Agenda | Como foi a sessão comentada de lançamento do documentário The True Cost em BH

Por Bruna Miranda

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O lançamento do filme The True Cost em BH, na última sexta, 29 de maio, no MMGerdau, em sua data de lançamento mundial, foi mais um encontro incrível com profissionais e pessoas interessadas e/ou engajadas nos temas da moda ética e do consumo consciente. O evento aconteceu em uma parceria do Review com o Fashion Revolution Brasil e com apoio do MMGerdau – Museu das Minas e do Metal e da jornalista e professora de ética Valéria Said. Em todo o mundo, a campanha apoiou lançamentos e sessões comentadas. Assim como no Fashion Revolution Day, no dia 24 de abril, foram vários países unidos no incentivo à transmissão do documentário, que aconteceu inclusive no Festival de Cannes.

Saiba tudo sobre o filme, o evento de lançamento em BH, os convidados para a sessão comentada e assista aos trailers (com legendas em português)

THE TRUE COST BELO HORIZONTE MMGERDAU REVIEW MODA ETICA

Como vinha acompanhando o trabalho do diretor Andrew Morgan e sua equipe desde 2013 – quando eu atuava com o site Exemplar id – do projeto para financiamento coletivo no Kickstarter às gravações pelo mundo, sabia mais ou menos o que esperar do documentário. Mas não imaginava que viesse com essa profundidade e impacto. Todos os problemas relacionados à indústria da moda são abordados no filme, que já considero uma utilidade pública e deve – ou deveria – ser exibido em colégios, faculdades e afins, pois não se trata de um tema voltado exclusivamente para quem gosta de moda ou atua com a moda ética. As questões que envolvem o consumo excessivo; a poluição dos rios pelos tingimentos químicos; os agrotóxicos nas lavouras do algodão; a saúde dos trabalhadores e da população, contaminados pelos venenos da indústria têxtil e dos curtumes; os malefícios do fast fashion; a exploração e violência sofridos pelos trabalhadores e suas famílias; a miséria; o colapso do complexo Rana Plaza, em Blangladesh; e ainda outros, todos são de alcance e consequências mundiais. A equipe do filme conseguiu reunir essas mazelas e ainda acrescentar uma história principal, a da trabalhadora indiana Shima, que sofre abusos diversos em seu trabalho na indústria têxtil (melhor você assistir do que eu contar, principalmente por seu depoimento final).

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Ao focar nas atitudes positivas de quem já faz moda diferente, ou nas situações degradantes causadas pela indústria, os relatos nos chocam (mesmo quem já sabe sobre o que se passa no filme não consegue ficar ileso aos dramas apresentados) ou nos inspiram, trazendo tudo aquilo que debatemos com o Fashion Revolution de uma maneira muito mais próxima. Também dá para rir com o documentário: as cenas com blogueiras dando chilique por cada nova peça de roupa barata adquirida (e que elas nem sabem se vão usar, mas “precisavam” comprar), os delírios da black friday…

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O longa, muito bem executado, funciona como um excelente reforço para divulgar as melhorias que a moda precisa. É um empurrão forte e necessário para que realmente pensemos em nosso consumo. Traz entrevistas com nomes influentes da indústria, como Lucy Siegle (também produtora executiva do filme), jornalista especializada em lifestyle ético no jornal britânico The Guardian e autora do livro “To Die For – Is Fashion Wearing Out The World?”; Orsola de Castro, designer especialista em upcycling e co-fundadora do Fashion Revolution; Tim Kasser, Professor de Psicologia, PHD, autor do livro “O Alto Preço do Materialismo”; a designer Stella McCartney; Rick Ridgeway, vice presidente de assuntos ambientais da marca Patagônia e Livia Firth (também produtora executiva do filme), diretora criativa da Eco Age e criadora do projeto Green Carpet Challenge. Maravilhosamente, o diretor Andrew Morgan resgatou a participação de Livia no Fashion Summit de Copenhagem, no ano passado, quando deixou sem resposta uma executiva de sustentabilidade da H&M, ao ser perguntada sobre o salário mínimo – dito suficiente para Bangladesh – que a marca de fast fashion oferece aos seus trabalhadores.

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Depois do filme, uma conversa com Raphael Lima, biólogo; Luciana Duarte, do site Moda Ética; Valéria Said, professora de ética, articulista e jornalista engajada no movimento Slow Fashion; ; Bruna Miranda, Fashion Revolution Brasil/Review; Cloé Disse: a blythe mineira e seu criador, o figurinista Alex Dário; Rafael Morais, da Grama Roupas Ecológicas; as blogueiras Bianca Perdigão, do Girls Next Dior e Ana Carolina Rodarte, do Fashiombudz

Assistir ao True Cost é relembrar que todos nós estamos envolvidos nessa cadeia exploratória, todos nós que compramos e gostamos de roupas. Mas a que custo? Não dá mais para viver em um mundo ilusório que baseia seus valores e entretenimento no círculo frenético e vicioso das compras/descarte. Mesmo para as compras necessárias, chegamos em um ponto em que não podemos mais simplesmente ignorar o que acontece por trás, para que continuemos confortáveis. Não precisamos entrar no processo de culpa, mas sim de atitudes, questionamentos, melhores escolhas, mais durabilidade, menos descarte. Nunca o apoio às empresas éticas foi tão vívido. Felizmente, já não dá mais, também, para contar nos dedos a quantidade de pessoas que tem agido diferente, fazendo negócios com respeito, valor à vida e ao meio ambiente, empoderando comunidades, criando vida. O comércio justo tem crescido, em todas as áreas. No filme, um exemplo é a excelente representação das ações e valores da fundadora da marca People Tree, Safia Minney.

