A chuva e a cidade

Por Diorela Bruschi

Publicado em , | Tags : , , , , , ,

Chove(u) em Belo Horizonte. Sabemos como é necessário. Porém, como já virou hábito, vemos o caos que a chuva traz para a capital mineira a cada fim de ano. Uma água que não escoa e vira uma piscina de sujeira que engole carros, leva pessoas, animais, plantas e lixo para o mesmo amontoado perdido. Desculpe se o texto começou pessimista, o assunto é sério e bem complicado, mas já vamos mudar esse clima (com o perdão do trocadilho). Hoje vamos falar de soluções para minimizar impactos, porque a boa notícia é que elas existem.

Vamos começar por nós, indivíduos, cidadãos, pessoas comuns. O que um simples mortal poderia fazer?

Basicamente, o que devemos saber é que a água da chuva precisa de escoamento. Não adianta nada chover se a água não chegar até as reservas de onde é retirado o volume para ser tratada. Ela precisa encontrar um lençol freático (água subterrânea) ou um rio.

Então a primeira opção para ajudar nessa questão é fácil. Vamos parar de jogar lixo nos lugares errados. Não é só jogar nas ruas ou nos rios que é errado. Jogar entullho em lotes vagos é também um erro que avacalha a cidade inteira na hora da chuva. Jogar lixo nos bueiros também é erradíssimo, mesmo que seja um papelzinho, porque tudo acumula e não deixa a água passar. Jogar lixo em sacos frágeis e mal-fechados também não contribui, porque eles abrem ou se arrebentam e o lixo cai, é levado pelo vento ou pela água até os bueiros, e deixa tudo entupido do mesmo jeito.

Segundo a prefeitura de Belo Horizonte, a cidade tem mais de 23 mil cestos coletores de lixo. Além disso, mesmo que você não ache um lixo na rua, pode entrar em qualquer loja, banca de jornal, restaurante e perguntar « oi, posso jogar esse palito de picolé na sua lixeira? ». Ninguém recusa esses pequenos favores (para pequenos lixos, claro). Cidade limpa não é a que mais se varre, é a que menos se suja. Mas se você conhecer alguém com aquele discurso de « vou jogar na rua pra dar emprego pro gari », por favor, atenção às suas companhias.

Ainda como dever de casa pra gente, fica o controle. Podemos controlar se as bocas de lobo próximas da nossa residência ou trabalho estão sendo regularmente limpas. Em geral, a limpeza é feita a cada dois meses pela prefeitura e de 3 a 4 vezes por semana nas áreas do centro. Os resíduos recolhidos chegam a 20 toneladas por dia. Mas se você achar que o bueiro perto de você está muito cheio ou com alguma coisa estranha, avise a SLU. Hoje, com internet e redes sociais, tudo fica mais fácil. Aliás, quero falar mais sobre esse ponto que também pode ser útil: Reclamar. Mas calma!

A reclamação só é útil quando feita para o público certo. Reclamar do chefe para a vizinha não adianta de nada, a não ser que sua vizinha entenda bem da situação e possa indicar soluções. Aí, ela seria o público certo. Pois bem! Geralmente, diante de um problema, a gente tende a reclamar sem filtrar muito os ouvidos que nos suportam (ou os olhos que nos lêem). Além de deixar uma queixa que denuncia nossas fraquezas, contaminamos a atmosfera, ganhamos fama de chatos e nada resolvemos. Been there, done that, got the t-shirt.

Por isso, quando a gente tiver uma questão específica e não tivermos a capacidade para resolvermos sozinhos (ou mesmo a autorização para tal), vale procurar o responsável sim e notificá-lo do que aconteceu com informações precisas (o que, onde, quando, como, porquê). No caso de uma notificação ignorada, aí sim, avise para todos, até pra imprensa, porque aí o público passa a ser o cidadão que tem direito de saber o que não está sendo feito na sua cidade.

Agora, como mudar a comunidade em que estou inserido?

