A moeda local

Por Diorela Bruschi

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Lamentei não ter estudado Economia no dia em que ouvi falar do poder da moeda local. Queria poder explicar com frases de especialista e muita certeza na cabeça a diferença que essa ideia pode fazer para uma comunidade. Como não tenho essa diploma, vou tentar explicar com a minha lógica e as minhas observações. Mas você, que é mais inteligente, por favor, procure ver por si mesmo sobre esse assunto e depois me diga: É ou não é uma boa ideia?

Uma empresa pequena, quando nasce, precisa de uma certa proteção. A pequena loja, produtora de calçados, não tem condições de concorrer com a grande indústria dos calçados. O mercadinho não consegue o mesmo giro da grande rede de hipermercados. É normal isso, não é incompetência.

Quando a empresa está começando, todo o dinheiro que ela ganha, ela reinveste em seu próprio crescimento, para que possa enfim se estabilizar. Ou seja, se pegarmos o exemplo de um café que acabou de abrir suas portas: do primeiro café que vende, até o, sei lá, milésimo, todo o dinheiro que entra será para pagar a reforma do salão onde foi aberto, o aluguel do local, a compra das mesas e cadeiras, o pessoal do serviço, mais material para poder servir no café etc. Daí, só muito pra frente é que o responsável pelo lugar poderá pensar « legal! Com o dinheiro que sobrar este mês vou fazer uma viagenzinha ». Só muito pra frente. Geralmente é assim, não é?

Pois bem! Com a moeda local, o Senhor Café (vamos chamá-lo assim) vai receber em dinheiro comunitário uma quantidade suficiente para poder trocar por mais café no Armazém da Senhora Armazém, por exemplo. Que, por sua vez, usa o mesmo dinheiro para pagar seus funcionários, que quando querem tomar um café já sabem onde ir.

Quando o Senhor Café quer investir em mesas e cadeiras, ele vai na loja que também aceita a moeda local, que também compra material, com a mesma moeda do marceneiro, que por sua vez também adora os pães de queijo vendidos lá, na cafeteria inicial.

Com a moeda alternativa girando internamente, o comércio local ganha força e tem condição de encontrar tempo para crescer. Sem ser tão dependente de empréstimos de bancos, de grandes sistemas econômicos. Sem concorrer tão fragilmente com os grandes mercados. Quando precisam de algo de fora deste circuito, usam o dinheiro corrente, mas enquanto puderem usar a alternativa, fazem a economia circular sem a ganância de acumular.

O Roue, por exemplo, é a moeda local de Avignon. Cada Roue vale um euro. A graça de ter o dinheiro é exatamente saber que você está apoiando a economia local (uma vez que Avignon está vivendo uma grave crise com muitas portas fechadas). Quando você compra o Roue (em algumas lojas da cidade), você tem um carimbo da data. O seu dinheiro irá valer por um ano. Se não colocar pra circular você perde, a não ser que, próximo do fim da validade, você leve para carimbar de novo.

A cada loja que a gente entra, devemos perguntar se aceitam o pagamento em Roue. É assim que os comerciantes vão conhecendo e aceitando a moeda. Para eles é interessante. Para a cidade é interessante. Cria movimento. E movimento, já nos mostra a bicicleta, é o que gera o equilíbrio!

As pessoas que tem a moeda local,preferencialmente vão consumir aqui na cidade. Entre produtores locais, de origem conhecida. Produtos que não gastaram milhares em gasolina para chegar aqui. Produtos que foram feitos por mãos conhecidas. Produtos que, se estragarem, vamos conversar com quem fabricou, descobrir a origem do problema e resolvermos rápido. E a cidade se abastece dela mesma, como um bebê pequeno que precisa da mãe para se fortalecer.

Muitas cidades têm tentado praticar a moeda alternativa. Inclusive no Brasil são 103 cidades com bancos comunitários criando moedas locais. São João do Arraial, no Piauí, já foi manchete de jornal por conta disso. Graça à criação do « cocal », sua moeda própria, a cidade teve os níveis de criminalidade reduzidos a quase zero.

Uma alternativa simples, bonita e prática que acaba com diversos problemas de uma vez só. Agora, no fim deste texto, você que entende mais de economia do que eu, pode me dizer: é ou não é uma boa alternativa?

Coluna Diorela Bruschi | Review Slow Living

Texto inspirado na apresentação das novas ideias para a Economia do documentário Demain.

Texto sobre o Cocal na página do Razões para Acreditar.

Sobre a Roue (em francês).

Um obrigada aos amigos que levantaram dados sobre o assunto em conversas muito produtivas! O futuro é realmente colaborativo!

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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