Minas Trend, a força de quem faz

Por Bia Perdigão

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A feira lança tendências para o inverno de 2016 e abre espaço para mostrar quem produz

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Davi e as peças para produzir as bolsas

Quatro marcas levaram para o foyer do Minas Trend uma demonstração do trabalho que é feito em suas fábricas. Artesãos bordavam, cortavam e montavam peças diversas enquanto explicavam a produção. Entre eles, estava Davi Duarte: “a ideia aqui é mostrar para o pessoal como é feita a bolsa, desde a modelagem até a peça pronta. Tem essa finalidade de aproximar as pessoas. Muitos vieram aqui e viram isso com outros olhos”, ele me conta enquanto aplica detalhes no couro. Davi trabalha para Rogério Lima, fabricante de bolsas de Belo Horizonte. O processo, mesmo com o maquinário exigido, é em boa parte artesanal. Isso, aliado ao grande número de peças necessárias e à complexidade da produção, faz com que o preço da bolsa suba. O designer que dá nome à marca, dentro de seu estande no Salão de Negócios, explica: “as pessoas falam assim: o que sua bolsa tem para ser tão cara? Eu gostaria que, quando ela me fizesse essa pergunta, ela fosse na fábrica. Como fica muito difícil, eu resolvi trazer essa história para ver que minha bolsa não é cara, ela tem um preço justo”. Ao lado de Davi está Romilda da Cruz Silva, que me mostra os detalhes da produção de um sapato da designer Debora Germani. “O pessoal está adorando!”, diz Romilda, rindo. “Não é uma fábrica em que o sapato passa por uma esteira; mão a mão ele vai passando por todos os processos”, completa Debora.

Peças que compõem um sapato.

Peças que compõem um sapato

O projeto, idealizado pelo arquiteto Pedro Lázaro, buscou evidenciar, para quem passasse por ali, que o processo artesanal e as mãos que produzem precisam ser valorizadas. “É uma indústria humana, e a máquina humana é insubstituível”, diz Heliana Lages. Sua marca homônima e dois de seus funcionários, Queli Maria e Geraldo Texeira, estavam no Expominas desenvolvendo suas bijus sob olhares curiosos e surpresos. O crochê em fio de metal de Heliana começou com uma história de valorização de quem queria fazer. “Nossa empresa surgiu a partir de uma inspiração com uma pessoa que havia ficado paraplégica, com uma força de vontade tão grande, uma força de quem realmente queria fazer, que eu não pude evitar. Quando você dá uma oportunidade para uma pessoa que quer, ela aproveita e vai. Ela faz a diferença”, conta. E é assim, dando oportunidades para pessoas que precisam e que querem trabalhar, que a indústria local busca sua força e alternativas para se superar sempre. “Estamos sempre buscando, sempre treinando e capacitando pessoas que se interessam. Mas é um processo um pouco lento, porque é uma mão de obra que a gente forma, ela não está pronta no mercado”, diz Heliana.

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Pulseiras Ame Bijoux

Ao longo do Salão de Negócios, durante as pausas no meu turno de trabalho – estive com o Sindivest (Sindicato das Indústrias do Vestuário) em sua loja conceito – conheci outras marcas que se destacam pela consciência aliada ao design. “Tudo aqui tem uma história pra contar, nada do que a gente faz é em vão. Preferimos trabalhar com pedras brutas e tentar não usar nada que cause algum dano ao meio ambiente”, conta Ana Paula Meira, designer da marca de acessórios carioca Ame Bijoux. A marca, como poucas dentro do Minas Trend, é sustentável. “Mas é muito difícil você achar mão de obra qualificada, então elas vão ao atelier, eu dou um dia de curso sobre como fazer as peças e vou dividindo tarefas”.

estande heliana lages - minas trend - review slow living

Estande Heliana Lages

Em outro setor, no de vestuário, mais precisamente dentro do estande do concurso ReadyToGo, a Ecow compartilha destas particularidades. “Não usamos tecidos de origem animal, trabalhamos com retalhos e, em toda coleção, a gente faz questão de ter essa digital da mão de obra mineira, do trabalhador. Cada vez mais que a marca vai crescendo, implantamos isso em nosso processo produtivo”, conta Silvia Drummond Siqueira, enquanto andamos ao longo de seu espaço dentro do estande. Cada peça foi bordada por uma pessoa que manifestou seu olhar sob o tema da coleção, a artista Margaret Keane. “Deixamos cada um, modelista, bordadeira, se expressar sobre o tema. Essa relação que temos com nossos parceiros nós entendemos como responsabilidade social”, diz Silvia. “As pessoas já são acostumadas com um modo de trabalho, então é difícil elas entenderem que somos parceiros, que somos donos da empresa mas que não somos maiores ou melhores, que somos iguais. Se não fosse pelo outro, a gente não seria nada”. Ela ainda comenta sobre a experiência de ser uma marca pequena, local, em uma feira tão grande quanto o Minas Trend. Um sentimento em comum com outra marca belorizontina, a Jardin. “É um mercado bem difícil porque, na verdade, hoje a concorrência é global, então não estamos competindo só com empresas daqui”, conta Bhárbara Renault, estilista da marca. “Nós, pequenas empresas, somos responsáveis por uma grande geração de renda nesse país e, muita vezes, não temos esse crédito. Movimentamos muito a economia e isso tem a ver com esse slogan, ‘a força de quem faz’”.

Estande Jardin

Estande Jardin

Apesar desse tema, conhecer os detalhes da produção ainda não é importante para a maioria dos compradores e lojistas que frequentam o Minas Trend. “Os custos são muito altos, quando você não tem volume pra diluir o valor da sua estrutura, a sua peça acaba saindo mais cara. E muitas vezes a pessoa busca só o preço. Ela não quer saber o que está por trás, ela não quer saber se você paga bem a sua costureira, se ela tem vale alimentação, plano de saúde… Ela quer a peça barata para comprar o máximo de itens que ela puder”, diz Bhárbara. Ao perguntar para cada um dos entrevistados sobre as reações dos compradores e consumidores, a resposta foi unânime: não é suficiente. Poucos realmente querem saber ou acreditam no que ouvem. Mas iniciativas como essa e o crescente número de marcas focadas no lado humano da produção em feiras como o Minas Trend são aspectos animadores. “Precisamos repensar essa forma de consumo e valorizar mais a produção local”, conclui Bharbara. São tarefas que demandam tempo e vontade, mas que fazem-se espontâneas ao conhecer de perto a força de quem consegue fazer.

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Sobre Bia Perdigão

Movida por palavras e imagens, no jornalismo de moda compreende a interseção entre roupas e literatura, criação e opinião. Através do movimento slow, tem a oportunidade de conhecer pessoas que ...

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