Diminuindo o ritmo: A revolução do slow living

Por Bruna Miranda

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Esse é um texto sobre slow living que acho bem interessante e indico a leitura principalmente para quem se interessa pelo conceito aplicado na moda, apesar de abordar o tema em outras áreas também. Foi escrito em junho de 2015 por Maxine Bédat and Soraya Darabi, fundadoras da Zady – loja virtual focada no slow fashion – para o portal americano The Huffington Post, e coloquei aqui a sua versão em português com algumas pequenas adaptações para a realidade brasileira.

Nós estamos vivendo em uma época em que nos afastamos da busca da felicidade para a busca por realização. Em todas as esferas do nosso dia a dia, estamos fazendo mudanças drásticas. Quer se trate de onde vivemos, o que comemos, como aproveitamos o nosso tempo livre, o que dirigimos, como planejamos nossas relações pessoais, o que vestimos ou como trabalhamos, estamos adotando uma abordagem diferenciada. Estamos vivendo mais conscientemente e questionando as coisas mais do que nunca. Nos desaceleramos do ritmo frenético que a tecnologia nos mantém e estamos colocando em prática um estilo de vida mais consciente.

O termo que melhor descreve esse fenômeno de longo alcance é o Slow Living. É a chave que faz com que essas “tendências” que de início parecem tão díspares façam todo sentido. O slow living é um reflexo da evolução que nós estamos passando como sociedade ao fazermos essas mudanças em todas as áreas de nossas vidas: dos nossos carros, nossos armários e locais de trabalho até a forma como aproveitamos nosso tempo livre e de lazer.

O slow living exemplifica o desejo atual de viver uma vida mais consciente. Micro-casas estão substituindo “McMansões” e a expansão interminável das cidades, tanto horizontalmente quanto verticalmente. Ao invés do Gatorade laranja neon e das substâncias misteriosas de uma barrinha de cereais do estilo “PowerBar”, nos voltamos para a água, sucos de todas as variedades naturais e as “barrinhas saudáveis” cujo slogan da empresa é “ingredientes que você pode ver e pronunciar”. Quando chega a hora de procurar por uma refeição, bem, é provável que você não esteja mais (ou não tanto) se voltando para o McDonalds. Ao invés disso, você provavelmente vai procurar sanduíches produzidos de maneira, digamos, mais artesanal.

Passando de nossas geladeiras para nossos armários, após duas décadas de fascínio sobre as roupas baratas das cadeias de fast fashion, estamos aprendendo o impacto que isso tem em nosso planeta e nas pessoas do outro lado do mundo (e as pessoas logo aqui perto da gente também!). Então, agora nós estamos gastando mais dinheiro em menos itens. Mesmo no trabalho, estamos dando mais importância à significados do que em cifrões. Os chamados millennials obtêm o crédito em liderar esse movimento. De acordo com um relatório da Net Impact, mais da metade deles aceitaria um corte de 15% em seus salários para trabalhar em uma empresa que corresponda aos seus ideais.

Ativados por nossos dispositivos conectados, no lugar de mostrar nossas roupas chamativas, estamos mostrando uma preferência pelo compartilhar. Então, ao invés de possuir uma segunda casa, temos a liberdade de alugar várias delas através do Airbnb. Economia compartilhada. As pessoas estão pensando antes de cada compra e analisando, mais do que nunca, os valores agregados naquilo que compram.

Foto: Kate Amundsen por Shayna Colvin

Foto: Kate Amundsen por Shayna Colvin – Reprodução

Essa mentalidade se infiltrou na cultura mainstream também. De Katy Perry e Arianna Huffington aos magnatas de Wall Street, todos estão falando dos poderes de se desligar e desacelerar através da meditação. E nas ruas, para aqueles de nós que ainda precisam de carros, o novo símbolo de status é o híbrido Prius, que se tornou popular pela Toyota, ou o carro totalmente elétrico da Tesla. Os motoristas desses carros são muitas vezes os mesmos que estavam dirigindo SUVs beberrões de gasolina, uma década atrás.

