Com as próprias mãos: Makers Movement

Por Bia Perdigão

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O movimento que se espalha pelo mundo estimula a criação artesanal. O que ele representa para a moda slow?

O ano é 1943. Minha bisavó, sentada em sua máquina de costura (à manivela), descosturava as próprias roupas e as recriava em tamanhos menores para seus nove filhos. Ao mesmo tempo, em algum lugar da Inglaterra, devido ao contexto político de guerra, as pessoas eram estimuladas pelo seu governo a fazer o mesmo. A falta de dinheiro e recursos na época deu origem a inúmeras campanhas governamentais, uma delas a “Make, Do and Mend” (algo como Crie, Faça e Emende, em tradução livre).

Nos anos 80, cerca de uma década depois do início do movimento punk, os valores DIY (do it yourself/faça você mesmo) perduraram na moda. Em 1984, a revista Vogue lança uma série especial de sua revista de moldes, a Vogue Individualists. Estilistas como Issey Miakye e Claude Montana compartilharam seus moldes com leitoras, levando a tradicional revista de moldes a um novo patamar. E ainda no final dos anos 80 e início dos anos 90, Martin Margiela impacta o mundo da moda com seu design influenciado pelo artesanal, a reutilização de peças entre temporadas e a reciclagem de tecidos.

Avançamos para 2015, quando um movimento conhecido por Makers Movement ganha cada vez mais força. Em suma, o movimento encoraja aqueles que desejam criar e construir seus próprios bens, de bonecas de pano até chips e drones. Não é algo vanguardista em essência: desde a Idade da Pedra Lascada no paleolítico, ferramentas eram construídas à mão para suprir necessidades. No entanto, não deixa de ser pertinente e o seu timing não poderia ser melhor. Em uma indústria dividida entre fast e slow, onde opiniões sobre estilistas estressados são muito mais barulhentas do que aquelas sobre trabalhadores manuais explorados, o artesanal lentamente firma suas raízes no mundo moderno.

Sites como Etsy, Pinterest, Brit + Co, Craftsy, entre outros, funcionam como plataformas para aprender e compartilhar suas empreitadas homemade ou “hackings”. Fisicamente, ateliês e makerspaces pelo mundo dão auxilio e ferramentas. Aqui no Brasil, o Ateliê Vivo, com sua biblioteca de moldes, e o Makers.net.br, com seus cursos, facilitam a vida de quem quer participar do movimento.

Makerspace via pinterest

Makerspace via pinterest

Para Chris Anderson, ex-editor chefe da revista Wired, o movimento Makers é a nova revolução industrial, o encontro entre tecnologia e manufatura. O que nos leva a pensar no futuro dos modos de produção.

Ao mesmo tempo em que mantém um vínculo com o passado, a palavra “artesanal” está ganhando novo significado com as impressoras 3D e as máquinas de corte a laser. Costurar com linha e agulha é um conceito que está sendo desconstruído aos poucos. Estilistas como Iris Van Herpen e Hussein Chalayan utilizam materiais e técnicas inovadoras e tecnológicas na construção de peças que, por sua vez, parecem ter vindo direto de um futuro onde a relação entre produção, consumo e ser humano é diferenciada. No capitalismo, a moda parece se contentar em apenas vender produtos e estilos de vida mas, nesse futuro, a venda ocorre de maneira criativa para ambos os lados.

Modelagens de Vera de Pont

No Post Couture Collective, o estilista holandês Martijn van Strien cria coleções como qualquer outro, só que, na hora de comprar, seus consumidores têm uma opção a mais. Por menos, você pode levar apenas o molde e alguns metros de tecido para fazer em casa. Essa abordagem é chamada de open-source (fonte aberta). A também holandesa Vera de Pont criou, para sua coleção de graduação, modelagens intuitivas para serem vendidas online e cortadas em casa, com o tecido de sua preferência.

Ao mesmo tempo em que responde questões muito levantadas pela moda slow, o movimento Makers abre espaço para uma nova discussão: qual seria a interseção entre a criação da peça e o “hacking” realizado pelos usuários? Em outras palavras, qual seria o papel do designer no futuro customizável? Não se engane ao pensar que se tornarão obsoletos. Esta é, inclusive, uma característica do nosso tempo: a obsolescência programada escraviza literalmente trabalhadores braçais e, metaforicamente, criadores pelo mundo. De certa forma, a obrigatoriedade da venda em massa na indústria já faz com que a criatividade perca forças. Ao repensar o consumo, modos de produção e de criação, o movimento traz a promessa de um futuro onde trabalhadores, criadores e consumidores possam respirar mais aliviados.

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Sobre Bia Perdigão

Movida por palavras e imagens, no jornalismo de moda compreende a interseção entre roupas e literatura, criação e opinião. Através do movimento slow, tem a oportunidade de conhecer pessoas que ...

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