Menos consumo, mais rumo: por um fim de ano divertido

Por Diorela Bruschi

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Você conhece esse cenário: shoppings lotados, gente entrando no cheque especial, filas para pagar, comilança. Por um lado, tudo isso faz parte da estrutura que demos para a nossa sociedade. Contratamos mais gente para as lojas, vendemos mais, movimentamos dinheiro, comemos e pagamos academia.

É um ciclo que já é esperado pelo sistema da forma como ele é hoje. E pode parecer até um erro querer propor diferente. Mas não custa lembrar que atrasos de avião também movimentam milhões na economia, uma vez que os consumidores gastam mais em aeroportos, e nem por isso a gente vai aplaudir. Então vamos sugerir algumas alternativas para você ter um fim de ano mais slow. E, por que não, mais cool!

O amigo oculto é um clássico. Todo fim de ano, na minha família, o mesmo papelzinho circula entre tios e primos. A própria ideia do amigo oculto é mais econômica do que a ideia de dar um presente para cada um. Quem tem família grande pode criar pânico de fim de ano por causa da pressão de dar uma lembrancinha para cada um. No amigo oculto, todo mundo ganha presente, todo mundo oferece presente. Tudo parece mais democrático. Mesmo assim, pode ser que num dado momento, você não queira mais comprar uma camisa pólo para o seu primo, uma gravata para o seu tio, um creme para a sua avó, ou um brinco para a sua cunhada.

Foi aí que minha tia deu uma ideia que adotamos há alguns anos: O amigo oculto de experiências. Nas opções de presentes estavam uma semana de louça lavada (para os que moram na mesma casa), uma ida ao restaurante, uma aula de alguma coisa que o outro soubesse fazer bem (tocar piano, falar russo, cozinhar cookies), uma sessão de piadas, companhia para a yoga etc. Ou seja, alguma experiência legal. Ninguém precisaria gastar dinheiro (poderia, caso quisesse, por exemplo, pagar um curso ou cinema para o outro) e o importante seria agradar com alguma experiência. O tipo da coisa que não precisa liberar espaço no armário.

Outra variável foi o amigo oculto de coisas que nós mesmos fazemos: uma torta, uma foto, um arranjo de flores, uma caixa decorada, um desentupidor de pia original (quem nunca!) etc. De novo, o importante aí não seria gastar dinheiro (embora ele pudesse ser gasto para comprar materiais ou participar de ateliers), o importante é a criatividade e a atenção com o outro.

A outra opção que conheci já é mais comum em festas de empresa : amigo oculto de livros lidos. Como você já deve ter entendido, aqui o amigo oculto ofereceria um livro que leu e achou legal. Ele poderia comprar o livro novo, caso não quisesse se desfazer do seu, ou passar o seu próprio para a frente. Foi assim que ganhei o excelente « Elogio ao ócio ». E minha mãe ficou com o « Guia do mochileiro das galáxias ».

Dizem que dar presentes é uma forma de revelar ao outro o quanto não o conhecemos direito. É bem possível. Eu já errei feio em diversos presentes e morro de vergonha. Na verdade, sempre que ofereço alguma coisa, falo para a pessoa ficar à vontade para trocar ou passar pra frente, mas que por favor, ela dê rumo para aquilo. Tenho muita agonia de saber que a coisa pode ficar parada, sem uso, esquecida, com a etiqueta pro resto da vida. Isso fugiria inclusive ao conceito de « função social do objeto » como aprendemos em Direito.

Então uma outra alternativa de amigo oculto seria a de « presentes re-dados », mas para essa é preciso um certo cuidado para não magoar ninguém. E bom humor também. Por exemplo, se um dia você ganhou uma blusa muito pequena para você e nunca trocou, arrume a blusa bonitinha e leve. Seu amigo poderá levar o prestobarba que nunca lhe interessou. Uma outra pessoa, leva um perfume que estava intacto. E assim por diante. Todos colocam os presentes no centro de uma mesa, ou da sala. Todos sabem que tudo é de segunda mão, mas em bom estado. Na frente de cada embalagem, um papel explica o que está dentro. Roda o dado, quem tira um número maior que 4 pode escolher o presente. Quem tira menor que 4, deve passar a vez. É importante que cada um fique com ao menos um presente, mas quem vai saindo por último, pode pegar o presente do outro, que por sua vez tem direito de escolher um novo presente no montinho de presentes. E no fim, todos abrem e podem destrocar se quiserem. A ideia é rir, mas também dar utilidade para as coisas.

A mesma sequência pode ser feita com o que o pessoal da França chama de « cadeaux pourris » (« presentes podres ») e que no Brasil pode receber o nome de « inimigo oculto », mas que eu chamaria apenas de « presente pequeno ». Fizemos isso no natal do ano passado. Pegamos coisas que tínhamos em casa e não queríamos ou precisávamos mais e embrulhamos lindamente. Eram coisas como uma cebola, um brinquedo de fazer bolhas, uma panela velha, um rolo de papel higiênico, um chaveiro publicitário etc. A diferença desse jogo é que o mistério toma conta da rodada. Ninguém sabe o que tem dentro das embalagens e a gente só abre quando todos já pegaram alguma coisa. É engraçado. É muito barato. E é aconselhável que os presentes sejam unissex!

Por fim, saiba que todas as formas de amigo oculto podem ser combinadas e podem ser modificadas. A ideia é apenas reduzir em consumo e aumentar em risadas. Além dessas, muitas outras formas de presentear e agradar existem. Amigo oculto de mercado local, amigo de troca de cartas, troca de receitas, partituras, vidas no Candy Crush, doações para ONGs. Muitas! Não é tão difícil descobrir formas diferentes de se fazer presente na vida dos outros. Daí o nome « presente ». Viva isso! E boas festas.

Outros textos que escrevi sobre o assunto:

O Amigo Oculto de Talentos

Minimalizando Gastos no Amigo Oculto

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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