Cri(s)e, para transformar

Por Bruna Miranda

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Amar. Relacionar. Consumir. Comportar. Viver. Como se reinventar e descobrir um novo mundo na atual estrutura digital, política e comportamental em que vivemos? Meu novo texto na coluna do Review no site Hoje Vou Assim, por Cris Guerra.

Estivemos adormecidos. E estamos acordando em uma realidade que traz consigo um histórico de acúmulos e alta velocidade. Uma hora ou outra seria inevitável que esse peso começasse a nos incomodar de verdade, afinal, somam-se anos de descaso ao meio ambiente, da busca pelo progresso e crescimento a qualquer custo, o consumo excessivo, valores distorcidos, individualismo às alturas. E a busca pelo poder então? Nossa realidade brasileira que o diga…

Mas, por trás dessa névoa de incertezas e separações, há um novo momento a ser vivido. E que já começou; que é muito mais sincero, igualitário, coletivo e amoroso. Nisso que chamamos de crise – econômica, política, social, culpa da direita e da esquerda – precisamos nos lembrar da conversa sobre ela ser sinônimo de oportunidades. Do extrair algo positivo em meio às dificuldades e de visualizar a atualidade em uma esfera global de transformação. Na natureza, não temos um “castigo” por nossas atitudes, mas sim uma consequência por nossa desconexão. Na natureza, há o equilíbrio e sua falta. E já estamos caminhando para um ângulo mais circular com o surgimento de uma nova economia, criando uma nova era baseada em colaboração e compartilhamento e com a criatividade colocada em prática, mais do que nunca, para trazer soluções.

Uma fase difícil, por mais incômoda que seja, acaba sendo também uma boa época para se refletir e analisar, de treinarmos um novo olhar e trilharmos novos caminhos. É em uma época como essa que temos uma maior oportunidade de perceber, por exemplo, o consumo consciente. Primeiro porque somos obrigados a tanto, já que os preços sobem e os salários, normalmente, não acompanham. Com essa necessidade, podemos perceber com muito mais clareza que é sim possível viver bem sem excessos, com o que é essencial e até com novas escolhas. Mas isso não significa carência, falta: é um menos que traz mais qualidade e durabilidade, por exemplo. Menos e melhor. O menos que retorna nossa atenção para o reunir e para hábitos mais simples e significativos. Numa época de transformações, podemos desviar o foco do que está ruim para pensarmos, coletivamente, em mudanças ao o nosso redor.

Inclusive para transmutarmos nossa atenção e atitudes de um ultrapassado paradigma de escassez para a abundância: há mais do que o suficiente pra todos viverem uma vida plena e próspera, sem qualquer privação, com harmonia e paz; os recursos naturais são ilimitados desde que sejam utilizados com sabedoria, respeitando a natureza; um negócio só é bom quando todos os envolvidos ganham, tanto as pessoas diretamente envolvidas com o negócio como também a sociedade; nossa mente é a verdadeira fonte da abundância, a criatividade ilimitada do ser humano é capaz de construir uma sociedade rica e sustentável em pleno deserto; e esteja aberto, receptivo a ideias que criam prosperidade.

Não podemos mesmo deixar na mão da política, do governo e suas corrupções as soluções que precisamos. Claro que devemos continuar exigindo mudanças, mas ainda assim não podemos nos deixar contaminar pela raiva distribuída nas redes sociais e nem deixar de lado um valioso tempo que é tão bem investido em pequenas ações que nos trazem mais harmonia e, sim, fazem muita diferença. Podemos pegar, como exemplo, os crescentes grupos que têm mudado o panorama da sociedade na área da alimentação e da moda conscientes; do viver a cidade e seus espaços públicos; das discussões sobre a mobilidade urbana; da arquitetura mais sustentável; da memória afetiva de nossas ruas; de uma educação para as crianças voltada à leitura de livros e ao brincar a céu aberto; da troca de conhecimentos; do desacelerar para um bem viver e inovação; dentre inúmeras outras.

E nós, o que podemos fazer, além de colaborar, participar e até criar um desses grupos? Quem sabe cuidar de uma horta e um jardim, mesmo que em vasinhos em casa; aprender um trabalho manual, como costurar e bordar; descobrir os benefícios da yoga e meditação; ajudar a empoderar comunidades; procurar conhecer as feirinhas da cidade e comprar dos pequenos produtores locais; dar uma chance aos produtos orgânicos – que já está comprovado que não precisam, necessariamente, ser mais caros; em procurarmos saber a origem do que consumimos; em resgatarmos o que gostávamos de fazer, mas que deixamos de lado pela vida corrida das grandes cidades. São muitas as possibilidades! E em nos encontrarmos com pessoas que, como nós, criam mudanças positivas para as nossas vidas e para o mundo. A união fazendo a força.

Seja em caráter de espiritualidade ou com base na nova economia, por exemplo, tudo indica para esse novo mundo que estamos ajudando a construir. Uma mudança que parece tão lenta mas, certamente, em cinco anos poderemos pensar que muita coisa já mudou. Sem conversas de otimismo a esmo. Temos cientistas afirmando que podemos sim transformar a nossa realidade a partir do momento em que assumimos novas atitudes, que operamos nosso sistema com novos valores e, daí, sem pretensão alguma, naturalmente vamos contagiando os que estão ao nosso redor, pelo simples Ser. Quando formos 10% da população sendo a diferença, naturalmente esses novos comportamentos serão manifestados pelos outros 90% da população (!). (Do vídeo “Cientistas descobrem ponto crítico para o contágio de ideias”).

Uma nova consciência só consegue chegar por meio da transformação e essa, por sua vez, sempre causa estranhezas e um certo caos ao começar a ganhar força. Com leveza e sem deixar a diversão de lado, cada um pode “ir experimentando”, “ir sendo” diferente nas ações que escolher, no que julgar importante. E com o que acredito ser essencial: com o equilíbrio como base.

Ouça, a próxima revolução vai ser uma revolução de ideias”.
– Bill Hicks

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Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

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