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Se passamos tantos anos em euforia com a moda e seu glamour, sua beleza, sua arte, podemos agora absorver sua importância adicionando o questionamento sobre a produção de nossas roupas. Não é o que a grande indústria globalizada deseja, mas é o que o mundo necessita. Como consumidores, somos tão poderosos! Comprar de marcas de fast fashion – ou as de fora desse nicho mas que também são conhecidas por tirar vantagem da exploração – sabendo desse background, é como aceitar que ela aja assim e não se incomodar. É assinar embaixo e concordar que ela continue agindo dessa maneira. Nenhuma empresa sobrevive sem seus clientes e nenhuma empresa quer perdê-los. Quase todas as empresas só querem lucro a qualquer custo e nenhuma empresa é impossibilitada de melhorar as condições em que atuam em nosso planeta, dependentes que são de uma mão de obra tão vasta quanto a da indústria têxtil – e, em sua grande maioria, feminina. Deixando claro que não estamos satisfeitos com tanta ganância e exploração, as empresas terão que se adaptar.

Outro ponto discutido foi a situação da imprensa de moda atual, que, em sua grande maioria, permanece rasa com relação a seu conteúdo e presa em relacionamentos comerciais e/ou amigáveis. A moda encarada como uma constante coluna social e estática em toda a sua efemeridade. Sim, o mundo é cada vez mais rápido e mutante e a moda se adequou de vez a esse cenário. Mas precisamos dar espaço, na mídia, principalmente, para discussões que reacendam, dentre outros, as tradições, a qualidade, o duradouro, os direitos humanos e a proteção ambiental.

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Voltando ao filme, na cena em que câmeras de uma loja de fast fashion registraram o momento da abertura de suas portas com centenas de mulheres correndo e gritando em busca de roupas baratas, penso que cabe o momento da conversa em que foi dito que a nossa consciência pode evoluir e trazer mudanças reais quando, cada vez mais, percebemos que nosso valor não está embutido em compras excessivas, que o que na verdade nos preenche são os valores simples e honestos. Que a mudança começa na educação das nossas crianças, ao receberem valores superiores ao materialismo sem sentido. A busca humana por consolo e holofotes através das compras é um dos fatores que nos levou a chegar nesses pontos desastrosos que o filme retrata. Enquanto isso, empresários e publicitários aproveitam cada vez mais dessa condição humana para vender. Mudar não é fácil, mas podemos sempre evoluir, lentamente, e perceber que é compensador. Nossos produtos não são descartáveis, nossos recursos não são infinitos e estamos no exato momento de repensar nossas atitudes e rever nossos valores.

Tudo isso e mais um pouco foi debatido em nossa conversa após o filme. Mais uma vez, teríamos assunto e disposição para mais algumas horas de troca de ideias e pensamentos inspiradores!

TRUE COST MOVIE BELO HORIZONTE MMGERDAU REVIEW

Não deixe de assistir ao The True Cost! Como muitas pessoas não puderam comparecer ao lançamento, existe a possibilidade de organizarmos uma nova sessão em BH. Se for confirmada, logo falamos aqui. Também dá para comprar o filme pelo site oficial, por 10 dólares, com diversas opções de legendas. Nosso muito obrigada, mais uma vez, a todos que compareceram, ajudaram na produção, aos profissionais convidados, à equipe do MMGerdau, aos que ajudaram na divulgação do evento e às marcas de moda ética/sustentável que estiveram presentes também para o sorteio de peças, a Grama Roupas Ecológicas e a A Passeio. Logo nos encontraremos de novo!

Alguns dados expostos no filme:

– Estima-se que, hoje, 1 em cada 6 pessoas trabalham na indústria da moda mundial, o que a torna a maior dependente de trabalhadores de todas. 
– Hoje, nós consumimos 500% mais roupas do que apenas duas décadas atrás.
–  A moda é a segunda indústria mais poluente do mundo, atrás apenas do petróleo. 
– Há cerca de 40 milhões de trabalhadores de fábricas de vestuário e cerca de 85% deles são mulheres. 
– Tão recentemente quanto os anos 1960, os Estados Unidos produziam 95% de suas roupas. Hoje, produzem apenas cerca de 3% e os outros 97% têm como origem os países em desenvolvimento ao redor do mundo. 
– Os três piores desastres na história da indústria mundial da moda aconteceram dentro do mesmo ano, tirando a vida, no total, de mais de 1.500 pessoas. 
– A indústria mundial da moda, atualmente, é uma indústria de mais de 2,5 trilhões de dólares, sempre em rápido crescimento.

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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