Existe amor na era do desapego

Por Diorela Bruschi

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Tenho alguns tios maratonistas na família e por muito tempo guardei algumas perguntas para fazer a eles. Pra que tanto esforço se no final vai ganhar só uma medalha de participação mesmo? Pra que acordar 5h da manhã para correr passando frio ainda? Pra que sentir dores nos joelhos, nos pés, nas costas, se no fim das contas, só quem sabe do seu tempo é você mesmo?

Nunca cheguei a fazer essas perguntas diretamente a eles por dois motivos. O primeiro porque vi que seria meramente desmotivador. O outro porque acho que encontrei uma resposta que me serve bem (não necessariamente a resposta verdadeira). É simples. Eles se esforçam tanto porque encontraram algo prazeroso para competir com eles mesmos. É o velho e bom « eu quero ser melhor hoje do que eu era ontem ». E isso é lindo e merece todo o meu respeito!

Muito embora a corrida, para mim, ainda seja uma atividade de muito mais sacrifício que prazer, posso entender esse prazer em outros prazeres da vida, Amélie Poulain!

Um dos meus prazeres atuais e também minha competição comigo mesma tem sido em torno do desapego. Desapego de coisas, que fique bem claro. Não é desapego de gente que me ama e eu amo de volta. Não é desapego de responsabilidades que assumi. Não é desapego de valores que me fazem uma pessoa legal. É desapego de coisas, simplesmente para dar mais espaço para eu ser tudo que eu quero ser.

É um exercício, e como todo condicionamento, tem sua dificuldade. Tem seus desafios e seus suspiros de « ai, não consigo », « ai, isso não é pra mim ».

Depois vai virando uma sensação deliciosa. Uma sacola de roupas boas doadas para uma associação da minha cidade. Uma caixa de trecos novinhos doados para a lojinha que arrecada dinheiro para salvar animais. Uma leva de livros para uma biblioteca pública. Maquiagens que ficam muito mais bonitas nas minhas amigas que em mim. Vai tudo pra frente. Coisa muito feia, rasgada ou sem salvamento, vai pra reciclagem mesmo. Mas coisa bonita, nova, usável e reinventada, vai pra quem eu sinto que ficará melhor com aquilo que eu. E coisa que eu preciso? Essas ficam comigo!

Mas o prazer de passar pra frente é tanto que a cada dia quero fazer mais uma sacola. Quero abrir mais espaços, ter menos poeira para tirar. Mas não é só isso.

Quando vi os últimos trágicos eventos com o rompimento das barragens em Mariana, ainda me perguntei se realmente precisávamos daquilo tudo. Precisávamos de tanta extração de minério, de tanto minério? Mesmo? De tanto tudo? Dessas montanhas que viraram lama… E aí está mais uma resposta que eu não tenho. Qual o grau de necessidade de tudo isso, não sei. Mas sei que chegou a um ponto evidentemente crítico. E aí, de novo, me veio a impressão de que a parcimônia era fundamental. E que não podemos aceitar que o mundo ache normal a obsolescência programada para trocarmos de celular a cada ano. Que não precisamos ter o carro da moda para sermos aceitos por um cliente. Que não é necessário ter mais bolsas do que dias da semana para posar pro instagram. Nem mais bijuterias que os dias do mês para fazer parte de qualquer turma.

Desapegar de coisas e do que é ditado como necessidade virou também uma questão de sustentabilidade. Abrir espaços para sermos mais autênticos num movimento de reverência ao planeta e ao ritmo normal de adequação da natureza é o que temos para a nossa geração antes que tudo seja perdido. E esta é atualmente a minha cachaça. Desapegar e deixar de cobiçar coisas para nos apegarmos ao que realmente tem valor, mais do que nunca, me parece fazer sentido. E o que realmente tem valor para a vida de cada um?

É uma variável.

Perguntei para minha amiga Fernanda, do blog Minimalizo (link abaixo), como ela fazia para desapegar de objetos de valor sentimental. Ela me contou que ainda guarda uma gaveta pequena de lembranças, mas que de modo geral « Os objetos perderam valor sentimental pra mim [ela], porque eles são apenas objetos. O sentimento está dentro de mim e independe deles”. Na lista Must Have da minha amiga agora está o tempo para encontrar os amigos, apreciar lugares, jogar baralho com a família, abraçar, conversar, estar presente e ouvir.

Faz sentido! O sentimento não está condicionado à materialidade. Mas se você ainda precisar disso, guarde. Se não, passe para quem precisa. Não é mesmo, Marie Kondo? Ninguém está impondo para ninguém desapegar de nada. É uma escolha pessoal e um desafio íntimo. Como o maratonista, cada um tem seu tempo.

Mais do que nunca, o mundo está precisando do essencial e de uma certa leveza. Por isso a minha corrida tem sido para reduzir consumos em todos os níveis materiais. Ainda estou longe de ser campeã, mas quem disse que estou disputando com os outros!

Para aproveitar o embalo, neste sábado, acontecerá em BH a XI Feira Grátis da Gratidão (links abaixo). Uma feira apenas para doações com foco em atitudes mais sustentáveis. Conversei com a Alcione, uma das organizadoras do evento, e ela convidou todo mundo para participar também: “Faça seu cartaz, etiquete, deixe sua marca nos seus desapegos. Veja o mundo com o olhar do outro. Seja protagonista e anfitrião do evento. Doe consciência”. E eu acrescento: Seja grato pelo que chegou até você, mas saiba ser grato também ao poder oferecer alguma coisa pra esse mundo. Existe amor na era do desapego, meu querido.

Blog Minimalizo, da Fernanda e da Lud.

Feira Grátis da Gratidão.

Evento no facebook da Feira Grátis da Gratidão, que acontece dia 14 de novembro na praça Floriano Peixoto, em Belo Horizonte.

Conheça outras opções sustentáveis, para você de BH.

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Sobre Diorela Bruschi

Advogada, redatora e professora, vive entre o Brasil e a França e seus contrastes culturais. Autora dos blogs Direito é Legal e Saída à Francesa, aprecia a vida em comunidade ...

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