Sustentabilidade: ensinar e aprender

Por Bia Perdigão

Publicado em , , | Tags : , , , , ,

Uma pesquisa recente realizada pelo portal britânico The Business Of Fashion com mais de quatro mil estudantes apontou que 56% deles não estão satisfeitos com o ensino da sustentabilidade em sala de aula. Isso é grave. A cada dia que se passa, a urgência da prática sustentável cresce e os estudantes, que são parte da nova geração que irá assumir as rédeas da moda, precisam compreender as nuances da cadeia de produção para, sob um olhar crítico, querer desafiar a indústria. Então, a quantas anda a didática sustentável? Existe espaço entre aulas de modelagem, desenho e projetos de coleções para essa abordagem?

“O que a gente faz é muito pequeno diante do que é sustentabilidade”, diz Cássia Macieira, que tem inúmeros artigos e projetos dentro da área sustentável e é professora do curso de design de moda da FUMEC, em Belo Horizonte. “Mas trabalhamos com referências muito boas de sustentabilidade real e, assim, o aluno sai da faculdade sabendo o que é”. Ainda que seja um assunto que provoque suspiros enfadonhos de alguns alunos (ou talvez por causa disso), moda sustentável e slow devem ser abordadas em sala de aula. Não somente presa ao mundo distante da teoria, mas sim em hábitos diários. Para Ivan, coordenador do curso de design de moda da FAAP em São Paulo, “a sustentabilidade deve ser uma atitude filosófica e sociológica do curso, com todas as disciplinas abordando o assunto”. A pergunta que se faz é: até que ponto isso é suficiente?

Foto Reprodução | Pinterest

Foto Reprodução | Pinterest

Sim, o conhecimento acadêmico é um poderoso aliado da sustentabilidade. Mas poder manejar tecidos, entender sua composição a fundo e todos os processos envolvidos para transformar fibra em fio, fio em tecido e conhecer todas as possibilidades no campo da tecnologia e do design são ações indispensáveis para esboçar o começo de um futuro sustentável. Como coloca Rachel Scherrer, professora de modelagem da universidade Estácio em BH: “Atitudes sustentáveis, palestras e eventos que utilizem muita criatividade para transformar em atrativos produtos que antes seriam descartados”. O lixo resultante da produção em sala também deve ser considerado. “Hoje em dia temos feito um trabalho de recuperação de tecidos que seriam jogados fora para entrar no equipamento e refazer o fio, criando um novo tecido”, comenta Ney Róbilis, professor de tecnologia têxtil da FUMEC. Reaproveitamento de retalhos, moldes e consciência na hora de cortar tecidos são um consenso entre os professores de moda.

No entanto, o desafio não está somente em organizar eventos e projetos, mas em despertar o interesse dos alunos e ensiná-los a questionar. Alias, isso é algo que pode ser ensinado? “O que eu provoco nos alunos é o pensar. Eu não consigo mudar um padrão de pensamento, eu tento brotar ideias”, diz Cássia. “No sistema da moda que conhecemos, não há espaço para a sustentabilidade, mas as coisas estão caminhando para mudar. Vejo muitas pessoas interessadas na área”, comenta Áurea Lucia, ex-aluna da FUMEC e proprietária da marca homônima de slow fashion. “Faz parte do crescimento de qualquer profissional se empenhar em buscar outros conhecimentos que a faculdade não oferece”, completa. Alunos interessados recebem apoio dos professores, como garante o professor Ney e outra ex-aluna da universidade, que me conta: “De fato, poderia ser melhor discutido e trabalhado no curso. Mas havia espaço para projetos de extensão para alunos com interesse e para experiências sócio-ambientais”. Mas o papel da escola é limitado. “A função delas é de orientar e dar o caminho para que o aluno possa ser o agente transformador da moda no futuro”, diz Ivan.

review slow living

Foto Reprodução | Pinterest

Os sonhos de glamour ainda parecem ocupar as mentes de muitos jovens estudantes de moda, mas no final cabe somente a eles transformar isso em criatividade. Moda sustentável é mais do que reaproveitamento, é repensar a fundo como todas as faces do sistema podem ser melhoradas e agir. Ser um aluno e não um consumidor significa ter coragem, conhecimento e vontade de fazer sua parte para transformar o mercado. Claro, tudo isso não aparece da noite para o dia, demanda trabalho duro de professores, outros profissionais e do próprio aluno. “Sempre temos resultado, pouco, mas temos. É um trabalho quase de homeopatia, em gotas”, me conta Cássia, que completa falando que estimula os alunos a criarem projetos interessantes: “Não deixo as alunas usarem fuxico como o único lugar do sustentável”.

Existe outro obstáculo a se vencer: produção. Não apenas modos de produção ou obtenção de matéria prima, mas descobrir se é possível, ao mesmo tempo, ser sustentável e produzir. Para Cássia, fomos colonizados nesse modelo, portanto é muito difícil mudar essa linha de pensamento. Para Ney, o mundo tem pressa e quer tudo pronto. Mesmo existindo inúmeras alternativas já praticadas, para contornar essa questão (upcycling, bibliotecas de roupas, reaproveitamento de fibras e até os brechós), devemos encorajar os formandos para que inovem sempre, que não tenham medo de revolucionar a moda – como foram feitas tantas vezes no passado – e a criarem sem prejudicar os outros ou o meio ambiente. Se temos a responsabilidade moral de sermos melhores do que aqueles que nos antecederam, existe um longo caminho a percorrer que envolve uma metamorfose da consciência coletiva. Para Thoreau, que em 1854 já escrevia sobre minimalismo e slow living, “se não há um homem novo, como roupas novas poderiam ajustar-se a ele?”.

Compartilhe esta história

Sobre Bia Perdigão

Movida por palavras e imagens, no jornalismo de moda compreende a interseção entre roupas e literatura, criação e opinião. Através do movimento slow, tem a oportunidade de conhecer pessoas que ...

Publicações Relacionadas