Por uma ceia de Natal mais sustentável

Por uma ceia de Natal mais sustentável

Por Ana Rodarte

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O Natal se aproxima, trazendo todos os sentimentos mistos da data. A confraternização e as deliciosas músicas natalinas se misturam ao constrangimento trazido por Simone e ao momento em que seus parentes acham um insulto para a família você seguir esta profissão que certamente lhe levará a um destino de fome e miséria. Na TV, a mesa é farta, repleta de perus, chesters, tenders e todos os produtos que os anunciantes precisam vender à exaustão, enquanto você se decide se suas frustrações serão sanadas pelo carro do ano ou por uma ave coberta de manteiga na mesa.

A ceia dos dias 24 e 25 têm deixado a minha cabeça agitada e, felizmente, o Natal se encarregou de me dar um pequeno presente. Depois de um conjunto de reformulações editoriais que colocariam as revistas de moda que tanto amamos no chinelo, a Galileu trouxe neste mês a matéria “Gula: destruindo o planeta pelo estômago”, e com o chamado “há algo de errado com a sua ceia”, ela nos conduz pela pegada ecológica deixada por três tipos de consumidores durante a ceia de Natal. A matéria está excelente, repleta de infográficos e uma ótima apuração. Por isso, resolvi destacar alguns dados trazidos por ela e apresentar algumas perspectivas para refletirmos nesse gesto trivial – mas determinante para a nossa civilização – que é o ato de comer.

A perspectiva do vegetarianismo

Ilustração de James Ormes - Por uma ceia de Natal mais sustentável

Tudo começa pelo fenômeno pop “Cowspiracy: The Sustainability Secret” (Kip Andersen, Keegan Kuhn, 2014). Como todos nós, após ver o documentário “Uma Verdade Incoveniente”(Al Gore, 2006), Andersen começou a reciclar o próprio lixo, trocou o carro pela bicicleta e diminuiu o tempo dos banhos. Porém, ao encontrar um relatório divulgado pelas Nações Unidas sobre a absurda quantidade de gases de efeito estufa emitidos pela pecuária (cerca de 18% em 2006), Andersen viu seus esforços serem jogados no ralo.

A pecuária é responsável pela destruição de 91% das florestas nativas e reservas naturais no mundo. No dia 15 de dezembro, comemoramos o aniversário de Chico Mendes, conhecido por sua luta pelos seringueiros na Bacia Amazônica e pela preservação das Florestas Nativas. Em reportagem veiculada pela EBC, constata-se que os pecuaristas ainda são um dos maiores empecilhos para a conservação da Floresta Amazônica e a luta por terras segue com o mesmo nível de civilidade que carregou um dos maiores expoentes do ativismo ecológico do Brasil a tiros.

Nos abatedouros, a realidade é sinistra, tal como nos mostram os já famosos “A Carne é Fraca” (Instituto Nina Rosa, 2005), “Uma Verdade Mais que Incoveniente” (Karen Soeters e Gertjan Zwanikken, 2008) e o “Paredes de Vidro” (PETA), este último narrado por Sir Paul McCartney. Aliás, é dele a célebre frase “Se matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos.”

A invisibilidade promovida pelas companhias responsáveis também nos levam a teorias de conspiração, como a do chester, ave criada pela marca Perdigão, que não conseguiria andar devido ao tamanho de seu peito. De acordo com a empresa, a ave é livre de anabolizantes e hormônios, mas este é o menor dos problemas. São bilhares de animais abatidos ao ano, criados em condições precárias. Somente em 2014, 26,6 toneladas de peru foram abatidas em granjas. Por que é que deixamos de nos importar com estas criaturas? Precisamos realmente de uma porção de carne todos os dias? Um material importante sobre o assunto é o TED Talk “Além do Carnismo“, ministrado pela psicóloga Melanie Joy, no qual ela discorre sobre a ideologia que normaliza e mascara uma indústria de abate em todo o mundo.