Poderíamos argumentar que a tecnologia mais ajuda do que enfraquece nessa mudança na consciência. Nossos telefones inteligentes tornaram-se o controle remoto de nossas vidas. Esses dispositivos nos conectam a nossos amigos e constroem comunidades e movimentos globais no decorrer de uma noite. Isso não é novidade, claro, é apenas o modo como vivemos nossas vidas hoje em dia. Nós acordamos e verificamos o instagram antes mesmo de rolar para fora da cama. Essa capacidade de se conectar entre as cidades e oceanos nos deu um sentimento tanto de poder quanto de responsabilidade. Estamos mais propensos a comprar de empresas que refletem nossos valores e se deleitam em mostrar que nós somos parte de uma mudança positiva.

Ao invés de apropriar-se, essa transição tem sido um processo lento. Nas primeiras fases da globalização, vivemos um otimismo sem limites: um mundo recém-conectado que parecia ser preenchido com recursos intermináveis e que trouxe produtos ainda mais baratos para os shoppings. Era um mundo que foi ficando cada vez maior e mais rápido. Mas a guerra prolongada, um colapso econômico, a ascensão da vida social na internet, os dispositivos conectados em toda parte e uma década de vida cercados por tanta coisa material nos levou a repensar tudo. No lugar de um mundo que imaginamos se tornando mais e mais rápido, estamos todos desacelerando.

É um momento emocionante para operar uma empresa como a Zady, que procura preencher o vazio que o fast fashion deixou com o consumidor. Ao proporcionar transparência em uma indústria que durante décadas tem escondido suas cadeias de fornecimento, por vezes chocantes (um exemplo é que o vestuário é a segunda indústria mais poluente do mundo, perdendo apenas para o setor da energia), estamos construindo confiança com esse novo consumidor, que exige autenticidade e honestidade.

Maxine Bédat e Soraya Darabi, fundadoras da Zady. Foto: NYTimes

Maxine Bédat e Soraya Darabi, fundadoras da Zady

Essa era slow impacta a Zady e terá consequências enormes para as empresas que continuarem a ser contrárias aos fundamentos do slow living. Empresas de vestuário que antes eram a base de nossos shoppings e guarda roupas estão enfrentando uma crise existencial. A Gap e Abercrombie, por exemplo não fazem sentido para o consumidor que busca processo, honestidade e qualidade no lugar de logos. Da mesma forma que o McDonalds que, não muito tempo atrás foi a métrica para a própria saúde de uma democracia, foi ganhando relatórios que iriam deixar até mesmo o mais forte dos CEOs sem dormir. Mesmo a indústria hoteleira está sendo afetada negativamente à medida em que o “consumidor slow” prefere o conforto da casa de outra pessoa à esterilidade de um hotel.

Na medida em que consideramos o Fashion Revolution Day (Dia da Revolução da Moda) e lembramos as vidas que foram perdidas devido à produção do fast fashion, refletimos sobre como, apesar de a tecnologia ter permitido um mundo mais rápido, estamos cercados por uma nuvem de medo de que tudo é demais. Em 24 de abril, o mundo se une novamente através de uma campanha de mídias sociais que pede aos consumidores que questionem as origens de suas roupas com o “#quemfezminhasroupas” e a chamar as marcas para assumirem a responsabilidade por sua produção, expondo suas cadeias de abastecimento por completo. O Fashion Revolution acredita em uma indústria que valoriza as pessoas, o meio ambiente, a criatividade e o lucro em igual medida. O Fashion Revolution Day marca um momento em que todos nós podemos nos reunir para apoiar essa missão e implementar medidas para efetuar mudanças positivas. E o slow living é um sinal de que a sociedade tem uma maneira de se refazer e se reformar.

Leia também nossos textos mais acessados sobre o slow livingslow life e a moda slow.

Foto do topo: Escritório em Madri – Selgascano Arquitetura. Reprodução.

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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