« Gente feliz adoece menos », uma entrevista

Por Diorela Bruschi

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O termo slow medicine não é muito usado no Brasil. Geralmente, os médicos se identificam com métodos mais ou menos convencionais de tratamento. Nem por isso, as ideias de desaceleração da rotina estão ausentes das práticas médicas. Uma medicina que priorize o diálogo, a observação e a compreensão dos fatores que montam um quebra-cabeças único. A medicina tem excelentes exemplos de doutores interessados em levar essa arte adiante.  Se conhecer e conhecer o próprio corpo talvez seja um dos melhores exames que você possa fazer para prevenir e identificar problemas de saúde.

Sobre isso, tivemos a grande honra de conversar com a Dra. Clarice Petramale, infectologista, especialista em Saúde Pública e Presidente da CONITEC (Comissão Nacional de Avaliação de Tecnologia em Saúde) do Ministério da Saúde. Em sua rápida passagem por Belo Horizonte para o I Seminário Internacional de Prática em Saúde Baseada em Evidências, ela aceitou conversar com a gente ainda no aeroporto antes de embarcar de volta para Brasília.

Slow Medicine - Dra. Clarice Petramale

Dra. Clarice Petramale

Como é vista a Slow Medicine no Brasil ?

« No Brasil, não se usa muito esse termo, usamos o “menos é mais”, que é o contexto em que a gente usa a tecnologia como apoio ao diagnóstico só quando há indicação, nunca indiscriminadamente, em check ups, por exemplo.  Não há que ficar procurando uma doença quando não se tem sinal algum da existência dela. Um exame com resultado duvidoso encadeia outros exames que podem gerar mais dúvidas que certezas, transformando uma pessoa sadia num doente. Essa prática alimenta a medicalização e o uso indiscriminado de uma tecnologia que não era necessária em pessoas saudáveis ».

Por que os indicadores da saúde como níveis de pressão e colesterol parecem estar sempre no limite?

« Esses indicadores tem mudado para valores cada vez mais baixos. É importante controlar a saúde, mas sem obsessões. Um ponto a mais ou a menos no nível do colesterol ou pressão, por exemplo, não reflete nas chances de vida da pessoa se ela apresenta um quadro normal e não tem histórico familiar de doenças relacionadas.

Quem dita esses indicadores são as sociedades médicas a partir de curvas de tendência, mas é necessário tomar cuidado com essas regras. Hoje os indicadores são tão baixos que ninguém mais é normal. O que significa que mais gente irá procurar mais médicos, comprar mais remédios, fazer mais exames, sem sentir ou observar nada de errado em si ».

Então quando devemos fazer exames, ir ao médico, tomar remédios?

« As pessoas devem se observar antes de qualquer coisa. É preciso que todo mundo conheça a si mesmo. Conheça o seu próprio corpo. A partir daí, as pessoas saberão quando algo está anormal. Uma menstruação que muda de periodicidade, um cansaço incomum, um nódulo desconhecido etc.

Quando a pessoa se observa ela é capaz de indicar para o médico com muito mais precisão o que está sentindo e o que está acontecendo. Desta forma, o médico irá pedir os exames pertinentes, indicar os remédios adequados. Se ela não está sentindo nada e não tem histórico familiar de nenhuma doença,  exames indiscriminados não fazem sentido. O exame clínico e a história clínica devem ser muito bem avaliados. Só fazer exames de laboratório não permite um resultado certeiro. Pode ocorrer um falso positivo ou falso negativo. O exame também tem possibilidade de erro. »

Mas é comum que as pessoas esperem dos médicos uma postura de salvadores: que façam cirurgias, que realizem exames, que indiquem remédios.

« Se a pessoa está sadia, não há nenhum tratamento a ser feito. Ela deve manter uma rotina saudável e continuar se observando. Caso a pessoa tenha notado algo de diferente do seu estado de saúde, ou tenha histórico familiar, o médico poderá ajudá-la. Mas é necessário que a pessoa saiba que quem se cura é ela. Se o médico indicar um remédio, isso será para aliviar uma dor, ou para melhorar alguns indicadores, mas é ela quem terá que se alimentar melhor, dormir melhor, praticar exercícios, melhorar até os pensamentos. Não adianta nada ir ao médico, ouvir as recomendações e não colaborar com a própria saúde. »

E quando o médico coloca medo no paciente?

