Em defesa da sesta (la siesta)

Por Diorela Bruschi

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Alguns amores são mais difíceis de declarar que outros. E para muitos brasileiros o amor pela siesta é ainda um amor que existe escondido. As pessoas se envergonham de dizer que têm sono depois do almoço. Que precisavam de 15 minutos de repouso. Que querem cama quando o estômago está cheio. Chega de repressão. Hoje o tema é sesta (ou siesta, como gostamos de falar no idioma irmão) e será claramente parcial e em defesa desta ideia maravilhosa. Nós falamos com quem mais entende do assunto: os Espanhóis. E bom, também conversamos com os adolescentes e outras pessoas que se interessam sobre isso!

Não são raras as pesquisas que falam da importância da sesta. Para a clínica geral Dra. Luíza Rodrigues, o sono tem inúmeras funções no corpo humano, sendo algumas já conhecidas, como o papel regulatório nas funções neurológicas, metabólicas e endócrinas e algumas outras ainda em fase de estudos. Apesar de seu mistério para a ciência, o cochilo após uma refeição faz todo sentido para os estudiosos: « Um pequeno sono depois do almoço ajuda no equilíbrio da alcalose pós-prandial (depois da alimentação) e isso é benéfico para o corpo humano », explica a médica.

Mas a sesta pode variar muito. Há quem durma de duas a três horas de tarde e há quem repouse apenas de 10 a 30 minutos. O tempo exato para uma sesta não pode ser fixado igualmente para todas as pessoas, mas há um consenso de que 20 a 30 minutos de cochilo já ajudariam o cérebro a se termo-regular para as atividades seguintes.

Porém, quem já esteve na Espanha, observou curiosamente que boa parte do comércio fecha suas portas depois do horário de almoço até cerca de 4h da tarde, quando reabrem e se estendem até boa parte da noite. Situação que pode ser mudada segundo proposta do primeiro ministro Mariano Rajoy.

A proposta teria relação com os horários comerciais do resto do mundo e o incentivo ao turismo, o que podemos entender. Mas vamos falar aqui da possibilidade de fazer uma sesta por apenas trinta minutos. Apenas trinta minutos por dia! Não precisaríamos de muito, não?! Seriam necessários trinta minutos além do horário de almoço e um espaço seguro para descansar, vale rede, sofá e até uma esteira de praia (fica a dica!)

Em conversa com amigos você pode perceber, a maioria das pessoas dorme na própria mesa de trabalho, no banheiro, cochila até no elevador (ah, aquelas câmeras nos elevadores!) uns minutinhos depois do almoço. É humano! É natural. Mas apenas os espanhóis aceitaram esse hábito como parte de sua cultura (do que é cultivado, pense nisso!). Inclusive, já fizeram um campeonato nacional da Sesta para ver quem conseguia dormir mais rápido e melhor no meio de um centro comercial! Já alguns outros povos ainda continuam vivendo a sesta com certa culpa, convenhamos, embora na Ásia, por exemplo, muitos turistas possam ver trabalhadores praticando a sesta no meio da rua!

A explicação para a existência do hábito pode ser bem diversa, mas para Paula Ptite, uma catalã que vive em Madrid, tem relação com o trabalho no campo, que começa muito cedo e com as altas temperaturas da região. « A Espanha é um pais muito quente, sobretudo no sul do país. No verão é quase imposível ficar na rua, há lugares onde a temperatura é superior a 40 graus depois de meio dia”.

Com a redução dos trabalhos ao ar livre, este conceito foi naturalmente se transformando. Inclusive por lá. « Hoje, nas grandes cidades, quase não existe mais a sesta, mesmo na Espanha », explica Paula. Com a globalização dos horários de trabalho, fica difícil conciliar a dormidinha depois do almoço. « Pensar que todos os espanhóis fazem a sesta é o mesmo que pensar que todos sabem dançar flamenco », resumiu Jose Angel, um espanhol de Alicante, na Costa Branca da Espanha, sobre a nossa tendência a generalizar. Para ele, a necessidade de dormir depois do almoço é natural, mas nem sempre possível de ser experimentada. Quando ocorre, o sono não costuma durar muito, cerca de 20 a 40 minutos bastam no horário do almoço, logo depois da refeição. Mas com pouco tempo de almoço, vocês não comem sobremesa?, perguntei. « Comemos sobremesa e ainda tomamos café », ri ele!

María Jesús, outra espanhola, da região da Andaluzia, concorda que a sesta não precisa durar muito tempo. « Alguns estudos mostram que uma boa sesta de 30 minutos pode equivaler a duas horas de sono na noite ». Além disso, ela indicou um estudo (link no final do texto também para você conseguir terminar de ler este) que mostra como os espanhóis se acostumaram a dormir menos durante a noite por conseguirem dividir o sono também com o horário de sesta.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, o repouso da mente na sesta facilita para a concentração e a produtividade de mais tarde. No entanto, como visto, não é preciso um longo período de repouso, algo simples e curto já seria suficiente para renovar as energias.

Não nos parece haver motivos para lutar contra esse movimento. Mesmo conhecendo as dificuldades do mercado e a aceleração das produções, tudo indica que a sesta só aumenta o rendimento das pessoas e traz benefícios para todas as partes em jogo se bem programada.

Aos adolescentes que tendem a dormir a tarde toda, recomendamos um despertador, ou alguma motivação como curso de idiomas ou prática de esportes, para conseguirem acordar nessa fase de tantos hormônios. Aos espanhóis, esperamos que o hábito seja mantido e adequado à realidade do país, sem comprometer a saúde e a economia da população. E aos demais, fica aqui o nosso pedido: levem a sesta um pouquinho mais a sério. Verão como faz bem. Vamos nos entregar a esse amor (de 20 a 30 minutos por dia)! Que a gente consiga viver este sonho. Desculpa o trocadilho.

Gráfico do uso do tempo por país.

Campeonato nacional da Siesta.

Pesquisa confirma a importância da Sesta.

Radiografia da Siesta na Espanha.

 

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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