O luxo do menos

Por Bruna Miranda

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A moda dá uma respirada profunda

– Texto de Anna Harrison para a Russh Magazine

 

Em As Leis da Simplicidade, John Maeda define em uma linha o que é talvez o princípio mais importante de nosso tempo: “A simplicidade consiste em subtrair o óbvio e acrescentar o significativo”. Das últimas décadas de poses e ostentação, o adicionar e mostrar ligados ao máximo, o carregar nos ombros nossos pontos de vista sócio-políticos e escolhas de lifestyle, um movimento oposto tem vindo como uma onda leve, em um suspiro longo e lento. O nosso pensamento em torno do que é, realmente, preencher nossas vidas com significado e participar na formação da nossa arquitetura cultural está lentamente começando a mudar. Uma nova abordagem em pontos essenciais, matérias-primas e um menos-que-menos-é-mais. Uma alma livre que não está morta, estava apenas meditando.

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O movimento boêmio dos anos 60 e 70 – pense em adornos, ondas de LSD, rockers e Woodstockers – foi todo sobre jogar as convenções pro alto e fazer barulho, quebrando os padrões de uma sociedade engessada por meio de uma estética de alto impacto, da arte à música e moda. Mas um ethos que começou como um empurrão contra códigos morais rígidos aparece muito diferente no contexto contemporâneo. A rebelião do nosso tempo é menos sobre desafiar um paradigma sócio-político repressivo e mais sobre virar as costas para uma ordem corporativa generalizada. Simplesmente agindo, desejando e acumulando menos, estamos fazendo uma declaração bastante poderosa – com essas declarações que não estamos fazendo. Ao abraçar a sutileza e o resgate dos valores mais simples do passado para uma era tecnológica, estamos lentamente, mas, seguramente, saindo da corrente frenética do consumismo. E a moda, como sempre, está necessariamente seguindo o exemplo, ou, em alguns casos, liderando

Nas passarelas Primavera/Verão, tons de terra e linhas limpas, arquitetônicas. Na Hermès as roupas eram uma extensão do ambiente natural – a flora selvagem da selva e as diferentes e profundas tonalidades da Terra. Dries Van Noten trabalhou com franjas e motivos tribais tradicionais com tecidos crus, orgânicos, de chita, e roupas cortadas com linhas fluidas e bem trabalhadas. De Givenchy para J.W.Anderson, os designers foram redefinindo o boêmio, subtraindo ao invés de adicionar – retirando os não-essenciais. Criando um novo tipo de luxo, concentrando-se em design inteligente, qualidade e conforto acima das declarações em excesso e ousadas. Logomarcas, apliques e somas estranhas estão desaparecendo do vestuário e dos acessórios em favor de uma estética decididamente minimalista. A indústria está começando a entender que, enquanto muitos de nós amam e apreciam as coisas belas, já não queremos desfilar riqueza e status em um mundo de desigualdade gritante e angústia ambiental. Como prejuízos do stress, o “workaholismo” e os demais excessos da vida moderna estão se tornando cada vez mais evidentes, sendo priorizada então uma volta ao básico: comida de qualidade, tempo de qualidade, desconectar-se, desestressar e criar um mundo melhor. Se a musa dos Rolling Stones Anita Pallenberg fosse teletransportada de 1969 para 2014, ela deveria estar como Daria Werbowy nas campanhas icônicas da Céline. Descontraída, refinada, discreta – e nada envolta em excessos inúteis.

Phoebe Philo, estilista da Céline, nunca contratou uma celebridade para sua marca. Avessa ao facebook, já declarou que adoraria não ter seu nome vinculado ao google e gosta de reforçar o valor aos laços familiares e com os amigos próximos

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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