O fast fashion e o argumento de dar emprego

Por Diorela Bruschi

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Ontem à noite aconteceu um evento bem legal e em um lugar muito agradável de Belo Horizonte, a Benfeitoria. Lá, alguns benfeitores engajados no movimento do Fashion Revolution apresentaram o filme documentário The True Cost, que eu até então não tinha conseguido ver.

O filme fala da produção na indústria têxtil, mais especificamente do fast fashion. Mostra muita coisa que a gente já sabia e algumas outras que talvez sejam novidade, como o nível tóxico do algodão convencional, a quantidade de lixo produzido, como até as roupas que a gente doa para a caridade viram uma montanha de panos raramente destinados a ajudar as pessoas que imaginamos.

Mas sobre o que já se conhece, ou seja, sobre as péssimas condições de trabalho na indústria têxtil do fast fashion, principalmente asiática, um argumento chama a atenção. Era o seguinte: « pelo menos essas pessoas tem um trabalho » ou « isso é o que dá para fazer por agora ».

Ok, é verdade que entre não fazer nada e fazer alguma coisa é melhor fazer alguma coisa. « Mente vazia é oficina do diabo », ensina o ditado. Mas e se a oficina dele (sim, do coisa ruim, desculpe usar esse termo!) também for um prédio em ruínas que coloca famílias inteiras em risco sob a desculpa de reduzir preço de produção?

Foi assim que, no dia 24 de abril de 2013, 1134 pessoas morreram numa tragédia anunciada em Bangladesh. Todas essas pessoas estavam no prédio com enormes trincas produzindo peças ao menor custo possível para que o mundo ocidental se alegrasse de poder renovar o guarda-roupas mais de 50 vezes por ano.

Não é muito tranquilo ouvir os depoimentos no documentário que diziam que as pessoas sequer tinham tempo para cuidarem de seus filhos, para comerem, para esticarem seus corpos ou se tratarem de dores. Que o dinheiro não chegava a 3 dólares por dia. E a água era praticamente um veneno.

Diante de tanto sofrimento a gente se pergunta se não estão por aí outras soluções entre o estar desempregado e o viver a agonia de trabalhar apenas para não morrer de fome (mas morrendo de outras doenças, de desastres e até do ar sujo que respiram).

É óbvio que a mudança passa pela educação destas pessoas. Mas também passa pela nossa. Muitos textos e publicações falam da mudança de um sistema por completo. A começar por nossos velhos hábitos de consumirmos sem questionar toda a cadeia. Ou de consumirmos demais. Temos realmente que basear toda a economia em consumo de bens materiais tornando-os cada vez mais perecíveis? Fica a pergunta de uma não-economista.

O trabalho de quem não concorda com o sistema de produção fast fashion não deve ser no sentido de destruir nenhuma empresa que hoje ainda não se adequou a uma maneira sustentável de produzir, mas em educar e exigir transparência nesta produção. Valorizar o pequeno e o médio produtor ou o fabricante local também contribui para o enriquecimento de um hábito de consumo mais humano.

Este texto não é capaz de exaurir a discussão sobre o assunto. Mas espera-se que seja capaz de convidar a muitos para que, pelos menos nesse período de Fashion Revolution Week, comecemos a refletir mais sobre as desculpas que damos para não mudarmos nada.

Links úteis:

Desenvolvimento: A conspiração do desemprego na Ásia

Fashion Revolution

Stop Sweatshop

 

– Na foto do topo, Raíssa Leão, do Seu Pechincha e Fashion Revolution BH, e Bruna Miranda, do Review e Fashion Revolution Brasil, apresentam o filme The True Cost, na Benfeitoria.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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