Por um cabelo mais leve

Por Diorela Bruschi

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A nossa história pode ser contada de várias formas. E uma delas é através da nossa relação com o próprio cabelo. Comigo nunca foi fácil. Meu cabelo fino, indomável e irregular passou a vida me criando situações complicadas. Até hoje ainda não é fácil. Mas já paro com o vitimismo!

Para explicar bem, meu cabelo tem origens italianas, alemãs e africanas. Essa combinação fez com que ele tivesse uma cor que adoro, mas uma textura muito indecisa. Com partes crespas, partes encaracoladas e partes lisas, meu cabelo é uma brincadeira nada homogênea para emoldurar minha cabeça.

Bom! Aí vem o meu histórico de tentativas de organizar esta peruca. Como toda brasileira que se deixou levar pelas modinhas capilares, eu já alisei o meu cabelo de tudo quanto é forma durante uns dez anos. Progressiva, escova inteligente, enzimas de num-sei-quê. Eu comprava tudo que existia e deixava passarem à vontade essas coisas na minha cabeça. Uma vez, a química foi tão forte que fiquei uma semana sem voz. Outras vezes, fiquei com feridas na cabeça, queimei a testa e senti um cheiro horrível durante três dias. Tudo para ficar com o cabelo liso e bem aceito pela sociedade.

Sociedade? A escolha foi sua! Sim, a escolha foi minha. Mas depois de ouvir comentários muito fortes e desagradáveis de pessoas próximas. Eu não sabia lidar com isso muito bem (como tanta gente não sabe). Então entendi que era melhor alisar o meu cabelo. E adorava ter cabelo liso, fato. Este não é um textão do contra.

A questão é que o preço para ter cabelo liso quando ele não é liso é muito alto. Além do custo financeiro, a gente perde um bocado dos fios e uma parcela de saúde nesse processo. E isso foi me fazendo repensar minhas decisões. Seria tarde demais para parar? Apostei na pausa.

Tendo me mudado para a França, eu percebia uma coisa positiva: As mulheres deixavam seus cabelos serem naturais, enroladinhos, imprecisos como eram. E isso me motivava. Por ser uma região mais fria também, percebia que o clima deixava ele, muitas vezes, muito mais macio. Mas eu continuava investindo em mil cremes, tratamentos, pomadas etc.

Até que um dia, uma amiga, de cabelo crespo e lindo, me disse « eu não tenho nada contra os cremes que são vendidos na farmárcia, eu só acho que eles não servem para nada no meu cabelo ». Aquilo ecoou pra mim. Eu tinha passado a vida inteira gastando boa parte do meu dinheiro com cremes pro cabelo e quase nenhuma diferença era visível. O clima e o tipo de água com que era lavado contavam muito mais pontos que o produto que era passado depois do shampoo.

Vi que essa mesma amiga usava apenas óleos naturais para hidratar os fios e passei a fazer a mesma coisa. E que alegria!

Comecei com óleo de côco e depois ganhei um pote de óleo de argan verdadeiro (porque tem muita mentira no mercado, fique atento) de uma amiga marroquina. Os dois, em pequenas quantidades, hidratavam e deixavam os fios bem mais próximos do que eu queria.

Entendi que no meu conceito de beleza, o bonito não era ter cabelo liso, e sim ter o cabelo hidratado. E para isso o óleo bastava. Aliado, claro, a uma alimentação regular (mas calma que ainda não sou exemplar nesta parte).

Prossegui aos poucos, com a eliminação dos produtos de origem duvidosa da minha prateleira (petrolatum, parabenos, parafina, excesso de sulfato etc). Além de produtos testados em animais.

Outro desafio foi diminuir o shampoo. Descobri que usava muito, mas muito mais shampoo do que precisava e passei a diluir poucas gotas de shampoo em água e a lavar o cabelo muito menos vezes por semana (geralmente duas vezes). Também testei algumas semanas lavando só com bicarbonato, água e vinagre. E outras lavando com shampoo sólido. Embora tenha gostado de todos os resultados, até agora o meu formato mais conveniente ainda é o de diluir quase nada de shampoo convencional com água. Há mais de um ano tenho o mesmo frasco e depois que ele acabar, pretendo começar a inventar o meu próprio produto.

O resultado que percebi depois dessa mudança é de que meu cabelo está caindo muito menos. O que antes eu achava que não tinha nenhuma relação com a lavagem, que era uma questão corporal mesmo. A diferença na queda foi a primeira coisa a me chamar a atenção. Depois percebi que meu couro cabeludo (adoro essa palavra!) ficou muito menos dependente de lavagens. Antes, quando eu passava dois dias sem lavar, a raiz coçava como catapora e ficava superoleosa. Hoje posso ficar até quatro dias sem lavar e sem sofrer.

Se já me encontrei nessa vida capilar? Ainda não! E acho que essa jornada será longa… Ainda mais agora que os brancos estão começando a aparecer. Porém, nessa história tenho despendido muito menos tempo e dinheiro. Passei, eu mesma, a cortar o meu cabelo (que pode ser doado ou colocado na compostagem também). E nem sempre fica perfeito, mas eu deixo uma margem de erro e me divirto com isso. Passei a usar produtos muito mais leves pro cabelo e pro meio ambiente, e a produzir muito menos lixo nesse sentido. Faço escova quando preciso que ele fique mais comportadinho. E passei a rir quando fazem críticas sobre o meu picumã. O assunto cabelo, pra mim hoje, ficou mais leve. Nos dois sentidos!

Diorela Bruschi - Review Slow Living

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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