Por um jardim mais slow

Por Bruna Miranda

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É mais do que comprovado como o Movimento Slow, desde o seu início através do Slow Food, trinta anos atrás, desencadeou uma onda mundial de alívio entre as pessoas, em todas as esferas da vida. Quando a gente fala que “hoje em dia tudo na vida tem sua busca/defesa Slow”, tem mesmo. Afinal, eu não saberia dizer se existe algum aspecto da vida nesse planeta que não foi afetado drasticamente pela velocidade, pela inversão de valores primordiais, pelo consumo excessivo, citando apenas algumas de nossas mais importantes questões.

Vale lembrar um dos principais objetivos de todos os movimentos Slow é sobre a tomada de consciência acerca do que e como estamos fazendo algo enquanto avaliamos como isso afeta o todo.

E como já disse por aqui antes, é muito interessante e produtivo ir descobrindo cada um dos Slow que fazem parte do Slow Living! Aqui no Review você já deve ter visto alguns deles, como por exemplo nas áreas da moda, alimentação, comportamentobelezacidades.

Foto: Pinterest /reviewslow

Foto: Pinterest /reviewslow

A abordagem que eu vou apresentar hoje é linda e agradabilíssima, felizmente também ganhando mais e mais adeptos e visibilidade: os Slow Gardens, Jardins ou Jardinagem Slow (“Lenta”) para nós. O termo foi desenvolvido por Felder Rushing, horticultor e apresentador de rádio do estado americano do Mississipi. Ele também se inspirou, claro, no pioneiro movimento Slow Food. A partir daí, refere-se ao “longo prazo”, tomarmos o tempo que for necessário para desenvolvermos uma filosofia pessoal sobre a jardinagem. Ou seja, o que pareça positivo para você e somente você, não de acordo com alguém ou para manter-se alinhado aos mais recentes aparelhos, técnicas (e tendências…) da área. Uma atitude serena, e não uma lista de etapas a serem cumpridas à risca.

Voltando só um pouquinho antes de aprofundarmos no Slow Gardens, sabemos que, em apenas duas ou três gerações, passamos da comida feita em casa e da jardinagem feita com recursos locais para a rotina do fast food e as paisagens criadas com plantas que vieram lá de longe. Por que se preocupar em plantar algo se podemos simplesmente comprar prontinho, na embalagem – e quase sempre mais barato – não é mesmo? No lugar do semear, passamos a comprar por aí alimentos e plantas híbridas, os quais não sabemos como foram feitos, por quem e nem com que matéria prima. Só que tudo isso a um custo enorme, principalmente com relação às conexões com a Terra, à qual nossos antepassados sabiam manusear e beneficiar-se, inteiramente e cuidadosamente.

De volta ao “resgate adaptado aos dias de hoje”, a Jardinagem Slow!

- Nós plantamos, cultivamos e compartilhamos. Foto Slow Food USA

– Nós plantamos, cultivamos e compartilhamos. Foto Slow Food USA

Ela nos incentiva a apreciar a jardinagem através de todos os sentidos, em todas as estações, independentemente do tipo, tamanho, locação ou estilo de jardim. E isso vale tanto para quem se dedica às plantas diversas, flores, legumes, ervas e frutos, como para os que cuidam de um gramado, ou tratam a jardinagem como um intenso, prazeroso e benéfico hobby; ou ainda a quem se dedica à área por meio dos bonsais e de outras novidades igualmente lindas, como os jardins de corda, as hortas urbanas e compartilhadas, os telhados e paredes verdes, etc. A abordagem slow para a jardinagem pode inclusive nos ajudar a nos conectar com nossos vizinhos e com a comunidade em geral, para trocas de mudas, sementes (em BH, veja nesse grupo e página do facebook), dicas sobre cuidados e muito mais. Mais benefícios? Essa atividade promove ativamente a auto-consciência, a responsabilidade pessoal e a gestão ambiental, além de ser bem terapêutica e calmante. Sentir as mãos na terra e acompanhar o desenvolvimento de nossas plantas é algo tão energizante! Mesmo uma pequena muda em um vasinho pode nos ajudar a concentrar no “aqui e agora” da vida diária.

Um exemplo: se você é um jardineiro menos experiente ou sofre da síndrome mundial da falta de tempo – e sendo assim, o jardim fica de fora da sua lista de prioridades – mantenha um que requeira pouco esforço em seus cuidados. Se os seus legumes favoritos são os tomates e pepinos, então é só plantar estes dois vegetais. Se você gosta de flores frescas em casa, escolha algumas poucas variedades que mantêm-se bem e as plante. Tente cultivar espécies nativas ou bem adaptadas à sua região, aquelas que gostam do clima local. Pesquise, pergunte!

A Jardinagem Slow também é sobre apreciar verdadeiramente o seu jardim. Se suas flores atraem borboletas e beija-flores, certifique-se de ter um lugar agradável onde você possa parar e contemplá-los. Além disso, uma outra busca é sobre a conservação e proteção dos recursos, como por exemplo escolher plantas que têm menos necessidade de fertilizantes e que não precisam de tanta água, uma vez estabelecidas. Uma ótima solução para a saúde das suas plantas é fazer uso de adubos naturais, caseiros, como por exemplo o húmus e biofertilizantes (chorume) resultantes da compostagem caseira – com minhocas ou não – de resíduos orgânicos como cascas de frutas, talos e folhas de verduras e legumes, grãos, sementes, borra de café e chás.

E, ao contrário, em hipótese alguma envenene o seu jardim (e o ar, o solo, sua casa) com produtos químicos e tóxicos. E podemos ainda colocar em prática, para benefício geral, a permacultura. Isso soa como uma jardinagem ecofriendly, certo? Sim, e isso é ótimo!

E assim como em todos os aspectos do movimento Slow, a lentidão aqui não significa preguiça. Um escritor inglês disse que a jardinagem slow é a nossa última defesa, tão verdadeira, em nosso acelerado mundo. E que ela pode até mesmo ajudar a salvar algo ainda mais precioso do que o nosso próprio tempo. Como disse também Steve Bender, editor de jardinagem da revista Southern Living: “Talvez você não possa salvar o mundo inteiro, mas, modificando ligeiramente a forma como você cuida de um jardim, você pode salvar seu próprio quintal. E isso é um começo”.

Seguimos para os princípios da Jardinagem Slow, que estão enraizados na abordagem Gestalt:

– Foca em uma jardinagem experimental, mão na terra mesmo para aprender, analisar o que funciona ou não em determinado ambiente e circunstâncias…;
– Leva em consideração todo o jardim (ou o jardineiro – corpo, mente e espírito);
– Avalia o que está acontecendo no momento presente (o aqui e agora);
– Enfatiza a auto-consciência;
– Incentiva a responsabilidade (pessoal e perante o jardim);
– Reconhece a integridade, sensibilidade e criatividade do jardineiro;
– Reconhece que o jardineiro é fundamental para todo o processo.

Precisa de mais incentivos para colocar a mão na terra? Acredito que não! <3

Veja também:

Sujar-se de terra: o mais moderno antidepressivo.

 

Foto do topo: A Lovely Life
Fontes pesquisadas: wikipedia, slow gardening.net

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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