Do local para o global

Por Bruna Miranda

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Pensado em reação à “fast life”, o movimento Slow Food se iniciou na Itália pelo jornalista Carlo Petrini, em 1986. Indo contra a padronização industrial do alimento requerida pela praticidade do nosso dia a dia, a atual ONG, desde sua origem, propõe um olhar para gastronomia no seu sentido mais amplo, como agente de fomento cultural, econômico e sócio ambiental.

A partir do conceito sobre o alimento “bom, limpo e justo”, a filosofia slow food alinhava as engrenagens da cadeia que existem entre o prazer de comer e suas implicações no ambiente em que vivemos. Ao alimento “Bom” associa-se o fato de ser saboroso, fresco e então próximo; ao “Limpo” atribui-se o fato de ser cultivado em favor da nossa saúde, do ambiente e da terra fértil que o produz; e ao “Justo“ a relação de respeito estabelecida entre o trabalho, o preço e o desenvolvimento do seu produtor. “Somos todos co-produtores!”, diz e gesticula Carlo Petrini, de forma enfática e a mais italiana possível, em palestra na última terça feira, 28 de julho, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte. Mas, volto nela daqui a pouco!

Ação de empenho local, o movimento toma forma global, garantindo uma de suas premissas. Em 1989, a partir de um manifesto escrito por Folco Portinari, novos países endossam seu conceito e o movimento, que conjuga o prazer de comer e consciência ambiental, desde então vem estabelecendo laços e parcerias com novos territórios e pessoas que vem se relacionando de forma mais humana com o tempo e com a vida.

“É um momento histórico especial em que vivemos”, disse em alto som o italiano, com delicadeza, referindo-se ao interesse de um líder de uma instituição religiosa pela sustentabilidade, deixando claro ”não pela sua crença religiosa, espiritual, mas pela mudança dos paradigmas com as quais estamos convivendo”. A partir de uma gastronomia holística, antropológica, Carlo Petrini relacionou a agricultura à vida, uma vez que a terra fértil é história, é tempo, é cultura, é semente de uma comunidade, é mãe. “E nós, somos todos irmãos”, finalizou. Fraternidade e economia participativa são as denominações usadas por ele para defender um novo humanismo e os novos paradigmas daqui para frente.

Carlo Petrini Seminário Belo Horizonte Review Slow Lifestyle

Carlo Petrini no seminário “Gastronomia Sustentável como Valorização das Culturas Regionais”, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, no dia 28 de julho de 2015

A partir daí, ideias, focos de preocupações mais específicas do movimento e soluções foram expostas por Carlo: um país que defenda suas comunidades rurais e urbanas a partir da reeducação alimentar; uma economia rural conectada com a economia urbana; um estrutura social moderna para que o jovem rural possa projetar sua vida na sua região, fomentando o seu desenvolvimento. “Levar a eles tecnologia, internet, telefone…”, afirmou, com o seu portunhol italiano, segundo ele mesmo. E assim, de forma mais simplificada, sugere a reconstrução da nossa gastronomia e nosso patrimônio rural.

Um palestra cheia de vontade de transformação, com posições muito coerentes, embora, para alguns, possa até parecer o contrário. Acho que temas complexos como esse enfrentam muitas barreiras por termos mal utilizados em discursos mais radicais, como sustentabilidade, ecologia, entre outros que vão sendo empregados e supra utilizados até que se tornam enfadonhos ou banais.

Como não sou muito de bandeiras, meu interesse está mais no comportamento e no sentido que ele faz para o nosso bem estar e para a nossa convivência. É por isto que gosto do Carlo Petrini e acredito muito na necessidade de mudança que ele, há 29 anos, vem propondo. Coincidência ou não, o termo sustentabilidade chegou mais perto de mim pela gastronomia, e assim fui descobrindo e desfazendo as minhas barreiras. Hoje posso dizer que tenho o desenvolvimento regional servido à minha mesa e acho isto muito legal.

Ah! Embora ele não tenha se referido, na palestra, ao lançamento do aplicativo do Slow Food, motivo pelo qual veio ao Brasil, acho que também vale o conhecimento. Um aplicativo vendido pela ONG, sem fins lucrativos, onde você escolhe a região que quer ter acesso a lugares e feiras livres que fazem parte deste movimento. Afinal, para tratar de temas locais de impactos globais, só mesmo a internet para fomentar e difundir mundialmente as informações que nos interessam. Para saber mais visite o site do Slow Food Brasil.

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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