Somos parte de uma comunidade em vários níveis: Nosso condomínio, bairro, cidade, estado, país, continente e planeta. E se você lembrou da mesma frase que eu, vamos ser amigos:

« Antes de mudar o mundo, tente arrumar o seu quarto, ou pintar a sua rua ». Na pequena comunidade em que estamos podemos estimular ações como as calçadas permeáveis. São várias as opções para isso, inclusive já existe até o concreto poroso. A idéia é basicamente que a água da chuva consiga passar através do revestimento da calçada para que não se acumule na superfície e possa encontrar algum lençol freático no fundo.

Todas as ações que estimulem a abertura de espaços verdes são bem vindas. Com canteiros e jardins, a água cai diretamente na terra, o que facilita muito mais a sua vazão. Dizem que o ideal é que a cidade mantenha um mínimo de 12 metros quadrados de área verde por habitante. Se você tem um jardim em casa, observe isso e chame sua família para participar de uma possível transformação.

Entender a natureza também é importante em todas as dimensões de comunidade. É importante saber que o solo sem vegetação faz com que a chuva carrege-o para dentro dos rios, tornando os rios mais rasos e fáceis de transbordar. Também vale notar e anotar que as bordas dos rios devem ser livres de grande circulação de carros.

Pode parecer estranho, mas é normal que os rios transbordem seus limites algumas vezes. E quando isso acontece, não podemos contar que uma rua colada à sua margem esteja movimentada por pedestres e motoristas. Além de criar riscos para as pessoas, isso também cria enormes congestionamentos. É preciso pensar em alternativas. E deixar faixas verdes e livres para essas eventualidades.

Nessas horas, a gente, sozinho, precisa de união. União para escolhermos um governante que leve esses assuntos à sério, independente de identificação com esquerda ou direita. União para cobrarmos medidas preventivas e transparentes em toda exploração mineral, loteamento, construção de estradas ou mesmo de área de cultura ou pasto no que diz respeito à desmatamento e tantos ourtos danos ambientais.

E no fim de tudo isso, a gente se pergunta : Mas e as chuvas e as mudanças climáticas. O que temos a ver com isso?

Essa é a parte mais complicada. Não sabemos medir ainda até onde a ação do homem interfere nas chuvas e nas mudanças climáticas. Mas antes de nos eximirmos de toda culpa, vamos tentar contribuir com um pouco (com aquela arrumação no quarto que falamos acima). O slow lifestyle não é uma brincadeira de hipsters. É uma forma de pensar a vida em mais harmonia com a natureza exatamente para diminuir esses impactos devastadores. Uma cidade mais limpa, com menos poluidores, mais margens de rio limpas e amplas oferecem menos riscos e mais qualidade de vida para a população. Sejamos espertos e não espertinhos.

Façamos como aquele amigo de Roterdã que limpou a margem inteira do rio de sua cidade recolhendo um saco de sujeira por dia no caminho para o trabalho. Se a gente não pode controlar o clima, que a gente seja mais inteligente nessa compreensão e na busca de soluções. Que um dia a gente possa suspirar como os franceses aprenderam naquele dito popular tão lindo: « Faça como Paris, deixe chover ».

A união de indivíduos! Este texto foi escrito com a ajuda de informações gentilmente fornecidas pela equipe da comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte, SLU e pela mestre em sustentabilidade, especialista em engenharia sanitária e ambiental, Denise Bruschi, quem eu chamo carinhosamente de tia Denise! Muito obrigada.

Link do amigo de Roterdã.

Glossário muito útil:

Inundação representa o transbordamento das águas de um curso d’água, atingindo a planície de inundação ou área de várzea.

As enchentes ou cheias são definidas pela elevação do nível d’água no canal de drenagem devido ao aumento da vazão, atingindo a cota máxima do canal, porém, sem extravasar.

O alagamento é um acúmulo momentâneo de águas em determinados locais por deficiência no sistema de drenagem.

A enxurrada é escoamento superficial concentrado e com alta energia de transporte, que pode ou não estar associado a áreas de domínio dos processos fluviais. (via)

Compartilhe esta história

Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

Publicações Relacionadas