A viagem sem culpa

Por Diorela Bruschi

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Por que queremos viajar? Tenho me perguntado isso. E uma coisa que sempre me pego dizendo é que não precisamos ver todos os pontos turísticos, nem todos os museus, nem fotografar tudo quando chegarmos lá. Podemos, mas não precisamos.

Há uns bons 15 anos eu estava fazendo uma viagem no Brasil com minha família quando paramos numa cidade que era anunciada em um dos guias como a cidade em que só falava uma língua estrangeira dentro do Brasil (vou evitar falar o nome da cidade aqui, você vai ver porquê). Nessa cidade, na verdade, não encontramos nada do que era anunciado. Não vimos uma só pessoa que falasse o tal idioma. Não havia nenhum museu na cidade, nenhum parque melhorzinho. Nada. Pareceu pra gente uma grande furada… pareceu! Até que, não sei como, fomos parar num baile de terceira idade para arrecadar fundos para alguma coisa legal. Ninguém estava mexendo o esqueleto no tal baile. Decidimos abrir a pista.

Deu certo! De repente, nos vimos cercados por estranhos sorrindo pra gente, usando a linguagem universal da dança. Rodopiamos com um tanto de gente. A banda ficou feliz, a turma curtiu a festa, a gente adorou o programa. Foi uma ótima tarde! Tão boa que anos depois ainda me lembro com carinho desse dia. Ainda bem que não estávamos num museu naquela tarde.

Não me entenda mal. Museus podem ser e são maravilhosos. Eu mesma sou do tipo que chora de emoção em muitos. Mas o « visitar um museu » tem que ter um propósito maior que simplesmente dizer « passei por lá ». Porque a vida não pode (não poderia) se resumir a uma postagem em redes sociais. Em que aquilo te acrescentou?

De repente, se você tem outra ideia, ou se algum evento espontâneo te pega de surpresa, deixe a visita turística para uma outra hora.

É disso que se trata o conceito de « slow travel », sobre aproveitar o momento como for possível. Se puder e quiser ir para os pontos turísticos, ótimo! Se puder e quiser comprar alguma coisa, ok. Mas se quiser passar a tarde escutando as histórias de um morador da cidade que conheceu num restaurante, ou caminhando pelas ruelas, ou descobrindo um lado do bairro que a nenhum turista interessa, excelente.

Seria possível traduzir o conceito de « slow travel » para « viagem sem culpa ». Uma forma de viajar que exige menos dinheiro, menos agenda lotada, menos gastos com transporte e talvez mais energia em observação e empatia!

Depois que voltei de Buenos Aires, todo mundo me perguntou se eu tinha conhecido Caminito ou Puerto Madero e a resposta foi não. E foi sem culpa! Eu não tinha tido tempo de ver esses dois lugares (lindos, por sinal) porque tinha passado tempo demais caminhando sozinha (e perdendo alguns quilos) atravessando a cidade, tinha ajudado a destrancar uma mulher que se trancou sem querer dentro do próprio prédio (longa história), tinha entrado no meio de um parque onde cachorros estavam brincando para rolar com todos eles no chão. E o melhor, eu tinha conhecido todos os colegas de trabalho da minha amiga que morava lá, e estava muito ocupada passando um tempo de qualidade com algumas das pessoas mais simpáticas e interessantes da cidade! Mas isso ninguém ia perguntar, porque não é atração turística. Mas que para mim valia mais. E sem Puerto Madero, que ficou para uma outra vez, sem culpa!

Viajar, como vocês já sabem, é experiência para fazer crescer. Há quem brinque que faz crescer até na horizontal (!). Vale repensar sobre a leveza dessa experiência. Se para visitar algum ponto, tirar alguma foto, marcar check em alguma tarefa você tiver que sofrer ou pressionar muito outras pessoas, talvez sua mala de obrigações pudesse ser esvaziada. Pode ser mais prazeroso andar do que pegar táxi para tudo. Almoçar direito e pegar menos fila. Aceitar fazer o que poucos estão fazendo. Talvez o melhor chocolate quente do mundo não esteja na lanchonete mais conhecida por isso, mas na esquina mais próxima, servido pelo sorriso mais aberto!

Um vídeo que me inspira:

 

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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