A teoria dos pratinhos e a multiplicidade da vida

Por Diorela Bruschi

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Era fim da hora do almoço e minha colega de trabalho deixava escorrer algumas lágrimas. Infelizmente, a relação com a mãe dela não estava muito boa. “Nunca consigo ter tudo indo bem. Quando o trabalho e a vida amorosa estão ótimos, aparece um problema na família. Quando a família está bem, aí é o trabalho que vai mal”. E a gente, meio que concordando, passava o guardanapo pra ela conter a lágrimas. “É difícil encontrar a paz absoluta em todos os campos da vida ao mesmo tempo. Toma mais um lencinho pra você”.

Anos depois, em uma outra conversa, com outras pessoas. No final de um relato, uma amiga concluiu: “A vida é mesmo um equilíbrio de pratinhos”! Como assim, Babu? Ela explicou algo como: Já viu aqueles equilibristas de pratinhos no circo? Eles têm que girar todos os pratos sem descanso, ou o prato cai. Pois a vida é igual. Cada pratinho é um ponto da vida. Tem horas que está tudo equilibrado de um lado e do outro lado tem um que está quase caindo e a gente tem que alcançar”. Depois dessa, a teoria dos pratinhos passou a explicar bem a minha vida. E vai fazer sentido pra sua também.

Ninguém é uma coisa só. Somos filhos, netos, sobrinhos, irmãos, amigos, alguns de nós somos pais. Somos profissionais, estudantes, viajantes, observadores, alunos e professores. Somos amores, amantes, amadores! Somos um mundo de amor para compartilhar ou não. Somos cheios de vontades, lutas, causas e projetos. Temos nossa vida espiritual, nossas dúvidas e respostas, nosso solilóquio, nossas buscas. Temos nossa vida financeira, nossa vida de administradores de casa, toda uma vida social e também uma vida com nossa própria saúde. Somos tão múltiplos que chega a ser inconstitucional impor uma limitação para a vida de alguém.

Pois dessas multiplicidades surgem os pratinhos que devemos equilibrar. E não é fácil. O equilibrista do circo treina anos para não deixar nada cair. Ele aprende que não pode parar, e ele aprende também a limitar a quantidade de pratinhos que consegue equilibrar. Alguns conseguem equilibrar três, outros cinco, outros dez. Varia de acordo com cada um. Outro dia brinquei com uma amiga que meu pratinho da matemática caiu e eu nem catei os cacos. Isso porque depois que saí da escola, nunca mais me concentrei nesse estudo (muito embora tenha trabalhado fazendo conta de troco o verão inteiro!). A matemática, embora seja uma ciência linda e admirável, não estava na minha lista de prioridades. Ou, pra falar combinando com o texto: não era mais um pratinho que eu queria e precisaria incluir na minha vida. Então guardei apenas o conhecimento mínimo de sobrevivência mesmo. Ou seja, regra de três!

Esse último parágrafo pode dar a impressão que todos os pratinhos são uma escolha. Mas não, né. Eu sei que você já está enumerando aí que o pratinho da saúde, da vida financeira, da família e alguns outros são indispensáveis para uma vida, digamos assim, razoavelmente harmônica. E aí eu me lembro da última conversa de bar que tive (e concorde comigo que estou te dando um superassunto pra conversa de bar aqui!). Disse um amigo meu entre um gole e outro de seja-lá-o-que-ele-estivesse-bebendo: “O meu pratinho do dinheiro não precisa estar tão cheio de dinheiro quanto o pratinho do dinheiro do meu vizinho, porque eu me contento com menos”. É isso aí! A medida é pessoal não só na quantidade de pratinhos, mas na qualidade deles.

Se a pessoa encontra a felicidade dela e dos seus com menos posses, por que ela teria que girar o pratinho tão freneticamente quanto quem precisa de carro de luxo e primeira classe para se sentir satisfeito com a vida financeira?

“Peraí, mas o que acontece se um pratinho cair?”, disse outro amigo, naquele mesmo bar (é um bar na beira de um riacho aqui em Avignon, uma delícia para essas reflexões no sábado à noite). Eu não sou a inventora da teoria, mas no meu entendimento, se um pratinho cair, temos que ver porquê ele caiu. E se for concluído que era realmente relevante, a ideia é fazer de tudo para colar os pedaços de volta. Relembro aqui que não é fácil. É mais fácil tentar nunca deixar cair a vê-lo espatifar e depois ter que remendar. Ou seja, tudo é difícil. Mais uma vez, não fui eu que inventei essa teoria. E, nem preciso dizer, mas não fui eu que compliquei a vida! Aliás, dica: tente descomplicar o máximo possível. Por exemplo: se você for amigo do pessoal do seu trabalho, já vai conseguir fazer girar uns dois ou três pratinhos ao mesmo tempo. Se você tiver uma boa relação com sua sogra também. Se você parar de comer bobagens e parar de deixar crescer inveja dentro de você, vai girar pratinhos como nunca! E pratinhos estáveis fazem bem pra saúde.

Diz pra mim, isso não muda nossa forma de ver a vida? E mais, isso não te faz querer reviver aqueles projetos que estão quase morrendo? O show tem que continuar. Vida é movimento e tentativa pós tentativa. Mesmo para quem pratica o slow living. O equilíbrio de tanta coisa depende da sua rotação: “A velocidade do peão nos mostra que, quanto mais intensa ela é, tanto mais firme é a estabilidade do mesmo, que até parece imóvel quando gira sobre sua diminuta ponta”, para usar como exemplo uma frase da Logosofia. Continuemos a girar! E fique tranquilo que está todo mundo mais ou menos na mesma esperança equilibrista. Como na canção!

 

PS: Joguei no google o nome “teoria dos pratinhos” para ver se ela já estava explicada antes e não encontrei (não significa que não exista, simplesmente que eu desisti de procurar na segunda página da pesquisa). No lugar, encontrei uma teoria homônima, mas que falava sobre como as pessoas que saem com várias pessoas devem fazer para harmonizar essa sequência de paqueras. Enfim, um assunto que foge um pouco da temática do texto, mas leva o mesmo nome. Só isso!

LINK: A música que embala o último parágrafo

 

Foto do topo via pinterest

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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  • LYGIA BRUSCHI

    Como sempre tentando descomplicar, é verdade essa teoria dos pratinhos serve bem para explicar. Gosto das suas cronicas!!!!!