Co-criação: ao socorro do futuro

Por Bia Perdigão

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Um formigueiro. É a primeira impressão que a foto abaixo nos deixa, até olharmos mais atentamente e finalmente vemos pernas, braços, cabeças… Ampliando novamente o campo de visão, vamos até o Zimbabue na África, onde os diamantes de sangue, frutos de conflitos brutais e da diligente caça ao lucro, chegam até nós por meio de uma cadeia de produção incrivelmente complexa. Assim como a moda, o ramo da joalheria também explora, mata e polui. E, assim como a moda slow, as slow joias procuram subverter essa relação entre consumo e planeta.

Serra Pelada | Sebastião Salgado

Dentro do slow living, é papel do designer repensar a criação e, do cliente, o consumo. Mas o que acontece quando os dois trabalham juntos?

Fora da caixa, a designer de jóias Lyz Beltrame harmoniza completamente seu trabalho com a opinião de suas clientes: após uma imersão em seu universo, sua história de vida é transformada em prata. Suas slow joias nascem do diálogo entre criador e comprador. Em seu site, Lyz promove um maior envolvimento com as peças e, dessa forma, não são apenas objetos, mas sim uma parte da própria pessoa. Além da criação, Lyz também preza pela produção sustentável: “É importante saber de onde vêm as pedras. Mas eu não gosto de falar que minhas peças são ‘recicladas’ porque, na verdade, o ramo da joalheria não desperdiça nada”, me explica enquanto tomamos um café no centro de Belo Horizonte.

As joias provam ser uma indústria infinitamente complexa e exploratória, assim como a indústria têxtil. Mas, como me conta a designer, ouro e prata são “100% recuperáveis, qualquer pozinho pode ser trabalhado”. Mas as mineradoras, como bem conhecemos aqui em Minas Gerais, não pensam em reaproveitamento. “Como que eu, dentro da situação atual, falo pra alguém comprar ouro novo? Não lidar com mineradoras, não extrair e nem produzir mais são uns dos motivos pelos quais eu não faço uma coleção de tendência”, conta. Todo o seu processo de criação funciona com o insight do outro, o discurso da cliente vira sua maior fonte de inspiração. Na metodologia do design, uma parte fundamental é ouvir as necessidades de quem vai usar o seu produto. O maior envolvimento com a criação por parte do cliente faz com que a peça se torne algo a cultivar e amar, mais do que um objeto.

Ano passado, após um experimento com compras coletivas, Lyz propôs uma conversa em sua newsletter onde questões e vivências dentro do feminismo moderno foram compartilhadas e, a partir dessa discussão, surgiu a criação de jóias que refletem o mindset de quem compra. “Esse foi o teste, ver se as pessoas topam trabalhar com peças que não estão prontas”, conta Lyz, “e, dentro da minha newsletter, tem muitas pessoas interessadas, que entendem o que eu faço”. O processo de criação da designer se abre ainda mais e os feedbacks aumentam a cada passo. A discussão é em torno da “caixa” em que nós mulheres vivemos. Ao sair da caixa de expectativas da sociedade, como é o mundo do lado de fora? Como é a caixa por dentro? Como sair dela? Todas essas reflexões são traduzidas para o design: Lyz apresenta sugestões e também recebe feedback de suas clientes sobre o formato das joias. Depois de conversas sobre fluidez, opressão e o feminino hoje, surgiram formas modernas e pérolas negras. Optar pela co-criação e pelo fair trade (comércio justo) não é tarefa fácil, nem comum. Lyz conta que procura pensar o design de forma que o artesão seja igualmente beneficiado. “Eu tento fazer de um jeito que não daria pra imprimir em 3D e fazer mais trinta peças, preciso de uma expertise específica da pessoa”, conta.

Faz parte do repensar o consumo criar uma história diferente com os objetos que nos rodeiam. A co-criação é fundamental para isso. Quando não somos indiferentes ao que temos, aprendemos a valorizar as mãos e mentes que criam, colhem, montam e vendem. Assim, ampliando nossa visão de mundo e desenvolvendo a noção de comunidade global, talvez imagens como a tirada por Sebastião Salgado na Serra Pelada serão apenas história.

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Sobre Bia Perdigão

Movida por palavras e imagens, no jornalismo de moda compreende a interseção entre roupas e literatura, criação e opinião. Através do movimento slow, tem a oportunidade de conhecer pessoas que ...

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