pessoas queridas.

Nisso, sem planejar, fiquei uns dois anos sem comprar nada. Nada mesmo, nem uma passadinha no brechó para ver se tinha chegado algo imperdível. Precisava desse tempo para investir meu dinheiro em experiências que me trazem bem estar e boas lembranças e ainda – viva o timing  no compasso da crise e de minha redefinição de trabalho, época de vacas magras. Um arrependimento que ficou como aprendizado para a vida e que eu reforço aqui: se eu tivesse investido o valor gasto nas roupas de fast fashion e as que comprei e usei poucas vezes em um guarda roupa com peças chave e de boa qualidade… o que comecei a fazer desde então. Compro quando sei que vou usar muitas vezes e que combina com as outras que tenho. Os conceitos e valores da moda slow me ajudaram a me redescobrir e também a valorizar os trabalhos justos que não exploram a mão obra e o meio ambiente; que são bem feitos; que inovam; que duram; a valorizar ainda mais as roupas de brechó, os reparos e o cuidar bem. Compras e hábitos conscientes em geral. Ainda tenho peças chave para adquirir e também outras que vejo por aí e sei que usaria e me sentiria bem. Ainda gosto, claro, de comprar e garimpar, mas de uma maneira em que me sinto no controle e seguindo minhas vontades e valores. Tenho um enorme prazer em pesquisar, conhecer e apoiar marcas que seguem os princípios da moda slow e um grande agradecimento à área por ter sido uma das minhas portas de entrada para o slow living, onde o equilíbrio e o bem viver, as escolhas conscientes e as inovações sustentáveis se tornaram minhas grandes motivações, de vida e de trabalho. Nós e o planeta, merecemos mais leveza e mais valores reais. Sem deixar de lado nossos gostos, estilo e preferências, adaptando à realidade de cada um. Um caminho que é bem pessoal mas que, sem dúvidas, traz a mesma satisfação.

Ah, e os cabides! Como não os doei antes! Muitos foram devidamente encaminhados ao mesmo bazar para onde foram minhas roupas.

Finalizo com o lema clássico, “menos é mais”. Especialmente quando esse menos é de uma qualidade (em vários aspectos) muito melhor.

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Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

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