Moda slow na prática: NUU Shoes

Por Bia Perdigão

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A cadeia de produção da moda é, muitas vezes, um mistério para nós. Afinal, é muito difícil termos a certeza de suas origens. Ao vestir uma peça de roupa ou calçar um sapato, são poucos aqueles que questionam sobre os materiais, as pessoas que trabalharam naquilo e as inspirações por trás da criação. Aliado a isso, somos, infelizmente, ensinados a consumir sem pensar. Ao mesmo tempo, outros produtores fazem, lentamente, um caminho inverso dentro do mundo da moda. E eles, assim como nós, encontram dificuldades e recompensas ao longo do processo.

É o caso da marca de sapatos NUU Shoes, baseada em Belo Horizonte. Criada por Marina Lerbach e Marcela Torres, a NUU se identifica como uma produção pequena, artesanal e lenta e lançou sua coleção de estreia em abril desse ano.

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Foto por Samuel Mendes | Modelo: Ana Sofia Meinberg | Styling: Anaelisa Scalon | Make Up & Hair: Renata Vilela | Vestido: acervo pessoal

“Eu acho que é importante conhecer bem a sua cadeia, porque hoje, principalmente quando se fala de terceirização, é muito fácil entregar seu produto e falar que não sabia, que nada acontece”, diz Marcela durante uma visita que fiz à fábrica de Paula Bahia, onde a maior parte dos sapatos da NUU é feita. A fábrica é pequena para os padrões mundiais, mas o trabalho não para. As duas, enquanto me levam para um tour pela produção de um sapato, conversam com os funcionários e conferem os últimos ajustes das peças. Elas concordam que, entre as grandes dificuldades de montar uma marca artesanal, estão o modo de produção em si e a constante busca por fornecedores: “temos muita gente ajudando, mas são coisas muito picadas, não temos uma fábrica em que entra tudo e já sai pronto, levar em um, levar em outro [atelier] é muito demorado e muito difícil”, diz Marina. As duas são, oficialmente, as únicas funcionárias da marca, toda a produção é terceirizada e suas prespontadeiras estão espalhadas pela região metropolitana de BH. Marcela acrescenta: “você está competindo, na verdade, com todo mundo, com quem tem um poder de compra muito maior que o seu. […] Então é difícil produzir pouco, tem que procurar bons fornecedores e comprar sempre deles, porque eles precisam confiar em você, ver que sua produção está evoluindo. É quase uma parceria mesmo”. Por ser uma produção pequena, a NUU tem que driblar aspectos da indústria que a maior parte das produções pode ignorar. Muitos fornecedores, por exemplo, trabalham com uma quantidade mínima de produtos, cores, tipos de couro… “Então tem que fazer um jogo entre o que está disponível, a sua criatividade, e às vezes pensar em uma coisa diferente, meio fora do padrão, para ter um produto criativo, competitivo”.

Marina Lerbach e Marcela Torres

Marina Lerbach e Marcela Torres

Orgulhosa, Marcela me mostra um dos sapatos para a nova coleção de Primavera/Verão da NUU (prevista para lançar em outubro/novembro) e conta que, mesmo assim, existe uma maior liberdade em ser uma produção pequena. As diversas cores da peça seriam um problema para uma fábrica que é movida pela necessidade de gerar sempre mais lucro, mas não para uma produção artesanal. As duas buscam inspiração tanto em detalhes e na arquitetura das grandes cidades quanto no comportamento de seus habitantes. “A gente geralmente começa na pesquisa, pensa, desenha e depois temos que fazer certas adaptações”, conta Marina. Essas adaptações envolvem limitações de fornecedores e de usabilidade do sapato. “Tem que trazer pro lado comercial, pensar no que a gente usa. Sapato é uma coisa que está sempre em contato com o chão. Quando a gente pensa em um conceito, quando começamos a mergulhar em um tema, já vamos pensando na forma e nos materiais”, comenta Marcela. Para tentar fugir das tendências, as duas buscam uma atemporalidade no design que permite que o sapato continue sendo usado e vendido independente da temporada. “Importa quando foi feito? Se o design é bom, ele continua”, observa Marcela. Ainda assim, é necessário prestar atenção nas estações climáticas, já que não é viável lançar uma sandália no meio do inverno, mesmo no inverno brasileiro. No entanto, as datas “corretas” do mercado e a pressa em lançar coleções enormes, uma atrás da outra, são coisas que não preocupam as designers da NUU.