« Cabe ao médico ajudar o paciente e não amedrontá-lo. Devemos escolher um médico que nos ajude a superar a doença. O estado de ânimo é muito importante. Pessoas felizes adoecem menos e se curam mais depressa. O bom médico está atento a isso. Não faz sentido um médico assustar um paciente, mas acontece. Algumas vezes, o médico diz que o caso é mais grave do que verdadeiramente é para retirar a sua própria responsabilidade. Se o doente melhorar, ele fica como um grande salvador e se o doente piorar, ele diz que já havia alertado para a gravidade do caso. Pode ser confortável para algum médico ser autoritário, mas não ajuda o doente. Quando um médico impõe uma cirurgia como única alternativa, por exemplo, vale a pena pedir uma segunda opinião. »

E no caso da dúvida entre a cesárea e o parto normal, o que fazer?

« A cesárea e o parto normal são duas opções legítimas de nascimento. O que não se recomenda é a opção por uma cesárea planejada a prioriExistem contra-indicações absolutas ao parto normal, mas são raras. São muitos os estudos que indicam prejuízo para o bebê e para a mãe em caso de cesáreas planejadas. Porém, para alguns médicos, é mais cômodo realizar uma cesárea com data e hora marcada, pois o processo do parto normal é imprevisível e muito demorado. É o tempo da natureza que deve ser respeitado. E observando alguma complicação, a cesárea é uma opção a ser considerada pelo médico. As leis estão mudando nessa área, exatamente para evitar o sofrimento do bebê e garantir às mães o direito de viver a experiência poderosa de dar à luz. Não é prudente que a cesárea vire a regra. »

E por falar em regras, como as pessoas podem se manter saudáveis, doutora?

« A pessoa deve ter um estilo de vida saudável, uma alimentação natural e variada, rica em frutas e verduras, sem obsessões. Deve realizar exercícios e não sobrecarregar a mente com pensamentos negativosÉ preciso também aprender a se divertir e a se conhecer. Desenvolver a auto consciência e se responsabilizar por sua vida e isso é tarefa de todos nós.

Quando a pessoa conhece o seu corpo, ela nota se algo está diferente. E esta é a hora que talvez tenha que tomar algum remédio com orientação médica. Mas nenhum comprimido é gico.

A pressão alta, por exemplo, deve ser combatida. Atualmente, esses remédios são muito eficazes e estão disponíveis gratuitamente na farmácia popular. Apenas 25% das pessoas que o recebem chegam a tomá-lo conforme a prescrição. Esquecem, pulam doses, desistem de tomá-los e a pressão alta não é controlada. E além disso, é preciso associar outras medidas de qualidade de vida. Nenhum remédio resolve os problemas sozinho, pois a doença crônica é multifatorial. Ela vem de causas que se associam há anos, inclusive a tristeza e a baixa estima.

Um diabético, por exemplo, deve ser muito atento a sua dieta e ao exercício físico. Não pode contar que o remédio sozinho irá eliminar tudo que ele comeu de errado.

Se a pessoa tem histórico de doenças na família, é recomendável que ela combine com seu médico uma periodicidade para realizar os exames pertinentes. »

E para você, o que é ter qualidade de vida?

« Quando eu era recém formada, fiz uma pesquisa sobre o que era saúde na visão da pessoa comum. As pessoas resumiam dizendo que ter saúde era ter 12/8 de pressão dia e noite. Hoje, para mim, ter qualidade de vida tem a ver com ser capaz de fazer o que está nos nossos planos. Viver, aproveitar a vida, mesmo tendo as limitações que a idade vai impondo. O corpo de um jovem é diferente do de uma pessoa de idade. O jeito de pensar também, e isso é normal. O padrão muito alto de exigência de performance na idade avançada é irreal. A boa notícia é que é possível a adaptação.

Temos que trabalhar para entender e compensar as perdas que são naturais. Seguir um padrão ditado pela mídia da beleza e da saúde é muito arriscado. Muita gente lucra com isso. Por isso temos que nos medir por nós mesmos. E tratar a natureza com respeito. Consumir com consciência, sem desperdícios, viver em harmonia com o que está ao nosso redor. Isso é ter qualidade de vida. Você sabe: Se o ritmo for slow, o prazer de viver dura muito mais. »

Foto: Setor Saúde

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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