A beleza da vida imperfeita

Por Bruna Miranda

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Texto para a coluna do Review no site da Cris Guerra.

A beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. A beleza das coisas modestas, das coisas não convencionais.

Com essas palavras e em seus significados mais profundos, refleti e me encantei com o Wabi Sabi, conceito japonês que em muito se alinha às inspirações do slow living. Nesse mundo acelerado em que nos acostumamos a viver, o padrão estabelecido é o da perfeição, que se propaga em exigências irreais e nos afasta da leveza que a realidade, em sua mais pura essência, pode nos trazer.

Já é bem discutido como a publicidade nos fortaleceu a ideia de que, para sermos felizes e bem sucedidos, precisamos comprar determinados produtos e possuir (ou pelo menos aparentar) um determinado estilo de vida. Somam-se a isso a maior parte das “digital influencers”, blogueiras e personalidades da web que transparecem uma vida onde tudo é belo, jovem e impecável. Uma enorme produção transmitida como se o normal, ou pelo menos o ideal, fosse viver assim. E dá-lhe frustração do outro lado da tela…

Um outro exemplo vem com o aumento do número de cirurgias plásticas. Pessoas que querem corpos idealizados e até se parecer com a celebridade do Oscar e da televisão. Sobrou até para as frutas, legumes e verduras do supermercado: ai deles de nascer meio torto, com alguma manchinha ou cores e tamanhos “errados”. Vão direto para o lixo, mesmo que sejam perfeitos, em sua naturalidade. A lista continua, chega nos relacionamentos, e se aprofunda ainda mais na área da imagem e da nossa sociedade de consumo, com seus produtos e serviços produzidos para uma vida mais “publicável” (ou seria “postável”?).

O resultado desse anseio pela perfeição a gente vem sentindo… Pressões difundidas em ansiedade, competição, sensação de não pertencimento, de não ser bom e bonito o suficiente, vazios, doenças do corpo e da alma, consumo exagerado, desperdício… Em uma vida em que a nossa única certeza é a de que nada dura, nada é completo e nada é perfeito. E podemos, toda hora, exercitar o olhar para uma vida mais real. O que nos preenche de satisfação e leveza lá no fundo? Aqueles momentos em que respiramos melhor e sentimos no peito que, aquilo sim, é de verdade. Uma vida real não precisa ser repleta de cliques exemplares e muito menos estar voltada para uma câmera. Nossos registros podem ser muito mais belos quando ficam apenas na memória ou quando ficam fora de foco e um pouco tremidos, sem a pose e o ângulo perfeito, mas com o sorriso sincero de um momento bem vivido.

O mundo nos trouxe máscaras onde as vestimos, todo o tempo, para nos sentirmos amados e admirados. E para que mesmo a gente precisa fazer tanto esforço? As pessoas e momentos mais preciosos, a gente sabe quem e quais são. O moletom velhinho e a meia quentinha, o corpo assimétrico e saudável na medida, o esmalte lascado, a xícara quebrada e remendada, a maçã e seu amassadinho…. e os outros infinitos e simples valores são a nossa vida real. O resto, nos foi implantado para continuarmos a tentar preencher nossas mentes e corações em compras incontáveis e buscas frustradas pela perfeição.

A vida é passageira e transitória. Liberte-se e dê boas vindas à imperfeição!

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Sobre Bruna Miranda

Jornalista e escritora, se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo e é idealizadora do Review e da revista Guia Slow Living. Percebe o slow como ...

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