Banco de Vestuário

Por Bruna Miranda

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Dias atrás estive conversando com a Débora Nardello, uma simpática gaúcha que é criadora e estilista da Lusco Fusco – marca carioca de eco fashion que também tem o upcycling como sua paixão e identidade. Ela trabalha essencialmente com os retalhos que sobram do corte das confecções e já atua há alguns anos nessa área.

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Banco de Vestuário

A Débora me contou sobre o Banco de Vestuário, uma instituição de Caxias do Sul, no RS, onde ela trabalhou por um ano antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Eles são pioneiros no Brasil em atuar com os resíduos da indústria têxtil. Caxias do Sul é uma cidade com muitas malharias e com duas fábricas de tecidos muito importantes – e grandes – a Pettenati e a Sultextil. O Banco nasceu do esforço de nove entidades que, unidas, cada uma fazendo a sua parte, tiraram o projeto do papel. Dentre elas, a Prefeitura da cidade, a Universidade de Caxias do Sul (onde tem o curso de moda), o Pólo de Moda, a FAS (Fundação de Assistência Social), a Codeca (companhia de limpeza da cidade) e o SENAI.

O Banco surgiu então com essa ideia de receber e redirecionar os resíduos da indústria têxtil, retalhos de tecidos e aviamentos de todos os tipos e tamanhos, beneficiando o meio ambiente e a comunidade em geral. Os materiais são enviados pelas confecções ou fábricas de tecidos e separados por cor, tamanho, composição e utilidade, daí são entregues para as entidades que irão aproveitá-lo da melhor maneira. Por exemplo, um grupo de artesanato recebe retalhos de algodão mais simples para patchworks ou fibras para enchimento de almofadas, enquanto um grupo que faz roupas para crianças recebe retalhos de plush ou malhas caneladas.

Qualquer pessoa pode buscar retalhos de tecidos ou aviamentos no Banco, desde que faça parte de algum grupo ou instituição que esteja cadastrada por lá. E qualquer organização pode se inscrever, de igrejas a associações de bairro. Não é oficial, mas, em geral, é pedido para que cada pessoa que recolhe materiais, ao voltar para buscar mais, leve roupinhas de criança feitas com os tecidos de lá para serem doadas a um hospital público da cidade. “E o legal é que todo mundo leva!”, conta a Débora.

Além dos grupos que retiram materiais, o Banco de Vestuário oferece cursos diversos na área de confecção, buscando suprir a falta de mão de obra para essa área e criar novas oportunidades de trabalho para as pessoas. Lá são ministrados cursos de corte e costura, pelo SENAI, artesanato, customização e alguns cursos livres de tempos em tempos, além de palestras sobre empreendedorismo e meio ambiente, a cada início de semestre, para os novos alunos. E tudo gratuito para a comunidade, não precisa comprovar renda máxima.

Há também uma parceria especial feita com o presídio local. Os detentos produzem, com os retalhos enviados pra eles, cobertores para utilizarem, já que lá no Sul faz muito frio. Um ensina para o outro e a cada três dias trabalhados são reduzidos um dia da pena – é uma oportunidade de transformação, já que eles saem do presídio sabendo trabalhar com uma máquina de costura. A Débora conta que “eles brincavam lá no Banco que eles podiam colocar fogo em colchões e travesseiros, mas nunca nas colchas que eles fizeram!”. E, pra finalizar, os materiais que não podiam ser doados, por serem muito pequenos ou de difícil utilização, são enviados para a reciclagem.

A Débora entrou no Banco de Vestuário em 2012, para participar da criação do curso de Customização em parceria com a Unimed. “Começamos com uma turma piloto e continuamos com o curso até o final do ano. A ideia era ensinar pessoas a transformar as roupas, para que elas não fossem descartadas porque estavam com pequenos defeitos. As peças customizadas foram uniformes antigos da Unimed, que eram guardados ou descartados porque a instituição não sabia o que fazer com eles”, explica. Ao final de cada turma, que durava dois meses, era organizada uma feira com a venda das peças customizadas a 10 reais, para arrecadar dinheiro para comprar alguns materiais que o Banco não recebia, como, por exemplo, linhas brancas e pretas, pés de máquina, etc. “Hoje, acredito que o curso não exista mais nesse formato, mas, com certeza, é uma ideia incrível a ser seguida”, enfatiza a estilista.

Ainda sobre toda a inspiração e mudanças positivas que um projeto como o Banco de Vestuário traz – são cerca de três mil pessoas beneficiadas diretamente e dez mil indiretamente – ela finaliza contando que o mais gostava lá era como a vida das pessoas era transformada, tanto pelo uso dos retalhos nos cursos gratuitos, quanto na doação de parte deles para que possam produzir coisas em casa para vender e ajudar na renda familiar. Em 30 meses, o Banco de Vestuário arrecadou mais de 105 mil quilos e distribuiu quase 50 mil. Formaram quase 500 alunos e têm cadastradas 50 empresas que ajudam socialmente e cumprem com seu papel ambiental de não jogar resíduos na natureza. “Fiquei super contente ao saber que em São Paulo foi feito algo do gênero”, comemora, falando do Retalho Fashion. Vida longa aos projetos, que os exemplos sejam seguidos em cada dia mais cidades. E obrigada por compartilhar sobre ele e sua experiência, Débora!

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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