A pedagogia do Sim

Por Diorela Bruschi

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Outro dia eu estava num parque e custei para entender uma placa: Dizia ela « aqui eu posso deixar vestígios da minha passagem » e era ilustrada com a imagem de um cachorro fazendo necessidades. Acostumada com placas como « não pise na grama », « não ultrapasse », « não tire fotos», a placa me chamou a atenção. Pela primeira vez eu estava vendo um lugar ser indicado para que os cães agissem como cães.

Isso é o que eu chamo de « A Pedagogia do Sim ». Sem querer tirar mérito das placas informativas que também indicam o que não pode ser feito, o ser humano anda precisando de mais placas positivas, que mostrem possibilidades.

Vejo várias vantagens nisso. A primeira é a simpatia, a segunda é que tendemos a respeitar com muito mais interesse uma mensagem positiva do que uma mensagem negativa e a terceira é que nos dispomos a colaborar até para repassar a informação para outras pessoas, o que cria o lado educacional em rede. « Ei, você que está aí com seu cachorro, você já viu que tem um espaço só pra ele naquela parte ali ? » ! Em outro contexto, poderíamos falar nas ruas « oi, você que jogou lixo na calçada, olha que legal, tem uma lixeira logo atrás de você ! », ou « parabéns a você, que sabe escutar diferentes opiniões sobre diferentes partidos políticos » !.

A pedagogia do sim não se restringe às placas de ruas. É toda uma forma de orientação das pessoas sobre o que podem e o que não podem. Há quem diga que isso crie pessoas frustradas ao primeiro « não » que escutem. Mas há quem tenha experimentado e garanta que isso faz nascer uma pessoa mais construtiva.

Algumas escolas tem tentado aplicar a técnica da caneta verde, que marca o que foi feito de mais bonito e melhor, ao invés da caneta vermelha que marca os erros. Vemos que para o início de qualquer aprendizado, isso pode ser importante. Já que iniciando qualquer coisa, tendemos a cometer muito mais erros do que acertos, não por falta de vontade de acertar, mas pela condição de iniciantes mesmo. Mostrar o que existe de bom e o que está sendo feito de correto é um estímulo necessário para qualquer projeto. É a força do reconhecimento, tão falado nas reuniões de gestão de empresas, mas pouco observado em outras formas de relacionamento como aluno/professor, relacionamentos amorosos, amizades, cliente/prestador, paciente/médico etc.

O reconhecimento faz parte da pedagogia do sim. Se a gente é capaz de digitar uma carta de reclamação a cada vez que somos mal atendidos por um lojista, também podemos escrever uma carta de motivação a cada vez que alguém trabalha com eficiência, resolve nosso problema, atende de uma forma especial. Por que não?

Uma vez meu chefe chamou um estagiário e eu para explicarmos uma coisa na sala dele. Ao entrarmos, ele estava sério e perguntou para o estagiário por quê ele havia feito um tópico que estava escrito numa peça processual (trabalhamos com Direito). Quis explicar no lugar do rapaz e meu chefe interrompeu, pedindo que eu deixasse ele responder. Esperei aflita. O rapaz explicou. O chefe estendeu a mão a nós dois, abriu um sorriso e falou « Parabéns, ficou muito bom » !

Situações assim fazem com que as pessoas se empenhem mais em seus trabalhos, não para evitarem ataques com reclamações ou mesmo na justiça. Mas para poderem receber créditos, ou em dinheiro ou mesmo em mais confiança da empresa e dos chefes. Para que possam ter dias mais felizes no trabalho. Não faria bem para todos isso?

Depois desse evento com o chefe, claro que contamos para todo mundo do escritório a cena e aposto que nunca mais ninguém esqueceu daquela lição, porque eles tinham como lembrança uma história muito positiva de um acerto.

Fim de ano, época em que se comemora o Natal e Réveillon em muitas partes do mundo, o solstício de verão e de inverno em outras, e a família em outras. Muita gente reage com essas festas, sente que é imposição da sociedade, pensa que é hipócrita, que é falso, e encontra várias falhas nessa comemoração. Não duvidamos de nada disso. Mas vamos propor o exercício da pedagogia do sim desta vez. Encontre o que de bom tiver nesses momentos, crie outros ou tente ampliar essas alegrias se puder. De repente, você pode ter noites, dias, momentos e anos felizes!

Quando o ser humano vive dias felizes todas as noites são felizes”, da Logosofia.

PS. Há um relato publicado na página Vista da Cidade do facebook que merece a menção neste texto:

“Domingo entramos no parque municipal, por volta de 11h, empurrando a bike, porque tinha muita gente a pé ali na entrada da Andradas.
Aí o segurança mandou chamar a gente, a gente não ouviu, avisaram outros e de repente, meio parque estava gritando “ow da bike, segurança tá chamando!”
Paramos. Ele correu em nossa direção, abriu um sorriso e disse “agora é permitido pedalar aqui dentro. Não precisa mais empurrar”, da Thais Pacheco. #gentilezas

Texto sobre a caneta verde.

Um beijo também pro senhorzinho do meu bairro que deixa mudas de plantas na frente da casa dele com a placa “é sua, pode levar”!

Foto do topo: Placa que permite cachorros naquela área da cidade de Salt, sul da França.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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