Eu e Ela

Por Diorela Bruschi

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Passado o dia das crianças, uma questão ficou: A criança que fui teria orgulho da adulta que sou hoje?

Comecei a pensar na vida. Em alguns pontos, acho que sim. Finalmente melhorei a minha alimentação, aprendi a fazer diversas coisas que sempre achei que me limitavam não saber (cozinhar, dirigir, pendurar quadros – hehe, sim, pendurar quadros, etc). Em outros pontos, porém, aquela criança tinha traçado outros planos.

Na minha infância, era comum que eu planejasse meu casamento pomposo, o nome dos meus dois filhos (Alexandre e Priscila), minha profissão de muito sucesso com uma franquia de rede veterinária e meu cabelão lindo e volumoso contrastando com minha cinturinha fina de Barbie (da minha Barbie morena!).

Nada disso aconteceu exatamente como planejei. Mas a questão é que, ao longo do tempo, também mudei de ideia a respeito de muita coisa. Não mudei os sonhos mais profundos, mas encontrei outros caminhos para realizá-los. Muita coisa para a qual eu não dava importância quando pequena, exatamente porque era pequena, passou a ganhar relevância. Os estudos, os amigos para toda hora, as viagens, os aprendizados, as colaborações com ideias que me são caras, a empatia com as pessoas.

Desde que me mudei para a França, percebi que as pessoas não se parabenizavam nos aniversários. Elas desejavam « Feliz aniversário », mas achavam estranho felicitar alguém por mais um ano de vida. Para os franceses, a felicitação deve vir depois de conseguido algo com esforço, como um diploma, um trabalho, uma obra. Felicitar alguém por simplesmente ter continuado vivo não parecia fazer muito sentido pra eles. Pra eles. Para mim ainda faz muito sentido. « Viver é muito perigoso » já dizia Guimarães Rosa. E não é mole não. Viver é uma arte que merece, também, ser valorizada. Afinal, todo dia é um esforço para que não seja tempo perdido.

Da criança que fui à adulta que sou hoje, quanta coisa já não aconteceu para me fazer repensar, começar de novo, tentar, redescobrir, lutar até conseguir. E é por isso que a cada dia das crianças, eu ainda tenho vontade de me dar um presente, de me felicitar. Mas não um presente material simplesmente pra acumular ou para ostentar. Um presente que me faça realmente bem.

Neste último dia 12 de outubro, me dei dois presentes. Aceitei dois desafios novos de coisas que sempre quis fazer, mas recuava por medo de dar errado. Aceitei que poderia dar errado, mas também que pode dar certo. E enfrentei.

Tenho certeza que aquela menininha de cabelo enrolado nem liga mais pro fato de eu não ter a franquia veterinária. Ela está confiante que os nossos sonhos estão em boas mãos.

Foto do topo: Diorela e o projeto “S2 Frágil”, criado pela jornalista e escritora, também mineira, Sabrina Abreu

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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