A perspectiva do slow food

Por uma ceia de Natal mais sustentável

Fonte: O&O Eats

Após assistirmos “Cowspiracy” e todas as produções que citamos, fica a conclusão de que a única salvação para o planeta é todos nos tornarmos veganos. Mas isto é realmente possível em um país como o Brasil, se pensarmos por uma perspectiva econômica e cultural? Afinal, pratos como a feijoada e o queijo minas são uma tradição de nosso povo. A questão não é tão simples ou pragmática. De acordo com o Greenpeace, em dados também divulgados pela Galileu, se 10% da população tirasse a carne do prato uma vez por mês, o impacto ambiental seria melhor do que se 1% dos habitantes do país parasse de comer carne de repente.

Em entrevista ao documentário Chef’s Table, o chef ganhador de 3 estrelas no Guia Michelin Massimo Bottura afirma que “é o conceito por trás da comida que o torna mais interessante”. Precisamos nos lembrar da função social de nossas refeições. No primeiro episódio da produção, observamos a importância das memórias e da valorização dos produtores na confecção de cada um dos pratos da Osteria Francescana, terceiro melhor restaurante do mundo. Mas quanto disto temos perdido com o consumo de alimentos industrializados, cada vez mais desvinculados de suas origens? Nós realmente respeitamos os animais como fornecedores de alimento para o nosso dia a dia ou os temos tratados como meros objetos sem vida? Uma breve pesquisa nos leva à segunda alternativa, o que aponta a urgência de um movimento como o Slow Food em nossa sociedade.

Para o Slow Food, o alimento deve ser limpo, bom e justo. De acordo com o próprio movimento, “o Slow Food defende os locais de valor histórico, artístico ou social que formam parte da nossa herança alimentar, reconhecendo a história e a cultura de cada grupo social e as formas delas atuarem numa rede mais ampla de intercâmbio”. É uma das perspectivas mais interessantes e tangíveis para harmonizarmos as contribuições do veganismo e das tradições culinárias de um povo diverso como o brasileiro.

O desperdício nosso de cada dia

Aproveitar ao máximo os potenciais dos alimentos, de acordo com uma das máximas de Bottura, é também reduzir o desperdício. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO-ONU), 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente, o que equivale a (respire fundo) um terço da produção mundial. Este dado acompanha, de maneira paradoxal, o dado de que em 2015, 800 milhões de pessoas vivem em condições de pobreza extrema e fome pelo mundo.

Alternativas para uma ceia de Natal mais sustentável

Felizmente, há algumas atitudes simples para que um momento de confraternização como a ceia natalina não colabore com produções tão agressivas ao planeta. Anote bem e lembre-se delas antes da ida ao supermercado!

  • Não está preparado para tirar a carne do cardápio? Reduza! Uma dieta com mais vegetais beneficia a nossa saúde e ajuda no combate às mudanças climáticas. Vale lembrar que a quantidade indicada de carne para um adulto é de 300 gramas de carne por semana. Bem diferente do que vemos em restaurantes, não é?
  • É interessante pesquisar mais sobre as marcas que você costuma consumir. O estudo Carne ao Molho Madeira, do Greenpeace, mostra que a grande maioria dos supermercados brasileiros não faz ideia da procedência da carne que compram, o que acaba por fomentar práticas ilegais de ocupação de território e de criação destes animais. A marca Korin, por exemplo, tem os certificados de alimento orgânico, Bem Estar Animal e foi ganhadora do Prêmio Eco Brasil. Ela pode ser encontrada em uma série de supermercados, como você pode ver aqui.
  • Explore todo o potencial de seus alimentos e evite o desperdício. A ECycle reuniu uma série de dicas para evitar que aquela comidinha deliciosa vá parar na lata de lixo por descuido.
  • Compre produtos de época. Alimentos como o tomate e a batata recebem grandes quantidades de agrotóxicos por não serem adaptados ao solo brasileiro ou ao clima. O Planeta Sustentável organizou um guia simples de safras que pode ser consultado durante todo o ano.
  • Procure por produtos locais: assim, você evita uma grande emissão de gás carbônico e fortalece a economia de sua região.

A equipe Review deseja um Natal próspero, repleto de alegrias e uma mesa posta com boas histórias e união!

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Sobre Ana Rodarte

Formada em Comunicação Social e estudante de Design de Produto. Com o slow, busca significados e valores dentro dos sistemas de produção têxtil. Inovação, sustentabilidade e inclusão social a moveram ...

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