Uma das botas da coleção AW15 da NUU

Uma das botas da coleção AW15 da NUU

O slow e seus adeptos fazem escolhas sobre a quantidade de produtos feitos e sobre quem faz os mesmos. Marina e Marcela tentam buscar em seus fornecedores qualidades que necessitam para os sapatos e que estejam em harmonia com a marca. Os preços são conversados, respeitando o trabalho de cada um. “As pessoas acham que o preço do produto tem que abaixar só em função de quem está fazendo”, comenta Marcela, “e nós achamos que não é bem por aí, se o sapato ficou em um preço que a gente acha inacessível, temos que olhar a cadeia toda e não só falar com o fornecedor para abaixar o valor”.

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Bia, trabalhando nos saltos para a nova coleção

Isso é possível, sobretudo, graças ao fato de que a NUU vem de uma produção local. “Quando a gente pensou a marca, pensamos ela bem pequena”, conta Marcela. Elas não têm escritório e nem loja, mas isso é, novamente, uma questão de escolha. “Eu acho que você tem que avaliar bem seus custos para o seu sapato também chegar em um preço justo. A ideia é fazer o máximo possível com o mínimo possível”. Marina completa: “e a gente sempre fala também sobre ser uma marca enxuta, questionar se realmente precisamos vender tanto. Ter escritório, campanhas milionárias…”. Mas, além do presente, quando pergunto pelo futuro da NUU, as duas chegam ao consenso de priorizar a construção da identidade. “Estamos sentindo muito a recepção das pessoas. Queremos construir a imagem da marca muito mais do que fazer uma produção enorme. Quando você produz uma quantidade muito grande, você pensa mais na venda do que na imagem”.

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Funcionário da fábrica de Paula Bahia, Walmir

Um aspecto muito importante da marca, e uma característica do slow, é o contato com as consumidoras: “é muito gratificante quando admiram o seu trabalho e entendem a sua marca”, conta Marina. “Tentamos ter esse contato para saber quem são elas, o que gostam e percebemos que são pessoas influentes, muito legais e interessantes”. Cultivar essa relação é quase impossível para marcas maiores, onde criar a noção de exclusividade e desejo fala mais alto do que as vontades do próprio cliente. Ao invés de campanhas de marketing, uma marca local tem o privilégio de conhecer seu público de perto, entendê-lo e, principalmente, evoluir a partir de cada compra. “A gente é apaixonada pelas nossas clientes! A gente ama elas (sic), é verdade!”, diz Marcela, rindo. Assim como as clientes, os artesãos também são apaixonados pela marca. As duas me contam histórias sobre as pessoas que se surpreenderam com a NUU. “Temos reconhecimento das pessoas que compram e das que fazem, isso é o mais legal. Não queremos que isso acabe no processo de ficar grande”.

Silvia e uma pequena amostra da paleta de cores da nova coleção.

Silvia e uma pequena amostra da paleta de cores da nova coleção.

Na página do Facebook da marca, elas divulgam fotos de todos que participam da montagem dos sapatos, algo que chama a atenção de suas clientes e traz felicidade para quem está trabalhando. “Eu acho que as pessoas gostam de ver a cara de quem faz. É tão legal compartilhar isso com quem está usando”, conta Marina. Esse tipo de valorização é o que diferencia a NUU, todos podem fazer parte da marca e são bem vindos. “Ela não é só quem está costurando, ela faz parte do universo”, afirma Marcela.

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Dona Conceição

São ações assim, pequenas mas gigantes ao mesmo tempo, que ajudam a moldar uma nova consciência hoje. O mercado slow ainda é tímido no Brasil, mas está crescendo. “As grandes marcas e os consumidores precisam começar a entender certas partes desse processo [de produção], para que se torne um mercado mais justo”, observa Marina. Muito se fala sobre repensar modos de vida, consumismo e problemas ambientais e, em um futuro próximo, as marcas serão obrigadas a acompanhar. São comportamentos que precisamos ver mudar nas pessoas. Parar, pensar antes de comprar e, principalmente, saber o que valorizar. “Consumir é um ato político, é um ato importante”, diz Marcela. O estilo de vida slow conecta pessoas interessadas em uma nova forma de consumir e produzir. Designer, artesão e cliente formam uma espécie de comunidade onde todos se beneficiam. A sensação de usar algo feito com criatividade e respeito ao trabalho manual não deveria ser um luxo, mas sim o normal. Estamos ainda longe de alcançar um modelo econômico em que isso seja viável para todos, mas, ao se aventurar pelo slow, marcas e consumidores estão trazendo cada dia mais essa realidade para perto de nós.

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Sobre Bia Perdigão

Movida por palavras e imagens, no jornalismo de moda compreende a interseção entre roupas e literatura, criação e opinião. Através do movimento slow, tem a oportunidade de conhecer pessoas que ...

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