Sobre o tempo

Por Bruna Miranda

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O tempo (ou a falta dele) tem sido a justificativa para priorizar várias coisas que nos desgastam em detrimento das que gostamos. É hora de reaprender o significado do tempo em nossas vidas. Nosso novo texto no site da Cris Guerra.

“Luxo hoje é ter tempo” é o que temos ouvido por aí nas pequenas e grandes rodas de amigos, quando são propostas discussões sobre uma vida mais cheia de significados e valores. Nos parece que o tempo tem sido a justificativa da supressão de tudo e a falta dele é a principal questão em que, por muitas vezes, perdemos a nossa direção.

Outro dia, voltando de um desses grandes encontros em que discutíamos o Slow Design, percebemos uma certa acomodação quando fala-se em tempo ou na falta dele. Todos nós já detectamos essa questão, mas ainda estamos muito envolvidos com a sua causa e consequência. O assunto está sendo falado por todos repetidamente e cada vez mais, mas pouco refletido, de fato. Quando lamentamos a nossa rotina, o lamentar torna-se a ação, e o que está justificado, muitas vezes, não nos leva à reação. Falemos então do nosso dia a dia e de onde esse tempo se esconde.

Associamos ao tempo que temos a nossa subsistência. E isso nos parece coerente. Nosso dia se faz nas horas dedicadas ao trabalho, com as quais custeamos nossa casa, alimentação, instrução, encontros e prazeres. Um agravante é que vivemos inseridos em um formato mercadológico que vê nisso uma oportunidade de vender, então, a felicidade. E é nesse produto que investimos todo o nosso tempo, atualmente.

Esse produto inventado pelo mercado está em falta e, na verdade, estamos todos percebendo que ele nunca existiu. Hoje a propaganda da felicidade engana a todos nós e a troca está saindo muito cara. A promoção é “Compre e não leve. E se não der certo, volte e compre mais. Está tudo pronto aqui para você ser feliz, porque você não tem tempo de sê-lo sozinho!”. Conseguem ouvir o locutor daí? O que queremos dizer é que o tempo que dedicamos hoje à conquista de tudo é caríssimo para nós, pessoalmente, e não tem necessariamente relação com sobrevivência. A felicidade, um dos patamares da nossa existência – do corpo e da alma – trata da nossa realização quando cuidamos da nossa própria vida, do nosso próprio tempo e o trocamos pelas nossas descobertas.

Em termos práticos, a idéia é voltarmos para a nossa rotina como um primeiro passo; como um segundo, acordar 30 minutos mais cedo para voltarmos com atenção ao dia que, em alguns minutos, se iniciará; como terceiro, fazermos uma planilha de dedicação, horas e resultados – aquela chata de Excel mesmo – e descobrirmos quanto tempo a nossa vida feliz custa e quanto estamos pagando por ela; como quarto passo, investir em um vaso de planta, trocar o seu tempo com o da flor e fazê-la viver – mesmo que a beleza dela não te toque, o desafio é reaprendermos o significado do tempo necessário à sua vida. Para os próximos passos, perguntas como “do que gostamos, do que precisamos e como e por que nos presenteamos“ podem nos ajudar, assim como convidar alguém para esse novo desafio. Tudo isso, sim, demandará um novo tempo, aparentemente, mas não será nada além de um tempo que já temos reservado pra gente.

Olhar para a sua vida, seguir o seu caminho, reencontrar e reorganizar as suas horas e o tempo de tudo que é seu. Assim como uma joia deve ser lustrada e um jardim, regado, desfrutarmos deste luxo dependerá da nossa reação frente ao que nos é ofertado e das escolhas que fizermos.

Vamos, gente, hora de partir para a prática e nos dedicar ao nosso tempo cuidando de um novo hábito. Este tempo, dê-se de presente!

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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